agosto 12, 2007

Barbaridade

Um texto com quase dois anos teve direito a um comentário que me deixou satisfeito, pois defende uma visão diferente daquela que é maioritária neste espaço de debate. Sendo o objectivo deste ser plural e abrangente, é deveras importante que surjam textos de pessoas com outros modos de pensar, que muito respeito mesmo discordando. No entanto, quando uma opinião é criticada, o autor da mesma tem direito a rebater os argumentos apresentados, se considerar que o deve fazer. É a beleza da democracia e o risco da escrita. Assim, com todo o respeito, irei “comentar o comentário” citado, esperando que tal contribua para o enriquecimento do debate de um tema tão polémico e importante para qualquer educador.

Para ser mais simples para mim e para quem leia este texto, irei dividir o comentário em partes sem nunca perder o significado do seu todo.
Gisela, autora do comentário, começa por afirmar: «Estou abismada com esta forma de pensar: "educar" um bebé de 4 meses!! Deixá-lo chorar porque está com "manha"!
Paremos um pouco para pensar. Abramos um pouco os nossos horizontes mentais.»

Provavelmente nesta parte surge a questão mais importante e onde reside a maior diferença entre duas visões tão antagónicas. Pode-se ou não educar uma criança de 4 meses? Estará aqui, provavelmente, a razão para que pouco ou nada haja em comum nestas duas formas de ver esta problemática. Poderíamos entrar numa discussão académica mas penso que tal será desnecessário e desadequado. Apesar do valor claramente superior de conclusões de pessoas cuja função na sociedade é estudar temas pedagógicos, será mais correcto usar neste espaço o bom senso e o poder de reflexão individual que todos temos. Com que idade se poderá educar uma criança? Já ouvi muitos comentários de senso comum relacionados sobre esta questão. E devo dizer que os mesmos geralmente se encontram relacionados com o comportamento dos educandos dos autores de tais comentários. Obviamente que não poderemos educar uma criança de 4 meses a fazer tarefas só possíveis com 10 anos, mas será de todo impossível educá-la? Qualquer pessoa que tenha vivido de perto os primeiros tempos de vida de vários bebés facilmente verifica que, salvo raríssimas excepções, existe uma relação entre a postura dos educadores e os meios que o bebé necessita para adormecer. Deste modo, como se pode afirmar que não existe aqui educação, com processos e resultados? Há sempre quem afirme que tais resultados estão única e exclusivamente centrados nas especificidades do bebé e não nos processos postos em prática pelos educadores. Obviamente que há crianças que devido, por exemplo, a questões físicas terão mais dificuldade em ter um sono descansado (as cólicas são um excelente exemplo). E há muitos outros aspectos que facilitam ou dificultam esse mesmo sono. No entanto, a regularidade espantosa que existe na relação entre o comportamento dos educadores e os modos que as crianças necessitam de ser adormecidas, demonstra que há educação aos 4 meses, boa ou má (esta parte já é mais controversa, devendo ficar ao critério de cada um).

Em seguida, Gisela afirma: «Um bebé acaba de passar 9 meses no quentinho, na barriga da mãe. Ele nasce com necessidades das mais básicas que há: comer, dormir e RECEBER CARINHO, SER ABRAÇADO.»

Esta é a parte que sempre me dá vontade de ser malcriado… As minhas crianças foram educadas de modo a que, o mais cedo possível para elas, conseguissem dormir a maior parte da noite e adormecessem sem a necessidade da presença de um adulto ou de procedimentos tal como embalá-las. No entanto, sempre RECEBERAM CARINHO E TODOS OS DIAS AS ABRAÇO. Não posso observar esta suposta superioridade moral sem a criticar ferozmente, por tal facto peço desculpa.

Em seguida, podemos ler: «Ou talvez achem que um bebé deve ter a independência e a maturidade de uma criança de 10 anos (e mesmo assim)?
Por favor tentem pôr-se no lugar de um bebe desta idade, ou pelo menos imaginar como será. É uma barbaridade, e peso cada letra desta palavra, deixar chorar um bebé minutos a fio só porque sim, porque assim não se tornará independente. Fi-lo algumas vezes, instigada por pessoas bem-intencionadas que mais não fizeram que repetir-me aquilo que ouviram e aquilo que fizeram, mas apercebi-me do meu erro.»

Este pedaço de comentário merece duas chamadas de atenção. A primeira prende-se no perigosíssimo “e mesmo assim” dentro de parênteses na questão que é colocada. Se esse reparo se prende com a incapacidade em uma criança de 10 anos ser educada, aí compreenderei melhor o porquê de cada vez ser mais complicado ser professor do 1º Ciclo do Ensino Básico. Mas acredito que não seja com esse propósito que tal reparo tenha sido escrito. O segundo pormenor que merece ser comentado é o “só porque sim”. Faz-me lembrar a paródia que os Gato Fedorento fizeram a Marcelo Rebelo de Sousa. Quem não compreender porquê, talvez deva vê-lo com atenção. Acredito que depois de visualizarem tal filme compreendam o que penso sobre este “só porque sim”.

Seguidamente, Gisela escreveu: «Dei IMENSO colo à minha filha, hoje com 14 meses, inclusivamente contra a opinião de muitos pediatras, também eles bem-intencionados mas encerrados no sistema vigente "um-bebé-deve-aprender-a-tornar-se-independente-logo-que-nasce" e hoje não, é uma criança dependente do meu colo.
Quando uma criança recebe todo o carinho de que precisa, e aqui incluo o famoso colo quando choram "sem razão", ela depois sentir-se-á segura e não duvidará do amor que sentimos por ela, tornando-se assim independente por ela própria.»

Estes dois parágrafos são de uma extrema importância. De tal modo, merecem vários comentários. Sobre o primeiro parágrafo muito há a dizer. Em relação aos pediatras, sendo eles formados em saúde infantil e não em Educação não lhes reconheço especial relevo neste tema, há excepção do seu conhecimento ao nível das necessidades físicas das crianças e da experiência que significa o acompanhamento do crescimento de muitas crianças. Em relação ao facto de um bebé necessitar de aprender a ser independente, tal não é o sistema vigente. É um facto. O saudável para o ser humano é ser o mais independente e autónomo possível, para o seu próprio bem. Nenhuma criança fica autónoma de um momento para o outro, é algo que se aprende, que se constrói. Quanto mais tarde começar tal aprendizagem mais complicado será para a criança. A sua criança tem somente 14 meses. Os resultados da educação que agora está a ter só mais tarde virão a ter efeito. A ver vamos que resultados terá o ela ser «uma criança dependente» do seu colo.

Sobre o segundo parágrafo lamento mas terei de lhe dar uma má notícia. Como disse há pouco, as crianças não ficam independentes por elas próprias. A experiência dos educadores diz exactamente o contrário. As crianças dependentes não são seguras, pois a sua segurança está demasiado presa a terceiros. E aqui entramos num ciclo vicioso: se não suficientemente independentes para serem seguros, não terão segurança para se tornarem independentes. Bastará observar adultos que foram jovens demasiado dependente dos pais para compreender tal processo.

Por fim, uma criança não duvida do amor que sentimos por ela se for amada, e não porque lhe damos colo a torto e a direito. Por um lado, há múltiplas formas de mostrar o amor que sentimos, e por outro, convém relembrar que o colo é extremamente importante mas, como tudo na vida, convém ser doseado. Ou seja, ela pode ter todo o carinho (incluindo muito colo) que necessita, sem ser adormecida dessa forma. E este último ponto é o que está em causa.

Por fim, o comentário termina com estes dois parágrafos: «É preciso mantermos uma mente aberta e o espírito crítico, nem que isso signifique irmos ao contrário daquilo que todos nos dizem, inclusivamente os nossos pais.
Por favor façam esse exercício e reflictam no que sentirá uma criança de meses, que não tem capacidade de raciocínio, quando chora e ninguém vem ter com ela.»

Como já me alonguei muito neste texto irei somente prender-me no segundo parágrafo. E sobre este pergunto: como se sentirá uma criança de 6 anos quando é repreendida por ter feito uma asneira? Obviamente que se sentirá muito triste. Não devemos então repreendê-la? Poderão retorquir que este caso é diferente, que o bebé nada fez de errado. Será? Ele está bem, confortável depois de comer, fralda limpa, tem sono e está na hora de descansar (e creio que ninguém põe em causa a importância de um descanso regrado do bebé). Como é mais confortável estar no colo, o que todos compreendemos, ele põe-se aos gritos. É um comportamento correcto? Mas poderão dizer: é um bebé, faz parte do seu instinto, e não tem capacidade de raciocínio. É um facto. Mas nós temos capacidade de raciocínio. E sabemos que o ser humano é um ser de hábitos. E sabemos que o sacrifício nosso e dele de o deixar chorar um pouco significará um bem maior para todos num futuro próximo e potencialmente para o restante. Não valerá a pena o sacrifício?

André Pacheco

Publicado por asampacheco em 09:04 PM | Comentários (2) | TrackBack

junho 22, 2006

“Inventem-se novos pais XII – Por fim…”

Apesar de considerar o tema dos últimos textos de uma importância brutal e uma fonte inesgotável de saudável reflexão, resolvi escrever este texto para fechar, momentaneamente, o tema. Naturalmente, deverá sair daqui um texto um pouco maior que o desejável, visto ir tentar resumir tudo o que foi discutido e resumir todas as ideias que foram proferidas pelos diversos intervenientes na reflexão.
Infelizmente, mas compreensivelmente, a discussão centrou-se na questão dos açoites. Isto é, sendo algo controverso, centrou-se a discussão no acessório, passando para segundo plano as questões centrais relacionadas com o tema. Mais importante que a forma é o acto. Independentemente do modo como se alcança, é imprescindível a existência de regras e a obediência dos filhos relativamente aos pais. O comportamento regrado mostra-se necessário ao equilíbrio emocional da criança e, consequentemente à sua assunção do respeito pelo outro. Em relação à obediência, vivem-se tempos confusos neste campo. Para dar um exemplo, há pouco tempo, quando uma excelente professora procurava demonstrar a importância da obediência pela autoridade, no caso do professor na sala de aula, um aluno afirmou que “obedientes são os cães”. Perante tal facto, teve a professora de ter a tarefa hercúlea de explicar a noção de obediência e de autoridade ao dito aluno. Felizmente, os jovens são seres inteligentes e abertos, e apesar de todas as ideias nefastas de que este jovem tinha sido alvo no que concerne a estes dois conceitos, foi possível trazer algum bom senso à sua mente.
Para se incutir regras nas crianças e a obediência relativa aos pais, dois factores tornam-se necessários: amor e firmeza. Qualquer um destes factores sem o outro mostra-se insuficiente. Quando se ama quer-se a felicidade dos filhos. Como tal, por muito que nos faça sofrer, temos que ser firmes nas nossas opções quando são tomadas tendo como fim o bem deles, e não ceder egoisticamente, para cessarmos o nosso sofrimento e, simultaneamente, potenciarmos o deles.
Perante todos estes factores, não bastando o amor, terá de haver formas através das quais os pais possam demonstrar inequivocamente a sua autoridade, necessária para o equilíbrio emocional e afectivo da criança, formas de exercer a referida firmeza. Independentemente do modo como tal é realizado, torna-se indispensável que exista. Deste modo, a defesa obsessiva do “açoite nunca” tem contribuído para a frustração e sensação de impotência dos pais perante situações problemáticas. Só para dar uma pequena noção da dimensão de tal movimento e a sua perigosidade, há pouco tempo na escolinha da minha filha, quando uma das coleguinhas delas estava a ter um comportamento altamente reprovável e foi repreendida por uma das técnicas da escola, a criança de apenas quatro anos proferiu a seguinte frase, com um pouco de sarcasmo à mistura: “Tu não me podes bater!”. Não me venham dizer que uma criança de quatro anos chega sozinha a esta conclusão. Que raio disseram a esta criança, e com que propósito, para ela ter uma saída tão triste e tão pouco educada. Quem quer que o tenha feito, acredito que não tenha sequer noção da machadada que deu na autoridade de qualquer educador desta criança. Por outro lado, compreendi o porquê desta criança, como muitas outras, criar tantos problemas na escola, quer com os educadores, quer com os colegas.
No entanto, muitas das situações podem, e devem, ser resolvidas por outros meios que não o açoite, sobretudo a partir do momento em que as crianças passam a ter maturidade para compreender essas outras formas de agir, de modo a que sejam eficazes. Estou a falar dos castigos e da chantagem emocional. Colocando em oposição estes dois procedimentos com o açoite, questiono-me: qual será mais violento para a criança? Ao primeiro olhar será o açoite, mais instintivo, logo, em princípio, mais irracional. Mas, caso se consiga juntar alguma racionalidade ao acto, não permitindo que o mesmo seja uma explosão de irracionalidade e violência, mas sim uma simples consequência do acto da criança, sem ressentimentos nem violência verbal, qual forma de agir lhe causará mais sentimentos negativos? Os castigos têm, normalmente, uma duração temporal considerável, o que cria um espaço de tempo onde alguns sentimentos negativos poderão formar-se e amadurecer na mente da criança, sentimentos esses tendo como alvo preferencial quem a colocou de castigo. Por outro lado, a chantagem emocional colocará um sentimento de culpa na criança, deveras mais violento emocionalmente do que qualquer outro modo de agir. Apesar de defender o açoite como última forma de agir, mas sem hesitar utilizá-lo quando necessário, tenho dificuldade em discernir qual dos modos de agir trará efeitos secundários mais nefastos, quando bem praticados.
Concluindo, o amor e a firmeza são cruciais para o bem-estar da criança, para que seja feliz consigo própria e com os que a rodeiam. Por outro lado, uma criança bem-educada faz com os pais se orgulhem da mesma, transformando-a num alvo de elogios, ao contrário do que sucede com as crianças mal-educadas, constantemente criticadas, o que contribui ainda mais para as suas atitudes negativas, criando um efeito bola de neve. Por fim, uma criança bem-educada faz com que os pais tenham prazer em partilhar o máximo de tempo possível com ela. Cada vez há mais casos em que, de algum modo, os pais só têm tempo de qualidade quando os seus filhos não estão presentes. Ainda há pouco tempo, quando questionada sobre as suas férias, ouvi uma mãe responder: “Quais férias? Com as duas miúdas em casa…”.
Estes três pontos demonstram que vale a pena o sacrifício de sermos firmes e exigentes com os nossos filhos no que concerne ao seu comportamento. Este sim é aquilo a que podemos chamar fazer um sacrifício pelos filhos. E essa firmeza e exigência não deverá ser inconstante, mas sim algo sempre presente, pois a ambivalência ou a inconstância conseguem ser mais destrutivas pedagogicamente que a exigência desmesurada ou o laxismo extremo.
Muito mais haveria a dizer, mas por aqui me fico, prometendo que em breve tentarei escrever novamente sobre a escola, num momento em que tal muito se justifica.

André Pacheco

Publicado por asampacheco em 09:43 AM | Comentários (5)

janeiro 28, 2006

“Inventem-se novos pais XI – O direito de bater dos pais”

Tenho de começar este texto com um pedido de desculpa ao José, autor deste comentário a um dos últimos textos (comentário efectuado a 23 de Dezembro), pelo facto de só agora escrever algo relacionado com o mesmo. Não o fiz por falta de vontade. Na verdade, só agora li o comentário, não tendo eu tido tempo para manter o blogue actualizado. Tendo em conta a importância do comentário do José, irei agora escrever algo sobre o mesmo.
Creio poder dividir o comentário em duas partes (pedindo mais uma vez desculpa ao José caso não concorde com esta divisão): uma primeira parte bastante interessante («O site e os três blogues são interessantes. Mas este sobre educação é um pouco obsessivo na defesa do direito de os pais baterem nos filhos. Em vez de passar a vida a bater, não seria preferível fazer o que os outros pais fazem: desviar os objectos perigosos e frágeis, comprar protecções para as tomadas, gradeamentos, etc.?»); uma segunda um pouco desnecessária («Talvez o André Pacheco tenha apanhado muito na infância. Mas não lhe serviu para recordar que não se escreve "haverão", mas sim "haverá".»)
Em relação à última parte pouco terei a dizer. Na verdade só poderei comentar a frase «Talvez o André Pacheco tenha apanhado muito na infância», visto que o resto da afirmação é pura e simplesmente uma forma de crítica sarcástica, a roçar a má educação, sem substância ou lógica, estando eu certo de que o José, mal a colocou no blogue, automaticamente se terá arrependido de tal facto, pois quase destrói a credibilidade de todo o comentário (num gesto apaziguador, irei olhar tal frase como uma chamada de atenção pelo erro gramatical por mim realizado, facto que eu agradeço, indo procurar onde tal erro se encontra para o corrigir… no entanto, tenho a dizer-lhe que poderei voltar a realizá-lo, este e outros erros gramaticais, risco que correm todos aqueles que escrevem um texto). Deste modo, em relação ao eu ter apanhado, ou não, devo afirmar que, do meu ponto de vista, tal afirmação é falsa. Só me lembro de ter apanhado duas vezes, apesar de ter apanhado mais vezes numa idade da qual não tenho qualquer lembrança de qualquer situação em que tenha sido castigado desse modo. Tendo em conta tal facto, penso poder afirmar que apanhei as vezes que o justificaram, pois caso contrário teria traumas relacionados com isso. Sei que devo ter sido, por vezes, castigado desnecessariamente do modo referido, tal como por vezes deveria ter sido castigado com um açoite e tal não aconteceu. Tudo isto é compreensível, visto os meus pais serem seres humanos, logo falíveis, que me amavam e queriam o melhor para mim.
Relativamente à primeira parte do seu comentário, já haverá mais a escrever. Primeiro devo fazer uma correcção: eu e a minha companheira desviamos dos nossos filhos os objectos perigosos e frágeis, comprámos protecções para as tomadas e colocámos gradeamentos caso se justificasse. Quando refiro objectos nos quais os meus filhos não podem mexer, apesar de se encontrarem ao seu alcance, falo, por exemplo, de telemóveis, comandos de televisão, leitores de vídeo ou DVD, aparelhos musicais, máquinas de lavar, computadores, gavetas com objectos que não brinquedos, tal como louça, documentos importantes ou de trabalho, etc.. Em relação a este ponto espero ter sido esclarecedor.
Por outro lado, no nosso caso não passámos a vida a bater. O que é óbvio, pois não temos qualquer prazer em fazê-lo. Aliás concordo com o José na crítica a todos aqueles que passam a vida a bater nos filhos. Tal como critico todos aqueles que agem como bananas, não batendo nos filhos de modo algum, diria mesmo, de uma forma obsessiva, preferindo anular-se face aos desvarios imperialistas dos seus rebentos. Ou seja, tal como a obsessão por bater é errada, o seu contrário também o é. Só o equilíbrio será a resposta.
Tendo em conta todos os factos por mim apontados, devo explicar ao José uma coisa: compreendo que ele considere este blogue «um pouco obsessivo na defesa do direito de os pais baterem nos filhos». Tal crítica é lógica, visto tal direito ser uma constante num considerável número de textos nele presentes. Mas o facto de o fazer tem explicação. Tal como me revolta o facto de os nossos pais e avós terem sido, na maior parte dos casos, educados de um modo extremamente violento, diria mesmo a um nível repugnante, também me revolta que hoje em dia se eduque de um modo ridiculamente permissivo, sendo o acto de bater num filho quase considerado crime, e severamente criticado pela sociedade actual, mesmo que tal acto se justifique pelo bem da criança. Por tudo isto, sinto ter a obrigação moral de assumir que, caso considere adequado, não tenho qualquer problema em dar um açoite aos meus filhos (não espancá-los, pois isso é pura e simples violência), de modo a afrontar a mentalidade vigente, e assim fazer as pessoas reflectirem sobre o modo como educam os seus filhos. Por fim, deixo uma questão: reafirmando a minha crítica quer à educação baseada na obsessão pelo bater, quer à educação baseada na obsessão pelo não bater, qual destas duas será a mais destrutiva no que concerne à formação de personalidades desregradas (e, consequentemente emocionalmente desequilibradas)? A de que os nossos pais e avós foram alvo ou aquela de que muitos dos nossos jovens e crianças foram e são alvo?

André Pacheco

Publicado por asampacheco em 08:10 PM | Comentários (13)

outubro 21, 2005

“Inventem-se novos pais X”

O último texto teve alguns comentários, todos extraordinariamente importantes. Quase parece que inventei três personagens e escrevi em seu nome: da Isabel, da Rute e do Miguel. Mas não, são pessoas que tal como eu entendem a importância da educação e/ou têm a sorte de viver o mágico crescimento dos seus filhos.
A Isabel fez um pequeno comentário com um enorme significado. O facto de termos passado de um extremo a outro no que concerne à forma como os castigos físicos, e outros, são olhados pela nossa sociedade. Passamos de um tempo em que a violência física era corriqueira para um tempo onde, para uma significativa falange da nossa sociedade, qualquer tipo de castigo sobre uma criança é olhado com reprovação, ao ponto de em algumas sociedades haver movimentos no sentido de proibir por lei qualquer tipo de castigo físico sobre as crianças (veja-se o caso inglês, com o escritor Salman Rushdie).
O comentário da Rute é mais longo e como tal foca muitos pontos de extrema importância e relevância. Primeiro, a questão sobre a idade em que se começa a educar os filhos. Não te preocupes Rute por acharem ridículo uma criança ter regras aos quatro meses de idade. Acredito que a educação de uma criança começa à nascença e, infelizmente, as pessoas que consideram esta visão ridícula acabam por sofrer sob diversas formas, assim como a criança, com o facto de menosprezarem a capacidade das crianças serem educadas em tão tenra idade. Outra das questões que a Rute foca, esta mais prática, é o facto de algumas crianças dormirem no quarto com os pais até tarde o que coloca em causa a convivência saudável do casal, se não mesmo, por vezes, o casamento. Para além dos problemas que coloca ao casal, normalmente infringe sofrimento desnecessário à criança quando, por fim, lhe retiram algo que ela vê como dado adquirido. Por outro lado, se tivéssemos permitido que a nossa filha dormisse na nossa cama durante a noite, hoje em dia ela não teria o prazer, ou pelo menos não seria tão significativo, de se levantar nas manhãs do fim-de-semana e enfiar-se a dormir na cama connosco. Depois, ainda no seguimento da questão das dormidas, frisou duas dificuldades enormes: uma muito grande, o deixá-los chorar quando o choro é só uma tentativa de não dormirem sozinhos nas suas caminhas (pois apesar de nós pais sabermos que é pelo bem deles - e isto posso afirmá-lo porque hoje em dia temos duas crianças com quatro e dois anos que vão para cama a horas decentes, para dormir, sem ser necessário efectuar ginásticas brutais para os adormecer, bastando deitá-los e eles ficam sossegados, porque assim estão habituados, e sabem que, quando os pais assim o entendem, é hora de irem dormir - custa imenso ouvi-los chorar); e outra dificuldade ainda maior, mesmo brutal: a de outras pessoas interferirem na educação que se dá aos filhos, muitas das vezes à revelia dos próprios pais que, por educação, tentam gerir a situação de uma forma o mais suave possível. No entanto, nem sempre é fácil, porque as crianças, sentindo nessas pessoas aliados para fazer o contrário do que os pais pretendem, se aproveitam, dificultando mais essas situações. Sei que essas pessoas não o fazem por mal, mas, se soubessem o mal que fazem com tais atitudes, estou certo que passariam a ter outra forma de acção. Pessoalmente, sempre que um pai ou uma mãe estão numa situação complicada com um filho tento transformar-me no homem invisível, não interferindo de qualquer forma (a não ser que me peçam para o fazer), pois sei os problemas adicionais que uma interferência exterior, seja em que sentido for, traz a esse pai ou mãe. A Rute fala também dos hábitos alimentares. Não poderia estar mais de acordo com ela também neste ponto. Quantos pais criticam os filhos ou porque não comem à mesa com eles, ou porque só comem se estiverem a brincar, ou porque só comem a ver televisão, etc.. Resumindo, criticam os filhos porque estes não estão habituados a sentar-se à mesa e pura e simplesmente partilhar calmamente uma refeição com a família, algo que pode e deve ser um prazer. No entanto, se formos ver os hábitos que foram incutidos nestes garotos desde bebés, facilmente se compreendem as razões pelas quais eles não são aquilo que os pais desejam… eu não teria coragem de por o defeito nas crianças, neste caso.
Por fim, um pequeno comentário do Miguel, mas que me obrigou a escrever este texto com a maior brevidade possível. A verdade Miguel, é que os meus filhos não são diferentes de todas as outras crianças… são terroristas como as tuas, pois estão na idade de fazer certas “patifarias”(ainda hoje nos riscaram o sofá, de ponta a ponta, os dois, numa cumplicidade invejável). O problema não está nas crianças fazerem asneiras, na verdade todas fazem. O problema está na forma como agimos perante tais acontecimentos. Caso as crianças não tivessem certos comportamentos não seria necessário educá-las. Aquilo que muitas pessoas vêm como comportamentos indevidos, nós vemos como oportunidades de educar os nossos filhos, para evitar que tais comportamentos se repitam. Mesmo assim, eles não cessam de um momento para o outro ou de uma forma permanente. Mas diminuem e, por outro lado, o facto de os combatermos (seja de que forma for) ajuda a criar nas crianças um conjunto de normas e regras seja de ordem moral, seja de ordem social. No fundo, ainda bem que os nossos filhos são uns terroristas, porque sem este factor nunca os poderíamos educar. Para terminar este ponto devo dizer que acredito que, de facto, as crianças têm feitios diferentes, logo, umas serão mais difíceis de educar que outras sobre determinados aspectos, no entanto, creio que não devemos confundir feitio com educação. Nunca poderemos usar o feitio da criança como forma de demissão do nosso papel de educadores. Deste modo, Miguel, como homem que acredita na educação que és, deves agradecer pelos teus filhos serem uns terroristas, estão a abrir portas para a formação das suas personalidades. E estou certo que daqui a uns anos, mesmo que não o digam, estarão agradecidos aos seus pais pelas pessoas que deles fizeram.

André Pacheco

Publicado por asampacheco em 11:35 PM | Comentários (3)

setembro 19, 2005

“Inventem-se novos pais IX” – Quando eles começam a movimentar-se (os meus pequeninos)

Mais de dez meses depois, eis que volto a um tema que, infelizmente e por variadas e inúmeras razões, só agora pude retomar. No último texto dedicado à educação em meio familiar (oito de Novembro do ano transacto) reflecti sobre diversas atitudes no que concerne à forma de lidar com os educandos quando estes começam a movimentar-se pela casa, nomeadamente no que diz respeito às regras de manuseamento dos objectos do “mundo dos adultos”. Nesse texto deixei a promessa de que iria escrever seguidamente sobre o nosso caso; meu, da minha rapariga e dos nossos dois pequenos: a Alice e o Marcos. Aqui estou para cumprir o prometido.
Na altura do texto anterior, só tinha lógica falar sobre a Alice, pois o Marcos tinha então um ano de idade, o que não era ainda significativo para este tema. Porém, vai fazer no mês que se avizinha dois anos e, deste modo, poderei falar sobre os dois. Na verdade, a postura que tivemos foi idêntica para os dois filhos. Quase poderia falar só sobre um deles, o que não é totalmente verdade, pois se nós tivemos a mesma postura com os dois, sendo eles diferentes, reagiram de modos um pouco diferentes.
Em relação à nossa postura, ela foi, e é, muito simples. Quando começaram a movimentar-se livremente pela casa, cada um na sua altura, verificaram que havia vários objectos que até então desconheciam. É óbvio que não sabiam o que eram, ou que não era suposto manuseá-los, sobre o risco de os danificar ou, pura e simplesmente, por que não eram adequados às suas idades, pois aquilo para que serviam era-lhes totalmente desnecessário e/ou desconhecido. Assim, das primeiras vezes que se aproximaram de tais objectos com o intuito de lhes pegar ou mexer, ouviram um calmo, doce e autoritário “aaaaah, não se mexe”, o que, inicialmente, os impediu de completar os seus intuitos. No entanto, umas vezes depois, tanto um como o outro, experimentaram ignorar aquela frase que significava a negação dos seus intentos. Neste momento, quando realizaram a ordem contrária à presente na frase ouvida, eu e a mãe optámos por atribuir uma pequena palmada na mão utilizada na infracção, juntamente com a repetição, no mesmo tom inicial, da mágica frase. Quando tal começou a acontecer, ouve várias reacções ao sucedido: alguma surpresa, somente das primeiras vezes, por vezes aceitação, e noutras vezes o choro provocado pela frustração dos seus intentos terem sido gorados. Aquando do choro, nós, os pais, simplesmente o ignorávamos de modo que a criança pudesse viver, sentir e ultrapassar a dita frustração (só assim se aprende a lidar com as mesmas, que irão ser muitas ao longo das suas vidas). Por outro lado, estes momentos de frustração tornaram-se cada vez mais rapidamente absorvidos, fruto das aprendizagens acontecidas. No caso em que os pequenos, apesar da palmada, repetiram a atitude demonstrada, voltaram a ter uma palmada, um pouco mais forte, com contínua companhia da referida frase. É óbvio que tal procedimento não fez com que os pequenitos tivessem imediatamente apreendido qual o comportamento correcto a ter, é algo que demorou, que por momentos parecia não resultar, quase nos provocando frustração e dúvida. Mas, com persistência e coerência tal modo de operar deu os seus frutos, tendo agora nós duas crianças que não mexem onde nós dizemos para não o fazer, estejamos nós onde estivermos, o que evita muitos aborrecimentos entre nós e o que transformou as nossos crianças em seres equilibrados que compreendem que não podem mexer onde quer que lhe apeteçam, não lhes causando tristeza pela facto de não o poderem fazer. Isto não quer dizer que sejam uns “anjinhos”, que não façam as suas travessuras como qualquer outra criança. Quando nos apanham distraídos são capazes de mexer onde sabem que não devem (mais o Marcos, pois ainda não tem dois anos), fruto da natural curiosidade de criança. O importante é que compreendem que “nem tudo é deles”, que existem regras de convivência neste ponto e, mais importante, ajudou-os a aprender a respeitar a natural autoridade dos adultos.
Se a avaliação de um procedimento for realizada pelo seu produto final, tenho de considerar que este procedimento foi bem pensado e praticado. No entanto, não se pode dizer que seja o melhor ou o único para obter bons resultados. Penso que haverá muitas formas de obter o mesmo resultado. Alguns aspectos do nosso procedimento até poderão ser errados. Penso é que será importante que todos os educadores optem por uma forma minimamente viável de educar os filhos neste aspecto e a ponham em prática, pois se parece correcta deverá ser levada até ao seu término para que produza resultados. Na educação, penso que é consensual que não há receitas rápidas para o que quer que seja.
Para terminar, a parte do nosso procedimento mais polémica é a parte da palmada, do efeito físico do comportamento errado da criança. Já ouvi tremendos disparates sobre esta questão (e digo disparates para não ser mais ofensivo). Já ouvi compararem tal acto com o bater no cônjuge (como se fosse minimamente comparável, a não ser que estejamos a falar de violência sobre uma criança, que não é o mesmo que uma palmada controlada quer física quer psicologicamente, sem gritaria ou momentos de semi-loucura). Já ouvi dizer que, nestes casos (da palmada), as crianças se tornam agressivas, pensando que é com violência que se resolvem situações problemáticas (vão dizer isso à minha Alice, que nunca bate em ninguém e está farta de apanhar traulitadas de filhos dos defensores de tais teorias, o que a deixa extremamente chocada e indignada, pois para ela tal é um acto extremamente errado, tal como nós sempre a tentámos ensinar, que o bater sem qualquer razão para o fazer ou para obter algo é um acto muito negativo e altamente reprovável; para além disso, uma palmada na situação descrita não é um resolver de um problema, é um efeito que os filhos consideram natural quando desobedecem aos pais). Já ouvi outras barbaridades, mas não vou perder tempo a enumerá-las pois tal parece-me desnecessário. A grande questão é que este facto, o bater ou não bater, é uma não-questão. É algo perfeitamente sem valor. É óbvio que o bater descontrolado, aquilo a que se pode chamar violência, é algo extremamente errado, mas falar na conhecida “palmada pedagógica”, discuti-la, penso que é algo desnecessário. O importante é que, com ou sem ela, a criança aprenda que quando comete uma falta há um efeito respectivo, e que por tal facto deve evitar certos comportamentos. De resto, qual o efeito?... penso que cada um deverá pensar num, naquele que lhe parecerá mais correcto e funcional. Vejo que se passa muito tempo a discutir o acessório, neste caso o bater, esquecendo-se o mais importante, o resultado final, a clara e inequívoca pertença da autoridade (não autoritarismo) aos pais. Talvez seja uma boa forma de justificar o fracasso, não sei…

André Pacheco

Publicado por asampacheco em 10:37 PM | Comentários (8)

novembro 08, 2004

“Inventem-se novos pais VIII” – Quando eles começam a movimentar-se

Após um início algo simples, onde as únicas tarefas são educar a dormir e a comer, eis que surge aquela que será, provavelmente, a fase mais importante e mais difícil dentro da primeira infância. Entre o ano de idade e os dois anos (dependendo de cada criança, como tudo isto do crescimento), surge aquela fase por vezes denominada de primeira adolescência. Normalmente coincide com a fase em que a criança começa a mover-se pela casa, seja de gatas ou já de pé, tendo um raio de acção maior. Aqui, deixa de ser um ser passivo imóvel, passando a ser um ser activo que, progressivamente, chega a todo lado. É nesta fase que florescem os chamados destruidores de telemóveis e comandos de televisão. Também neste caso, fartei-me de ouvir a sorte que tínhamos, pois a nossa Alice não mexia nos comandos de televisão, nem nos telemóveis, nem em todos os objectos que estavam ao seu alcance nos quais não estava apta a mexer. Isto, apesar de todos estes objectos terem mantido o seu lugar original, anterior ao aparecimento da Alice.
Em relação a este ponto específico, o educar as crianças no que concerne aos objectos nos quais podem ou não mexer, muita coisa pode ser dita. Conheci casos de casais que escolheram retirar os objectos do alcance da criança, para evitar que ela mexesse nos mesmos. Inicialmente parecia um bom plano, mas teve alguns maus resultados. Primeiro, não se podem manter todos os objectos em locais inacessíveis às crianças, pois estas crescem e, progressivamente, todos os locais inacessíveis perdem essa qualidade. Mais tarde, não estando as crianças já educadas neste ponto, o trabalho é muito maior, pois quanto mais velhos, mais difícil é inculcar aprendizagens nas crianças, acho eu. Por outro lado, mais tarde ou mais cedo, os casais saem de casa com as crianças, seja para outras casas, seja para outro local qualquer onde existem objectos nos quais os pequenos não poderão mexer. Como não lhes foi facultada esta aprendizagem, facilmente se pode adivinhar o resultado. Tendo em conta todos estes factores, penso poder concluir que esta é, regra geral, uma má opção.
O maior erro que, por vezes, observo neste ponto específico da educação das crianças é o de acreditar que ainda são pequeninos, que não entendem. O pior que se pode fazer é subestimar as capacidades das crianças. Quando pensam que a criança já tem a idade suficiente para aprender, eis que já é tarde de mais, pois a criança, grande parte das vezes, já aprendeu exactamente o contrário daquilo que seria necessário ter aprendido. E, acontecido tal facto, para a criança não é uma simples nova aprendizagem, mas a perda de direitos já adquiridos. Por exemplo, é difícil que uma criança compreenda que não pode mexer no telemóvel, quando até então tal lhe era permitido sem qualquer problema.
Poderíamos, por outro lado, pensar que tais aprendizagens se tornam desnecessárias, pois mais tarde eles saberão usar todos os objectos em causa sem os danificar, logo, é uma questão de ter paciência durante, no máximo, dois anos, e que o problema em causa cessa. No entanto, neste caso, a liberdade dos pais em sair com os filhos para algum lado diminui, pois torna-se desagradável estar num local estranho onde os nossos filhos mexem em tudo perante o olhar chocado e reprovador dos restantes adultos. Assim, observam-se hoje muitos casais que praticamente não saem com os seus filhos, remetendo-se aos seus lares ou arranjando quem fique com eles para que possam sair. Nem vou perder tempo a dissertar sobre os malefícios de tais costumes, seja para o núcleo familiar, seja, sobretudo, para as crianças em causa. Tenho um maior respeito por aqueles casais que, apesar de manifestamente terem falhado na educação dos seus filhos em relação ao ponto em causa, saem com os seus filhos, nunca deixando de ir seja para onde for devido ao facto dos seus educandos demonstrarem os comportamentos acima citados. No entanto, por norma, estas saídas mostram-se esgotantes para os pais, pois estes têm que estar constantemente “em cima” dos seus filhos, resolvendo os problemas por eles criados e ralhando com os mesmos. Por outro lado, para quem priva com estes casais, essas situações são, normalmente, igualmente enervantes e esgotantes. E, infelizmente, perante tais factos, muitos pais optam por fazer de conta que não vêm o que os seus filhos estão a fazer de errado, para terem um minuto de descanso. Tendo em conta tudo isto, podíamos quase concluir que, se nos mantivéssemos em casa com os nossos filhos, o maior tempo possível, nesta fase do seus crescimento, poderíamos permitir-lhes mexer em todos aqueles objectos, pois com o tempo esse problema cessaria, e ninguém sairia prejudicado, era uma simples questão de paciência. Pessoalmente, por muito que muita gente queira acreditar em tal facto, discordo com o mesmo em completo, senão vejamos. Neste caso, das duas uma: ou ralhamos com os nossos educandos quando eles mexem onde não devem, mas não os castigamos se o continuarem a fazer, mostrando-lhes, porém, que o comportamento está errado; ou deixamos que eles mexam em tudo à sua vontade, não ralhando. Não sei qual das opções poderá produzir mais estragos. Na primeira está em causa a noção de autoridade. Não é por acaso que muitas crianças, hoje em dia, têm dificuldade em lidar com a autoridade sobre elas exercida (para exemplificar este facto, de forma extrema, posso usar os alunos de uma turma da minha cara-metade, que lhe disseram que quem obedece são os cães, não é suposto usar tal palavra nos seres humanos, tendo a minha rapariga, perante tal facto, reflectido com os alunos sobre a noção de autoridade e obediência). Quando uma criança com pouco mais de um ano, mexe onde quer, os pais ralham por isso, mas é-lhe permitido continuar a fazê-lo sem qualquer tipo de consequência, que aprendizagem poderá obter essa criança com tal facto? É uma porta aberta para a total falência da autoridade dos pais que, a partir desse ponto, ir-se-á diminuindo, até ao ponto em que se sente que quem detém a autoridade é essa mesma criança, que é ela quem decide tudo na sua vida (e na dos pais!), sem que tenha qualquer maturidade para tal. No segundo caso, em que não se ralha com as crianças, não recriminando o acto, a questão da autoridade não fica beliscada, mas acredito poder surgir outro problema, que poderá ser mais complicado de suavizar: a noção de propriedade. Uma criança que pode mexer sempre em tudo aquilo que quer, poderá sentir que tudo lhe pertence (ideia filosoficamente interessante, mas na prática incómoda), o que, fora de casa, se transforma num problema. Para além dos danos que possa causar nos pertences dos seus pais, tentemos imaginar um criança assim educada em casa de conhecidos ou estranhos.
Tendo em conta todos estes factos já apontados, espero, o mais breve possível, reflectir e escrever, num texto posterior, sobre o que aconteceu connosco e com os nossos filhos. Até lá, espero contribuições para esta reflexão, seja a reforçar o que escrevi até agora, seja a refutar esses mesmos argumentos.

André Pacheco

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setembro 14, 2004

“Inventem-se novos pais VII” – As refeições

Enquanto se educam as crianças nas dormidas, eis que surge outra questão um pouco mais complicada: as refeições.
De início, salvo certas características físicas das crianças, as refeições não são complicadas. Comem de três em três horas (uns com uns intervalos entre as refeições um pouco maiores, outros um pouco menores), logo não haverá grandes complicações (norma geral). No entanto, a alimentação das crianças sofre evoluções com o seu crescimento. Salvas algumas excepções, o leite materno é substituído pelo biberão, depois surgem as papas, mais tarde as sopas até ao aparecimento gradual dos sólidos. No início de cada uma destas etapas podem, ou não, surgir crises. Por exemplo, no nosso caso, a introdução do biberão na vida do Marcos foi um enorme problema para todos. Perante a escassez do leite materno, vimo-nos na contingência de alimentá-lo com um biberão. O rapaz, habituado que estava a mamar na mãe, não aceitou a ideia de mamar em algo sintético e com um sabor diferente. Fomos sempre, com muita paciência, tentando habituá-lo à nova forma de alimentação. No entanto, ele mostrava-se irredutível. Vendo que “a bem” a coisa não ia, e que ele começava a sofrer com fome, foi tomada a decisão mais difícil, mas necessária: ou “ia ou rachava”. Rachou. Depois de muito se debater contra o biberão, o cansaço venceu-o e ele desistiu, tomando a sua primeira refeição completa de biberão. Depois desta refeição complicada, a sua luta com o biberão diminuiu, até cessar no dia seguinte, passando a encarar com naturalidade a nova forma de se alimentar. Poderá parecer violenta esta forma de agir. No entanto, não se pode esperar que um bebé tenha a maturidade para compreender o que é melhor para si. Se agimos da forma como fizemos, foi só para o seu bem. Tal como relatei este episódio, poderia também fazê-lo relativamente à introdução da sopa na alimentação dos nossos dois pequenos. No entanto, nestes casos não foi tão difícil e sofrível (foi possível habituá-los ao novo sabor e textura de uma forma gradual; no entanto, não esqueçamos que no caso da passagem do leite materno para o biberão foi um corte total com a forma de alimentação anterior, ao mesmo tempo que era a única forma de alimentação, logo, imprescindível).
Todo este relato teve uma única intenção. Costumam dizer-nos que temos sorte com os nossos filhos, pois comem bem, sem necessidade de técnicas de diversão (não tornando as refeições penosamente longas), e a mais velha, vejam lá!, come sozinha à mesa desde pouco mais do ano e meio e pede para sair da mesa nos fins das refeições, após todos terem acabado de comer.
Mas vamos por partes. Primeiro, nunca nos permitimos a arranjar esquemas para que os nossos filhos comessem. Sendo o Marcos novo de mais para exemplo, a mais velha será melhor para ilustrar o que afirmo. A Alice foi habituada a que, quando era para comer, era para comer. Não havia brinquedos na área, não havia televisão para que estivesse distraída, e quando nos começou a compreender, “sabia” que tinha de estar virada para nós para que pudéssemos dar-lhe as “colheradas” (não andávamos à procura da sua boca, numa ginástica por vezes impressionante, e à custa de uma grande firmeza da nossa parte, o que significou, por vezes, a aplicação da “palmadinha pedagógica”). Assim, quando passou a fazer as quatro refeições normais, facilmente passou a comer connosco. Aqui, enquanto comíamos, dávamos-lhe de comer, de forma que ela desde cedo compreendeu que a refeição é um momento familiar colectivo. Quando ganhou mais destreza com as mãos, enquanto lhe dávamos de comer, deixávamos que ela tivesse uma colher, para que tentasse comer sozinha. Deste modo, rapidamente aprendeu a comer sozinha (apesar de muita comida cair no chão e afins, pois a sua destreza com a colher não surgiu de um momento para o outro). Após ter aprendido a comer sozinha, em seguida aprendeu outra coisa: que só podia sair da mesa com os restantes membros da mesma, salvo raras excepções. Comendo rapidamente, era sempre das primeiras a terminar a refeição. É óbvio que no fim de comer queria ir brincar. No entanto, habituamo-la a sair da mesa depois de todos terem comido. Para isto, o mais importante foi o exemplo. Nunca tentem educar uma criança com o princípio “não faças o que eu faço, faz o que eu digo”. O resultado será catastrófico. Todo este trabalho diário, gradualmente apreendido pela Alice, fez com que ela seja uma criança de três anos (recém feitos) que come com os adultos, e que no fim da refeição pede para ir para o chão, depois de todos terem terminado (não sendo, porém, nenhum fenómeno!). Enquanto se alimenta, está com os restantes adultos ou crianças de igual para igual, com as suas limitações, obviamente, partilhando um momento deveras importante e significativo para a vida familiar.
Por tudo isto e mais algumas coisas, começo a perder a paciência quando dizem termos sorte. O mais grave é que são capazes de nos criticar quando não permitimos que a Alice vá para o chão antes de todos os outros terminarem a refeição, ou de não a permitirmos ser “lambona”, comendo só o que mais lhe agrada, etc.. Ao mesmo tempo criticam os seus filhos por fazerem das refeições um inferno, de saírem da mesa sem acabar de comer e sem pedir, de serem esquisitos só comendo o que querem, etc.. Nem vêm que a culpa não é exclusiva das crianças, e ao estar a criticá-los continuamente, só estão a fazer com que eles interiorizem que são tal como os pais os descrevem, nunca mudando essa sua faceta e criando uma baixa auto-estima.
Correndo o risco de ser chato, volto a bater na tecla da primeira infância. Não esperem pelos 5, 6, 7 anos, ou mais, para os habituar a este tipo de coisas. Aí já pouco haverá a fazer. Não é por acaso que há adultos tão “maus de boca”, com montes de manias no que concerne à sua alimentação, algumas que nem mesmo eles conseguem explicar.
Com tudo isto pretendo somente que cheguem a uma conclusão: tudo se educa; seja a boca a diferentes sabores, seja o comportamento à mesa. Todo este esforço da parte dos pais será recompensado. Depois de momentos iniciais de muita tensão e choro à mistura, nunca agradável aos pais (e que alguns consideram cruel, pois nem sequer admitem a possibilidade de deixar os seus filhos chorar), o resultado são crianças equilibradas e felizes, com um comportamento correcto.


Espero reacções,
André Pacheco

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setembro 06, 2004

“Inventem-se novos pais VI” – O início da educação

Trocando as voltas a mim mesmo, levei a que esta reflexão mudasse de rumo, sem que eu mesmo disso tivesse dado conta. Deste modo, considerei mais interessante para mim e para todos os interessados, não apontar os erros mais frequentes de alguns educadores de forma quase indiscriminada, disparando em todas as direcções, mas sim avaliando o nosso, meu e da minha cara-metade, percurso de educadores de uma criança que praticamente concluiu a sua primeira infância. Utilizando a nossa experiência e observação, espero reflectir com os interessados com o fim de orientar e apoiar futuros e actuais educadores. Com este propósito, propus-me, no último texto, reflectir sobre quando se dá o início da educação, e será este o ponto de partida deste texto.
Diria que a educação começa mal a criança nasce (o que não significa que o nosso papel de pais só surja neste momento). Ainda no berçário do hospital, o comportamento da mãe relativamente ao bebé (infelizmente, o pai está privado desses momentos), é extremamente importante. Isto relativamente à educação de dois aspectos: o dormir e o comer. Vou dedicar a minha reflexão mais ao primeiro ponto, deixando o segundo para mais tarde.
Se observarmos crianças dos 0 aos 4/5 anos, vemos, no que concerne ao hábito de dormir, casos muito distintos. Vemos crianças que, numa determinada hora vão para a cama, onde ficam sozinhas até adormecerem; outras vão com os pais, também em determinadas horas, adormecendo na companhia dos pais; outras vão com os pais, onde estes “tentam” mantê-las na cama para que adormeçam, realizando várias tentativas, até que consigam, ou até que desistam (neste caso nas sestas da tarde); outras vão para a cama quando querem. Seria extremamente simplista afirmar que uns pais têm sorte e outros azar. No entanto, este é o argumento mais usado nestes casos: o defeito está, pura e simplesmente, nas crianças. Mas, se observarmos o comportamento dos pais relativamente às crianças neste ponto, descobrimos que as coisas não são tão simples assim.
Nos primeiros dias de vida da criança, podemos ver pais sempre com o bebé no colo, e outros a pegar no bebé de uma forma criteriosa. Sabe bem a qualquer pai pegar no seu filho no colo, no entanto, não poderemos pensar só em nós, mas sobretudo na criança. Relativamente a esta, saber-lhe-á bem sentir o calor dos seus pais pegando nela ao colo. Porém, o que se torna hábito deixa de ser um prazer. Deste modo, estamos a retirar um prazer a essa criança, porque o mesmo passa a ser banal. Para além disso, criamos-lhe um hábito que trará muita infelicidade, seja aos pais, seja a ela própria. Com o crescimento da criança, uma de duas coisas irá acontecer: ou lhe iremos retirar um hábito por nós nela inculcado, e daí trazer grande sofrimento ao bebé, ou, por outro lado, sentir-nos-emos prisioneiros daquele ser que não nos deixa realizar os nossos afazeres e ter os nossos prazeres individuais, pois está completamente dependente da nossa presença física ao seu lado, mesmo nos momentos em que não precisa dela.
Voltando à questão da dormida, o que está em causa é a forma como a criança é habituada a dormir. Em relação a este ponto, há dois factos a ter em conta. O ambiente de adormecimento e os horários do mesmo. Este último será, provavelmente, o mais importante. Se a criança for habituada a realizar as suas sonecas aproximadamente no mesmo horário, diariamente, e se for habituada a que a ida para a cama seja definitiva, não uma mera tentativa de adormecimento, ela apreenderá aquele hábito, tornando-se o mesmo natural (no caso das sestas durante o dia, será natural enquanto o seu metabolismo assim o exigir).
Em relação ao ambiente de adormecimento, o que está em causa é a forma como as crianças são adormecidas. Nuns casos, desde bebés que algumas crianças são embaladas até adormecerem. Qual não é o espanto dos seus pais que, ao longo do seu crescimento, essas mesmas crianças quando acordam a meio da noite, exigem tal tratamento. Pergunto; porquê o espanto, se assim foram habituadas? Outras crianças, pelo contrário, quando chega a hora de dormir, os seus pais preparam-nas, preparam o quarto, e simplesmente deitam-nas. Elas lá ficam até adormecerem. Dizem-nos que temos sorte, porque as nossas crianças são assim. Creio que seja algo mais do que simples sorte. Sei que cada caso é um caso, e que há crianças mais difíceis de educar neste ponto específico que outras. Nós próprios temos essa experiência. Foi-nos mais difícil incutir este hábito à nossa filha mais velha. Mas desde pequenos que os dois sabem que, quando é para ir para a cama dormir, é realmente para ir para a cama dormir. No início é relativamente simples, porque, salvo os casos de cólicas e outros problemas, as crianças têm o ritmo de dormir três horas, comer em seguida, e assim sucessivamente. Aos poucos vamos introduzindo a ideia da noite, até que ela surge quando deixam de necessitar comer à noite. O problema começa quando eles descobrem que o facto de irem para a cama dormir é uma decisão tomada pelos pais. Aí começam a lutar contra esse facto. Quando vão para a cama choram, gritam, etc.. Se lá formos sempre que eles o fazem eles descobrem que a sua táctica está a surtir resultados. Deste modo, quando nós, os pais, sentíamos que tudo estava bem, que mal entrávamos no quarto e pegávamos neles o choro cessava, quase por milagre, o que fizemos foi deixá-los chorar. Quem nunca o fez não pode imaginar o sofrimento que os pais passam nestas alturas. As dúvidas que estes momentos trazem. Os momentos de tensão entre os dois progenitores. No entanto, com o passar das noites, o choro diminui até que cessa. A partir daqui é fácil, a criança acha natural que a determinado momento é tempo de dormir, deita-se e dorme. No entanto, o trabalho não está terminado (nunca está), tem que se manter a regra. Aquilo que pode demorar meses a construir poderá ser destruído num dia; nunca nos esqueçamos.
Para ilustrar tal facto poderei usar o nosso exemplo. Como quaisquer pais, não temos a alegria de estar com os nossos filhos durante todo o dia. Quando terminámos a licença de maternidade, e fomos os dois trabalhar, a Alice ficou, durante alguns momentos do seu dia, ao cuidado de um infantário. Aqui não houve qualquer problema em relação às dormidas, pois o infantário tinha o horário das sestas bem definido, e como ela estava habituada a dormir sem mordomias desnecessárias, manteve o seu saudável hábito. No entanto, mudámos de cidade e, consequentemente, a Alice deixou o infantário que tanto nós gostávamos. Numa nova cidade, onde os infantários e afins estavam lotados, tivemos de recorrer a uma ama. A que nos calhou em sorte era excelente em praticamente todos os aspectos, não nos podendo queixar da nossa sorte. Porém, nada é perfeito. E o primeiro caso com a ama surgiu pela questão das dormidas. Estando a Alice o menos tempo possível na ama, para que pudesse estar connosco a maior parte possível do dia, ela fazia na ama, por vezes, uma sesta sensivelmente a meio da tarde, antes do lanche. Nos dias em que íamos levar a Alice na hora em que ela devia começar a fazer a dita sesta, alertávamos a ama do facto. No entanto, com o tempo, a ama começou a dizer algo que nos começou a deixar preocupados. Quando nós dizíamos que estava na hora da sesta da Alice, a ama dizia que ela quando queria dormir, dizia-o, não sendo necessário deitá-la no imediato. Logo vimos que tal facto, a médio/longo prazo, iria trazer problemas. Enquanto a sesta antes do lanche foi um imperativo biológico impossível de ultrapassar, o problema estava minimizado. Chegava a um momento em que o seu corpo não mais aguentava, e a Alice pedia então à ama para ir dormir (estava minimizado na perspectiva dos adultos, pois para ela não era saudável brincar até à exaustão). O problema para os adultos (e para ela), surgiu quando começou a aguentar acordada até ao lanche, e um pouco mais, não pedindo à ama para ir dormir. Necessitada de descansar, quando a íamos buscar, encontrávamos uma espécie de zombie, cansadíssima e mal-humorada. Quando chegávamos a casa deitávamos a pobre que, fazendo um sono fora de tempo, desregulava todo o resto do seu dia, passando-o com um humor simplesmente assustador (não estando bem com ninguém, nem com ela própria). Face a isto fomos falando com a ama, alertando-a para o que estava a suceder. Perante tal facto, e depois de compreender o que se passava, ela repensou a sua forma de agir com a Alice. Aí aconteceu o que nós esperávamos: quando um dia, por fim, a senhora resolveu deitar a Alice para que ela dormisse (coisa que ela continuou sempre a fazer em sua casa apesar de passar, na altura, uma fase de negação relativamente às sestas à tarde, o que não era de estranhar), a Alice fez-lhe frente, não dormindo, não ficando sequer na cama, levando a que ama desistisse de tal intento. É óbvio que tal acontecimento não nos surpreendeu. Se habituou a criança a decidir sobre quando ir para a cama, como é que queria que a criança, agora mais velha, aceitasse a perda desse privilégio. Estando cientes que, provavelmente, a repetição deste episódio levaria a que a ama nunca mais conseguisse deitar a Alice, tivemos que modificar os horários desta, de forma a que não necessitasse dormir lá nos tempos seguintes. Readquirindo totalmente o seu hábito de efectuar a sesta da tarde, voltou a dormir uma ou duas vezes na ama, não muitas vezes, pois tal não foi necessário.


Espero reacções,
André Pacheco

Publicado por asampacheco em 07:30 PM | Comentários (2)

setembro 01, 2004

“Inventem-se novos pais V”

Depois de um interregno considerável derivado da “silly season”, continuo a minha reflexão escrita sobre a educação familiar. Mantenho este tema por considerá-lo um tema emergente e urgente, pois que as implicações do mesmo são importantíssimas para a vida de milhares de futuros adultos. Prova da emergência de tal tema é a chuva de textos nos meios de comunicação social escrita que criticam o nosso sistema educativo e os jovens de hoje, apelidando os últimos de preguiçosos e de outros adjectivos desagradáveis. No entanto, custa-me criticar somente esses jovens, algo muito fácil e que acarreta aplausos de todos os quadrantes, esquecendo aqueles que os ajudaram a crescer, que foram co-responsáveis pela sua formação nos mais diversos aspectos. Os contagiados pela “opinite” (expressão muito bem conseguida pelo Miguel), criticam o sistema educativo, por consequência, criticam os jovens, esquecendo ser eles os seus educadores, logo grandes responsáveis pelo estado actual dos mais novos. Não quero dizer com isto que não haja razões para criticar muitos dos jovens. No entanto, será mais profícuo gastar uma hora por dia a pensar como melhorar a situação actual, do que estar todo o dia a criticar essa mesma situação.
Apesar das críticas dos “opiniteiros” se dirigirem quase exclusivamente aos jovens, continuo a bater na tecla da primeira infância, onde se forma quase totalmente o carácter e a personalidade da criança. Facto que a Joana ajudou a explicar.
Assim continuo a reflectir sobre a questão da procura de consensos entre os educadores sobre o rumo a dar relativamente à educação dos seus educandos.
Um dos factores importantes para que tal aconteça é a tal comunicação entre os educadores sobre os comportamentos dos seus educandos, e sobre o que fazer para melhorar alguns aspectos dos mesmos. Para tal, será inicialmente necessário que os educadores acreditem no seu papel preponderante na formação da personalidade dos seus educandos. A partir do momento em que acreditam que uns nascem “assim” e outros “assado”, portanto nada havendo a fazer, estamos perante um final catastrófico. Verifica-se, no entanto, que os defensores do determinismo, só o são após uma má experiência relativamente aos seus educandos, sendo mais uma forma de justificar o seu “insucesso”. Na realidade, antes de se verem no papel de educadores, todos sabem apontar os erros efectuados por outros educadores. O que sucede então com esses indivíduos quando se vêm nesse papel? Admito não fazer a mínima ideia em alguns dos casos. Existem aqueles que nunca reflectiram muito sobre questões educativas. Para além disso, confundem progenitores com pais e, face à falta de vontade em ser pai na sua plenitude, deixam que os seus filhos cresçam e se auto-eduquem. O resultado é, na esmagadora parte dos casos, catastrófica, salvo quando existe a intervenção de outros adultos que vão incutindo alguma educação nessas crianças. Depois há aqueles que, por uma série de acontecimentos desafortunados na sua vida, perdem a força para educar os seus educandos. Estes dificilmente poderão ser criticados. Havendo ainda muitas e diversas situações, nas quais se consegue explicar minimamente o que se passou com os educadores para “falharem”, há, no entanto, uma que se apresenta como a mais enigmática: é o caso daqueles que sempre apontaram defeitos à educação ministrada por outros educadores e, quando na situação de educadores, imitam-nos. Já observei e tentei compreender estes casos, mas nunca o consegui. Falta-me a coragem para os interpelar sobre o assunto, pois que o mesmo é muito melindroso, podendo gerar um conflito desnecessário. Compreendo que não é fácil pôr em prática certos procedimentos com os nossos filhos, sobretudo aqueles que implicam sofrimento dos mesmos. O sofrimento que sentimos nessas ocasiões é brutal. No entanto, se os amamos, não compreendo que se opte pelo caminho mais fácil para nós, que levará a um enorme sofrimento futuro dos nossos filhos. Alguns pais dizem: sabemos que estamos a criar maus hábitos no nosso filho, mas quem sofre as consequências somos nós. Infelizmente, futuramente, esse jovem irá ser alvo de um grande sofrimento derivado desses maus hábitos. Em muitos casos, o sofrimento vem a curto prazo, devido às críticas constantes dos pais, à falta de habilidade em lidar com os seus pares, fazendo com que estes os coloquem de parte, e à falta de vontade de outros adultos privarem com estas crianças, pois que o prazer em tal facto passa a ser residual.
O prazer supremo resultante do esforço de educar o melhor possível os nossos filhos, é ter orgulho nos mesmos, poder elogiá-los, vê-los felizes e sociáveis, e verificar que as outras crianças e adultos apreciam a sua companhia. Por estes factos, e por saber que os estamos a ajudar a serem potenciais futuros adultos felizes, vale a pena efectuar sacrifícios no sentido de lhes incutir as melhores aprendizagens.
Haveria ainda muito a escrever sobre este assunto, no entanto, irei passar para outra questão ligada à educação na primeira infância: quando começa essa mesma educação?


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André Pacheco

Publicado por asampacheco em 10:29 PM | Comentários (2)

julho 28, 2004

“Inventem-se novos pais IV"

O último texto, da autoria da Joana, alerta para um problema extremamente actual no que concerne ao crescimento das crianças: a dificuldade por parte dos pais de gerir o seu tempo. Concordo que hoje em dia não faltam motivos para que os adultos estejam ocupados. Não vou afirmar que é fácil conseguir arranjar tempo para tudo o que quero fazer. Sinto que os meus dias deveriam ter pelo menos quarenta horas, tudo seria mais simples. No entanto, quando decidi ser pai, sabia que teria de prescindir de muita coisa, quer a nível profissional, quer do ponto de vista pessoal. Assim, a partir do momento em que geramos o nosso primeiro filho, nós, os pais, colocamos no topo das nossas responsabilidades esse mesmo ser, pois não foi ele que pediu a sua vinda. Fizemos um pacto silencioso, em que nos responsabilizávamos pelo crescimento espiritual, físico, afectivo e pessoal dessa mesma criança. Quando o segundo filho foi gerado, fizemos o mesmo juramento. Assim, nunca nos permitiremos olhar para estas duas crianças como um fardo, pois somos nós os responsáveis pela seu aparecimento.
Tendo em conta este facto, procuramos equilibrar o tempo, fazendo com que dê para tudo o que é imprescindível, criando criteriosamente uma lista de prioridades. Não nos colocamos a nós no topo, as nossas vontades e caprichos, mas sim aquilo que merece realmente o nosso empenho. Obviamente que no topo destas prioridades estamos nós os quatro, como um todo, e só depois cada um de nós individualmente.
Com tudo isto, pretendo demonstrar que o que está em causa é o que nos move, quais as razões pelas quais fazemos as nossas escolhas. Neste caso específico, quais as razões que nos levam a procriar. O que leva uma pessoa que vê os seus filhos como um fardo a ter mais filhos? Razões de ordem afectiva, social...? O que são os pais? São o homem e a mulher que geram uma criança, ou aqueles que a orientam e apoiam no seu crescimento? Aí concordo plenamente com a Joana quando fala de “crianças não criadas, crianças tidas”, pois pior que uma educação ineficaz é uma não educação. No entanto, o meu primeiro texto referia-se simplesmente à educação dada às crianças nos seus primeiros 4-5 anos de vida, a educação de base que praticamente molda a personalidade do ser, e condiciona fortemente a forma como a educação será gerida a partir de então. Quando iniciei esta reflexão, somente me referia a essa base educacional construída nos primeiros anos de vida de cada criança. A ênfase que dou a esta fase acontece, porque acredito que são esses primeiros 4-5 anos que irão praticamente determinar de que forma o resto do crescimento da criança irá decorrer. Face às características físicas e psicológicas do ser humano, em que se encontra mais apto a apreender comportamentos no início da sua vida, perdendo gradualmente essa capacidade, facilmente se poderá compreender quão importante é determinar quando se deve começar a tentar incutir certos comportamentos e valores nas crianças. Não é tarefa fácil, pois cada criança tem o seu ritmo de crescimento em cada um dos aspectos que a formam. No entanto, se houver uma verdadeira preocupação e compromisso na procura deste objectivo, tudo poderá ser conseguido. Porém, muitos dos pais que não compreendem o seu papel, quer por verem nele um fardo, quer por ignorarem tais factos, limitam-se a gerir a relação com os seus filhos na perspectiva de uma auto-educação, em que vão cedendo aos caprichos normais de qualquer criança, criando algo com que mais tarde esses pais não conseguem lidar, limitando muito do tempo que passam com essas crianças. Deste modo, acredito que se os pais compreendessem e fizessem um esforço considerável nos primeiros anos de vida das crianças, no sentido de moldarem a personalidade das mesmas, procurando, na medida do possível e lógico, incutir-lhes as aprendizagens ao nível da responsabilidade, da autonomia, da entreajuda, do respeito pelo próximo, do respeito pela propriedade alheia, da capacidade de lidar com as frustrações e de todas as regras básicas de vivência em sociedade, muitos destes casos de “crianças não criadas, crianças tidas” não aconteceriam, não se encontrando tanto jovem manifestamente infeliz.

Espero reacções,
André Pacheco

Publicado por asampacheco em 03:27 PM | Comentários (1)

julho 24, 2004

Estímulos. Penso que poderíamos começar por aí. A quantidade e variedade de estímulos (e agora, pela lógica, deveria dizer "a que as crianças estão sujeitas", não é?) aos quais os adultos estão sujeitos, o trabalho e suas reuniões fora de hora, as formações, o cotidiano – banco, pagamentos, médicos, exames – a família, os encargos, os amigos, o fim de semana para descansar (?), as leituras obrigatórias, ah, e os filhos. O que é que sobra para os filhos? Quando teríamos alguma disponibilidade para eles, estamos feitos num oito. Eles falam, balbuciam, tentam comunicar, e nós não temos mais disponibilidade emocional nem sinapses suficientes para receber, integrar e elaborar as informações que eles nos estão a dar. Ora, as crianças assim como os adultos, comunicam com quem está disponível para comunicar. Com o tempo, desistem. Precisam de respostas, precisam do olhar atento, amoroso ou/e não, da palavra, da risada ou não, mas de comunicar. Se nos pais não houver esta disponibilidade, a criança procura noutro sítio.
Na televisão, no jogo simbólico solitário, na escola com mais 20 ou 25 colegas, na mesma situação deles. Todos aos gritos, todos sem capacidade de esperar a vez de falar e ouvir, de tentar compreender o outro, incapazes de olhar, porque não são olhados. Ficam sem esquemas de comunicação adequados, não por incompetência, mas por falta de prática.
Crianças mal criadas? Talvez crianças não criadas, crianças tidas. Crianças chatas? Adultos, pais, chatos, por falta de hábito na competência de comunicar.

Espero Reacção.

Joana de Oliveira

Publicado por asampacheco em 11:55 AM | Comentários (1)

julho 22, 2004

“Inventem-se novos pais III”

Sendo este tema um daqueles nos quais facilmente podemos cair no radicalismo, tal a sua delicadeza, vou fazer um enorme esforço para utilizar um discurso equilibrado, minimamente consensual, visto que as resoluções desta discussão interessam a todo e qualquer ser humano, independentemente das suas diferentes visões. Assim, as possíveis conclusões a que tal discussão poderá levar, terão de ser compatíveis com as diferentes mentalidades individuais. Por outro lado, tal discussão deixará de fazer sentido para aqueles que têm uma visão extremista em relação a este tema. Porém, estes nunca poderiam participar numa discussão, porque nestas temos de estar preparados para ouvir e aceitar opiniões divergentes da nossa. Deste modo, o objectivo desta discussão não é a defesa de uma qualquer corrente ao nível da educação de crianças, mas sim a procura de pontos comuns e de consensos entre as diversas visões de cada um.
Quando se fala em educação, incluindo a de crianças pequenas, uma das expressões que, mais tarde ou mais cedo, surge é a célebre: “na educação não há remédios nem soluções óbvias...”. Não discordo de tal facto, mas acrescentaria algo mais a tal expressão. Sei que não se sabe exactamente o que se há-de fazer no que concerne à educação de miúdos, mas sabe-se razoavelmente bem o que não se deve fazer. Deste modo, estes textos de reflexão educativa irão ser dedicados a esses erros crassos que se cometem na educação de crianças. Por outro lado, estes erros permitem descobrir alguns factores importantíssimos para uma educação bem conseguida. Deste modo, podemos modificar a expressão atrás referida para: “Não há soluções para a educação de crianças, mas conhecem-se alguns factores basilares em tal educação, bem como procedimentos que nunca se devem ter”.
Sendo assim, dedico este texto àquele factor que será, quiçá, o mais negativo na educação de uma criança: quando os responsáveis por tal educação têm opiniões completamente divergentes em relação a como educar a criança. Obviamente que, ao longo do crescimento de uma criança, vão aparecendo múltiplas situações em que os responsáveis por tal educação divergem. No entanto, o problema está no facto de nessas situações cada um tomar uma atitude completamente divergente da do outro, para além de, por vezes, o demonstrarem na presença da criança. Quantas vezes assistimos nós a situações em que um dos progenitores de uma criança faz algo e é automaticamente desautorizado pelo outro, inclusivamente em frente da criança? Este problema não se colocava há uns anos, quando o pai decidia quais os procedimentos a ter relativamente à educação dos filhos, ou quando era a mãe, completamente isolada, que educava os filhos, sendo o pai uma figura relativamente distante. Felizmente são outros tempos. Estando nós em tempos de relativa igualdade entre os progenitores (relativa porque não é total, não faltam exemplos neste país de famílias “à antiga”), surgiu este problema. O que acontece nestes casos? O mais grave é quando a criança perde totalmente o respeito pela autoridade do progenitor sistematicamente desautorizado pelo outro à sua frente. Quando as divergências não acontecem em frente da criança, mas são óbvias para a criança (sobretudo quando há pouca comunicação entre os educadores), a criança aproveita-se de tal facto. São muitos os casos de crianças que pedem algo a um dos pais e, perante uma resposta negativa, pedem à outra conseguindo aquilo que queriam (para verificar tal facto de forma simples, basta observar uma aula com mais de um professor em que estes não comuniquem ou não tentem convergir em termos disciplinares). Até já assisti a crianças que, depois de conseguir o que queriam, através do segundo responsável pela sua educação, foram demonstrar tal facto, com um ar cínico, àquele que lhe tinha respondido negativamente. Os ensinamentos daqui retirados corroem o sentido de justiça de uma criança, demonstrando-lhe que os meios pouco éticos dão resultados práticos, o que interfere com o sentido ético do futuro adulto.
Sendo este um facto óbvio e dificilmente contra argumentado, resta-nos chegar ao comportamento que os educadores devem então ter neste ponto específico. Pessoalmente, acredito em duas coisas: comunicação e procura de consensos. O primeiro factor é, para mim, o mais importante. Não só porque, no caso dos progenitores, estar intimamente ligado à qualidade da sua relação afectiva, mas também pelo facto de ser, teoricamente, o factor mais simples e essencial. Essencial, porque sem comunicação não se poderá chegar à procura de consensos, o segundo factor. Mesmo que estes consensos não sejam totais, a sua procura, através da troca de ideias sobre diversos acontecimentos relacionados com a educação dos seus filhos, permitirá uma reflexão conjunta sobre os mesmos, através de argumentação e contra-argumentação, o que levará a compreender melhor os seus papéis de educadores e, consequentemente, tomar as melhores opções em cada situação (costumo dizer que a melhor opção é aquela que resulta de uma profunda reflexão, independentemente do seu resultado, pois este nunca se pode saber de antemão, pois nesse caso não seria necessário procurar algo como a melhor opção).
Tendo em conta que este factor da educação das crianças merece mais tempo de reflexão, fico, para já, por aqui, esperando reacções que me permitam ter outras perspectivas sobre este ponto, as quais poderei ter esquecido.


Espero reacções,
André Pacheco

Publicado por asampacheco em 11:00 PM | Comentários (0)

julho 20, 2004

“Inventem-se novos pais II"

Tendo em conta o fim do ano lectivo e a importância do tema que faz título a este texto, resolvi congelar momentaneamente a reflexão colectiva e escrita sobre avaliação, voltando a insistir neste tema de tal forma polémico, ao ponto de quase se poder chamar um tabu da sociedade actual.
Detesto a célebre expressão “no meu tempo...”, mas tenho uma leve impressão que hoje em dia proliferam os casos de miúdos mal-educados. Para dar mais força a esta minha ideia, ouço outros indivíduos, que também detestam a proferida célebre expressão, que também acreditam num crescente número de casos de crianças que apresentam tal característica. Para continuar esta problemática discussão, acredito ser importante definir o que é um miúdo mal-educado. Pessoalmente, não considero um miúdo reguila, remexido ou que faça as suas asneiras, mal-educado. Isto porque, para se aprender o que é correcto e errado, é necessário existir uma situação problemática, onde a criança tenha feito algo errado, para aprender que tal comportamento é incorrecto. Em muitos casos, têm mesmo de acontecer várias situações para que a criança apreenda tal aprendizagem (por exemplo, lá pela criança aprender que não pode brincar com o comando da televisão não implica que aprenda que não pode brincar com um telemóvel). Com todas estas situações a criança vai aprendendo o que não é correcto fazer e porquê. Concluindo, é absolutamente normal que a criança cometa muitas “asneiras”, pois não nasce com a noção do que é lícito fazer ou não. Deste modo, quando falo em crianças mal-educadas refiro-me às que não têm qualquer noção do que está correcto, ou não, fazendo ouvidos moucos ao que os adultos dizem, fazendo somente o que querem, em suma, pequenos ditadores. A questão é: porque é que ficam assim?
Uma das teorias que ouço é que nascem assim, o que se há-de fazer? Tendo em conta que estas mesmas crianças (as que nascem assim), com outros adultos (que não os que proferem tal teoria), se comportam de um modo, por vezes, fenomenal, coloco esta teoria completamente de parte. Não digo que não hajam crianças mais complicadas de educar que outras. No entanto, não posso responsabilizar em exclusivo as crianças por serem, por vezes, insuportáveis. Compreendo que, para os pais dessas crianças, que admitem mesmo não ter paciência para os seus filhos, seja mais fácil acreditar que os seus filhos são como são, não pela sua acção ou inacção, mas porque assim nasceram; e que aqueles que têm filhos bem-educados têm sorte. No entanto, vejo que é essa mesma descrença no seu papel, uma das grandes responsáveis pelo seu parco investimento na educação dos seus filhos. Por outro lado, tal como as crianças não nascem educadas, também os pais não nascem sabendo como educá-las. Depois do nascimento da criança, chovem opiniões completamente divergentes de familiares, de amigos, de revistas da especialidade, etc.. Para além disso, nem sempre os dois progenitores estão de acordo sobre as acções a levar relativamente aos seus filhos. Assim, as coisas não ficam tão simples quanto se poderia pensar inicialmente.
Havendo tantos factores a ter em conta, e sendo este um tema tão melindroso ao ponto deste pequeno texto já dar muito que discutir, continuá-lo-ei num texto posterior.


Espero reacções,
André Pacheco

Publicado por asampacheco em 03:25 PM | Comentários (1)

julho 06, 2004

“Inventem-se novos pais”

Estava eu a preparar um texto de continuação da reflexão sobre avaliação quando, na leitura de O Público, me surgiu isto. Não me espanta tal notícia, nem me irá espantar quando esta forma de caça às bruxas chegar a Portugal. Socialmente já chegou, bastará para tal verificar nas diferentes reacções que poderão acontecer em duas situações distintas. Perante um comportamento errado e ignóbil de uma criança num local público, cria mais olhares reprovadores uma palmada de forma a corrigir o dito comportamento, que o comportamento de “bananas”, por parte dos pais, cedendo à chantagem que tal comportamento por norma significa. Não importará que a médio/longo prazo, a criança cujo comportamento foi corrigido seja um jovem/adulto equilibrado, consciente do “eu” e do “não eu”, com um apurado sentido de justiça; e que o segundo seja um imbecil com o único conhecimento da existência de ele próprio, frustrado, infeliz, para quem a justiça consiste na sua vontade (uma curta viagem numa qualquer escola dará para verificar todos estes factos).
Não defendo que se bata nas crianças, desde que tal signifique espancar, de uma forma selvagem, resultado de uma explosão pessoal (muito comum naqueles pais que evitam castigar as crianças porque são “pequeninas”, transformando-as em pequenos “monstros”, sendo verdadeiramente insuportáveis numa idade em que os seus comportamentos estão totalmente desajustados). Caso fosse possível, seria excelente nunca bater/castigar os filhos, pois não acredito que alguém minimamente equilibrado tenha prazer em tal facto. Verifico que a totalidade dos casais com quem privo, que defendem nunca bater nos filhos, sentem-se algo frustrados e sentem estar a falhar, pois o que não foi feito já não o poderá ser agora. A maioria deles via nos “castigos” a melhor forma de corrigir um comportamento errado. No entanto, fizeram a triste descoberta que tal estratégia não funciona em todas as situações.
É natural que todas as crianças errem. Estão em crescimento e numa aprendizagem constante de como viver em sociedade. Não haverá uma que tenha um comportamento exemplar de raiz. O mais saudável é que façam asneiras (algumas conscientes, outras não), mas o que mais me choca não é que o façam (tenho dois filhos, e não são nenhuns totós, quando podem fazem as suas travessuras). O que mais me choca é ver um pai ou uma mãe dizer para o filho(a) fazer, ou não fazer, algo, e o garoto(a) realizar exactamente o contrário, com um sorriso nos lábios, misto de conquista e afronta, e a reacção dos pais ser um: “Ai! Este miúdo(a) é impossível, não sei o que hei-de fazer. Estou mortinho(a) que ele(a) vá para o infantário para aprender a obedecer”. Nestes momentos, a minha vontade não é dar um açoite na criança, mas sim espancar os pais. Não por serem uns “bananas”, mas sim por estarem a criar um futuro adulto desequilibrado emocionalmente, incapaz de lidar com qualquer frustração, irresponsável... numa só palavra: infeliz.
Quando me apercebo destes movimentos de caça às bruxas, que comparam a violência atroz a um simples açoite no momento certo, revolto-me, não pelos responsáveis de tais movimentos, mas pelo efeito nefasto que tem sobre as crianças, pais e respectivos ambientes familiares. Quando ouço estas teorias, peço simplesmente para conhecer os filhos dos seus representantes. É o suficiente para terminar a discussão.
Quem conhece um pouco sobre as teorias libertárias da educação, sabe que as únicas que tiveram sucesso foram aquelas em que a liberdade da criança era por esta conquistada diariamente, e não era um dado adquirido. Neste último caso, as experiências resultaram em relativo fracasso. Não esperem que uma criança nasça educada, ou que se auto-eduque. Tal como a firmeza não é suficiente para educar uma criança, o amor, por si só, igualmente se mostra insuficiente. E nos casos de manifesta má educação, por muito que o amor lá esteja, os actos não o demonstram (dado que a criança não conhece limites, os pais acabam por considerá-la insuportável, criticando-a constantemente), e isso para uma criança deixa marcas profundas e dolorosas. A própria falta da firmeza tem o mesmo resultado: um sentimento de desamor.
Sendo este um tema extremamente controverso, por ventura o mais dos aqui já tratados, e não havendo “receitas” de uma boa educação, há, pelos menos, traves mestras para uma educação equilibrada. E uma delas é exactamente isso: o equilíbrio, o caminho do meio. Nem o radicalismo dos anti-açoite, nem o radicalismo dos pró-“porrada pr’á frente”.

P.S.: o título deste texto não é da minha autoria mas, face à genialidade do mesmo, resolvi utilizá-lo como homenagem.

Espero reacções,
André Pacheco

Publicado por asampacheco em 04:43 PM | Comentários (4)