agosto 29, 2009

A Democracia e o medo

Todos podemos pensar que a nossa Democracia está doente quando vemos os “Valentins”, “Fátimas Felgueiras” e “Isaltinos” vencerem eleições. Ou talvez as vitórias dos mesmos sejam a demonstração de que a nossa Democracia está de excelente saúde mas que a mentalidade do povo português é que está doente. A pobre consciência cívica que pulula pelas nossas ruas, pobreza que, infelizmente, a escola não consegue combater, e a mentalidade retrógrada herdada de cinquenta anos de ditadura, resultam nas monstruosidades atrás referidas. A minha experiência recente relacionada com política autárquica só veio reforçar estas mesmas convicções.
Quando ocorreram os acontecimentos na escola da minha filhota, já relatados neste blogue, a minha maior consternação não era o facto de tal ter prejudicado a minha filha. Nem mesmo o facto de um bom profissional ter sido desrespeitado, por muito que fosse solidário com o mesmo e partilhasse a sua raiva perante a injustiça atroz que lhe foi feita. A minha maior consternação relacionava-se com o facto de não conseguir aceitar que tais factos pudessem ocorrer numa Democracia cimentada como a nossa. E a minha consternação aumentou à medida que fui sentindo a formação de dois componentes corrosivos para a nossa Democracia: a indiferença e o medo.
A indiferença não foi uma surpresa, pois é o reflexo mais visível da confiança na durabilidade da nossa Democracia e da falta de consciência cívica que leva a que as pessoas tenham uma participação pobre nas actividades de cariz político, deixando os cargos políticos aos intragáveis “políticos profissionais”, que vivem da política, não sendo a sua participação na mesma o resultado das suas capacidades profissionais ou éticas. Compreendo que o facto de se ter de conviver com estes últimos afugente muita gente de qualidade do mundo da política. No entanto, não consigo aceitar qualquer argumento que tente justificar as tristes marcas obtidas pela abstenção nas nossas mais diversas eleições. Os exemplos vindos de jovens democracias, onde a população arrisca a vida para reforçar as suas frágeis democracias, deveriam envergonhar qualquer democrata abstencionista.
Relativamente ao medo, apesar de não ter sido propriamente uma surpresa, o medo que observei espantou-me pela sua dimensão. É ultrajante que numa Democracia pessoas se abstenham de manifestar desagrado com receio de represálias profissionais ou sociais da parte de políticos pouco escrupulosos. Mas tal acontece, e eu acredito que existam razões que justifiquem tais receios. No entanto, devo alertar quem não se manifesta quando tal atitude se justifica, com medo de represálias de diversas ordens, que, apesar de compreender as suas razões para agirem de tal modo e de respeitar tal opção, considero que quanto mais o fizerem, mais razões todos teremos para vir a ter medo, no futuro. A impunidade com que alguns governantes vivem quando abusam do seu poder para prejudicar outros, leva a que se sintam cada vez mais intocáveis, e esse sentimento alimenta-se do medo das populações em afrontar esses governantes quando tal se justifica. O caso que levou ao conjunto de textos dos quais este faz parte é um exemplo paradigmático.
Com tudo isto, este caso terminou com dois actos simples mas emblemáticos: um abaixo-assinado que teve um número irrisório de assinaturas, sobretudo se comparado com o mal-estar gerado em todos aqueles que tiveram conhecimento do ocorrido (muitas centenas), mas que depois ou tiveram receio de “dar a cara”, assinando o referido abaixo-assinado, ou simplesmente não se tiveram para chatear, pois não tinham sido eles quem cujos direitos profissionais tinham sido barbaramente violados; e uma manifestação com cerca de vinte pessoas, sobretudo encarregados de educação, algo muito pobre quando comparado com o número de encarregados de educação presentes na primeira reunião dedicada ao assunto e onde todos, sem excepção, demonstraram o seu repúdio em relação às ocorrências aí relatadas.
No entanto, manterei o abaixo-assinado enquanto os responsáveis pelo site onde o mesmo se encontra assim o permitirem, para lembrar que ainda há democratas que não sucumbem ao medo, e que continuarão a defender aquilo pelo qual muitos portugueses perderam a vida.

André Pacheco

Publicado por asampacheco em agosto 29, 2009 05:30 PM | TrackBack
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