Este texto poderá inicialmente parecer um pouco desfasado do tema deste sítio. No entanto, espero que durante a leitura do mesmo seja possível compreender que esse desfasamento é irreal. Começo por contextualizar os acontecimentos aqui relatados. Como é do conhecimento dos leitores deste espaço eu sou professor de Matemática. Apesar de normalmente estes não serem assíduos praticantes desportivos, eu sou um professor de Matemática atípico neste aspecto. Para além disso, apesar de ser fisicamente uma espécie de meia-leca, tal não impede que seja jogador federado de basquetebol, num grande clube, na melhor cidade do mundo. Assim, como quem anda à chuva molha-se, num dos treinos do clube consegui dar cabo do dedo mindinho da mão direita, de um modo doloroso. Com a preciosa ajuda do treinador, as falanges do dedo voltaram para os locais iniciais e, exceptuando as dores, tudo parecia estar bem. Era só uma questão de “fazer gelo” durante uns dias e tudo ficava bem.
No entanto, apesar de todo o gelo, o dedo no dia seguinte não parava de inchar, dorido e a perder mobilidade. Como já tinha conseguido uma vez partir um dedo e só uns dias depois ir ao centro de saúde, com todas as implicações nefastas que tal traz, desta vez optei por ser mais cuidadoso e, com receio que algo não estivesse bem, decidi ir ao Centro de Saúde de Tavira. Como não tinha aulas nessa manhã fiz uma visita ao referido centro de saúde. Neste fui muito bem tratado. Chamado após uma breve e compreensível espera e depois de uma visita ao raio X, fui informado pela médica responsável por mim que o dedo não estava fracturado mas que os ossos estavam um pouco em mau estado, daí ter de ir para o Hospital de Faro para ser observado por um ortopedista. Como tinha aulas nessa tarde perguntei-lhe se poderia ir no dia seguinte, ao que ela me respondeu que deveria ir o mais rapidamente possível, tendo-me dito para almoçar e, de seguida, ir para Faro. Convenceu-me… Por um lado, por causa dos miúdos, não queria faltar às aulas, por outro lado sei que as faltas que dei, mesmo que por doença, me prejudicam profissionalmente, mas com a saúde não se brinca. Deste modo, fui almoçar, falei com o presidente do conselho executivo da escola sobre o que se passava e parti para Faro, onde se daria uma aventura extraordinária a vários níveis.
Antes de narrar a aventura devo dizer que, por várias vezes e variadíssimas razões, já tive de usufruir indirectamente dos serviços do Hospital de Faro para assistência a familiares. Para além disso, um dos meus filhos nasceu lá, o que me faz sentir algum carinho por aquele local. Só uma vez fiquei desiludido com um facto lá vivido (não directamente ligado a serviços médicos), o que me fez redigir uma reclamação por escrito no livro para esse efeito. Sem discussões, de um modo calmo, exerci um dos meus direitos e dever de cidadão. Direito de reclamar e dever de evitar que outros sofram das mesmas falhas de que tinha sido alvo.
Cheguei ao Hospital de Faro e dirigi-me às suas urgências onde expliquei os acontecimentos que precederam a minha chegada ali. Em seguida, fui chamado à sala de triagem, onde expliquei novamente o sucedido e entreguei a carta proveniente do Centro de Saúde de Tavira explicando os procedimentos de que eu tinha já sido alvo. Depois de me terem etiquetado com cor amarela, o nível de urgência mais alto que observei naquele dia nos doentes que entravam pelo seu próprio pé, foi-me dito para me sentar na sala presente ao lado da sala de triagem, dizendo-me para esperar que fosse chamado. E assim fiz. Todos os outros doentes presentes nessa sala, de todas os graus de urgência, e alguns chegados muito depois de mim, foram sendo chamados, um a um, e eu… nada. Comecei a estranhar mas acreditava que a minha não chamada se prendia à especificidade do meu problema que necessitava de um ortopedista, ao contrário da maior parte das pessoas ali presentes que padeciam de outro tipo de maleitas. Mas, por outro lado, outros doentes com problemas similares ao meu e com o mesmo grau de urgência do meu foram sendo chamados. Ao fim de três horas de espera tentei compreender o que se passava. Dirigi-me a uma enfermeira que estava no momento perto da sala de espera onde eu me encontrava e, educadamente, perguntei-lhe se era usual uma espera de três horas tendo eu a pulseira amarela. Disse-me para ir até à sala 6, sala que tratavam dos pacientes de grau amarelo, e que perguntasse se estava demorado o atendimento. Achei estranho mas, como não tinha mais onde me dirigir para compreender a minha situação de espera no hospital, não tinha outra saída que não fosse fazer o que a enfermeira me tinha aconselhado. Cheguei à dita sala e vi uma médica a ver uns papéis na secretária mais próxima da porta. Dirigi-me a ela e coloquei-lhe a questão que já tinha colocado à enfermeira momentos antes. Respondeu-me, praticamente sem olhar para mim, que teria de esperar pela minha chamada. Como tal resposta não servia minimamente para dissipar as minhas dúvidas sobre o que se passava disse-lhe que muitas outras pessoas entradas depois de mim já foram chamadas e voltei a perguntar se era costume acontecer esperas como aquela que eu estava a ter (se tal fosse normal ficaria mais descansado, por muito desagradável que fosse esperar). Desta feita pouco mais tive de resposta do que um encolher de ombros sem sequer olhar para mim. Tentando perceber um pouco do funcionamento organizacional daquele espaço, para tentar compreender o porquê da minha longa espera em oposição com as esperas relativamente breves dos outros doentes, perguntei-lhe então se entre os doentes do mesmo grau de urgência há outros critérios que façam com que uns sejam chamados antes de outros. Aqui recebi um sim com muito desprezo que me fez compreender que dali não tirava qualquer informação minimamente relevante e, resignado, voltei para a minha sala de espera com a esperança de que brevemente seria chamado.
Mais uma hora passou e eu, após uma desesperante espera de quatro horas, estava decidido a ter uma explicação para o que se passava ou iria embora, passando mais uma vez pelo livro de reclamações. Quando sai da sala de espera, o único sítio onde estavam pessoas que me poderiam auxiliar era na sala de triagem. Deste modo, dirigi-me à referida sala, esperei que a enfermeira aí presente terminasse de receber um doente, e disse-lhe que estava já há quatro horas à espera, que toda a gente chegada depois de mim já tinha sido chamada, que parecia que algo de errado se estava a passar com o meu processo ali dentro e se era possível saber se tudo estava a correr como era suposto. A enfermeira respondeu-me que ali era a sala de triagem e que não podia dar qualquer informação sobre isso. Esta falta de auxílio a um doente começava a desesperar-me e, tentando manter a calma, disse-lhe que não queria discutir, que já tinha ido lá dentro e que tinha sido menosprezado por uma médica, que se no meu local de trabalho alguém aparecesse com problemas que eu auxiliaria automaticamente essa pessoa e que, se ninguém me ajudasse a compreender o que se passava, iria embora daquele local não sem antes deixar uma reclamação no livro para o efeito. Voltou a insistir que nada poderia fazer, que se ela fosse falar com a médica seria igualmente menosprezada e que o que me restava era voltar lá à sala tentar perceber o que se passava. Desesperado resolvi voltar à sala em causa, tentando manter a calma para que a educação da minha parte continuasse a ser a nota dominante (o que estava a ser cada vez mais complicado). Chegado à porta dessa sala não visualizei qualquer médico perto da porta mas, pouco depois, surgiu um enfermeiro, visivelmente chateado com qualquer questão profissional com outra secção daquele serviço, discutindo o assunto com outra enfermeira, essa presente dentro da sala. Esperei que ele terminasse de falar do assunto, dirigi-me a ele, e pedi-lhe que me fizesse um único favor. Simplesmente que observasse se a minha ficha se encontrava ali, que em caso afirmativo esperaria mais uma horas sem qualquer problema. Ele efectuou o meu pedido e verificou que, de facto, ali não estava a minha ficha de paciente (fichas essas que se encontravam na secretária onde a outra médica estava sentada quando do diálogo comigo, não tendo na altura feito o menor gesto no sentido de verificar se o meu nome constava em alguma daquelas fichas). Como devem imaginar fiquei transtornado. Não percebia o que se passava, não sabia o que fazer e sentia que a minha espera de várias horas tinha sido totalmente em vão. O enfermeiro tinha de ir para outro local e pediu à outra enfermeira com quem tinha tido o diálogo anteriormente, que ratificasse o facto de eu não constar de qualquer ficha presente naquele local. Ela assim o fez e confirmou tal dado. Perguntei-lhe o que deveria fazer, tendo-me ela me dito para ir ao local onde inicialmente fiz a inscrição nas urgências e perguntar se eu já tinha sido despachado daquele serviço. Ainda em choque, assim fiz. Quando cheguei cá fora, esperei um pouco na fila até chegar à minha vez, e aí fiz a kafkiana pergunta se eu já tinha sido despachado, pois não sabiam da minha ficha de paciente lá dentro das urgências. Como eu disse tudo aquilo com um visível sentido de humor (talvez seria a única forma de não começar a chorar), a senhora sorriu, comentou chocada o facto de mandarem um doente cá fora saber tal coisa, comentário ao qual eu retorqui com um “eu já nem digo nada…”. Afinal, eu ainda não estava despachado. Então, onde estaria eu? Perguntei à senhora o que fazer, ao que ela disse que teria de voltar lá para dentro tentar informar-me sobre o paradeiro da minha ficha de paciente. E eu, cada vez mais atónito, assim fiz.
Quando voltei nem sabia muito bem a quem me dirigir, tendo em conta a fantástica capacidade de “sacudir a água do capote” de praticamente todos os intervenientes da história até então. Como a primeira sala que surgia na entrada para as urgências era a de triagem, voltei a dirigir-me à enfermeira de há pouco. Disse-lhe que na sala para onde me deveriam chamar não sabiam da minha ficha, que me tinham mandando verificar se tinha já sido despachado (não estando de facto despachado), e que já não sabia o que deveria fazer. Nesse momento, pela primeira vez, alguém me questionou no sentido de tentar perceber o que se passava. A enfermeira perguntou-me qual a razão da minha estadia ali. Disse-lhe que era por causa do dedo. Em seguida, perguntou-me se já tinha sido chamado para fazer um raio X (como se não eu não lhe tivesse já dito que ninguém me tinha chamado nas minhas quatro horas de estadia lá). Disse-lhe que não, pois já vinha com o raio X feito do Centro de Saúde. Aí deu-se a descoberta fantástica. A enfermeira informou-me que, se já tinha o raio X feito, deveria estar à espera ao pé da sala 10 e que, provavelmente, já teria sido chamado várias vezes nesse local… Perante tal descoberta só consegui dizer: “Mas mandaram-me esperar nesta sala…”. E, com a raiva e choque que sentia, só consegui proferir um obrigado com um abano de cabeça contínuo de quem estava desesperado. E dirigi-me para a sala 10.
Quando cheguei ao pé da sala 10 não tinha ninguém que me pudesse informar sobre se já tinha sido ou não chamado. Esperei um pouco e, quando vi uma enfermeira passar nas imediações daquele espaço, expliquei-lhe a minha situação caricata. Ela, como seria de esperar de uma profissional, ouviu-me e, em seguida, foi à sala em causa inteirar-se da minha situação. Quando saiu da sala mandou-me entrar, onde fui muito bem recebido pelo médico que me fez uma óptima consulta, durante quinze minutos, o tempo necessário ao meu tratamento.
O que tem esta história a ver com educação? Tudo. O que me chocou em toda esta situação não foi o facto da primeira pessoa ter errado e me ter mandando esperar na sala errada. O que realmente me chocou foi ninguém ter tido a humanidade de perder um minuto que fosse para verificar se algo se passava de errado com a minha inscrição. Sobretudo a médica que desprezou totalmente um doente que a única coisa que queria saber era se havia algum problema com a sua inscrição pois estava a ser alvo de um tempo de espera anormal comparativamente ao dos outros doentes. Poderia falar também da questão organizacional, pois durante conversas com outros doentes ouvi situações caricatas relativas à organização daquele espaço, onde doentes eram esquecidos à espera, até se aborrecerem, e descobrirem que os médicos ainda não tinham conhecimento de que estavam em condições de continuar o tratamento de que estavam a ser alvo. Outro exemplo é o facto de, caso me tenham chamado no serviço correcto, repararam que o doente lá não estava e nem se preocuparam em perceber o porquê de tal situação. Mas isso não me parece o mais grave e está um pouco mais desfasado do tema deste blogue.
O mais grave de tudo é, sem dúvida, a falta de brio profissional e de humanidade de alguns dos intervenientes deste triste episódio. De que me vale a pena ter profissionais cuja média de entrada na universidade é elevadíssima quando depois são médicos destes? Prefiro um médico de 15 valores que me trate como um ser humano, do que um com média 20 que me trate com desprezo. Não haja dúvida que o conhecimento científico é essencial para a profissão em causa, mas não chega. Isto só vem demonstrar a pobreza da avaliação centrada em exames, onde outras dimensões do futuro profissional estão totalmente desprezadas. Tudo isto só vem demonstrar que continuar a decidir a entrada de alunos em Medicina por simples médias ponderadas centradas em notas e exames é algo ilógico e injusto, quer para os bons alunos e potenciais bons profissionais que ficam de fora, quer para os pacientes que têm de aturar médicos e enfermeiros sem qualidade deontológica para o efeito, independentemente dos conhecimentos científicos que tenham.
Como notas finais devo dizer que não efectuei reclamação no livro para o efeito no hospital porque o meu enorme atraso fez com que faltasse a alguns compromissos importantes que tinha marcado e que, para não chegar atrasado ao último destes, saí com pressa do hospital para chegar atempadamente a esse compromisso. Como tal, não tive tempo para redigir a reclamação. Deste modo, resolvi colocar este texto no blogue do qual sou responsável, e enviarei cópias do mesmo a quem de direito, inclusivamente para o hospital visado.
Por fim, lanço um apelo a todos os excelentes profissionais de saúde que existem neste país para que não se deixem influenciar por estes péssimos profissionais que dão uma horrível imagem a toda uma classe. E aos responsáveis por tais serviços digo: separem o trigo do joio. Exijam mais dos maus e protejam os bons, para que os serviços possam melhorar.
Publicado por asampacheco em novembro 12, 2007 08:16 PM | TrackBackO texto é comprido, mais comprida terá sido a espera. Não está desfocado. No fundo trata-se de Falta de Educação" se fosse com um professor caía o Carmo, mas com médicos "srs drs. o povo cala-se.
Comigo já aconteceu pior. Resunidamente; fui às uregências com intoxicação alimentar, como eram 2h da manhã o médico de serviço deu-me um calmante e mandou-me para um canto escuro. Já quase sem forças agarrei-me a quem passou porque me sentia a morrer, lá houve então outro médico que, urgentemente, me tratou. escapei! reclamei, a resposta foi " « que não podiam apressar o acto médico» e pronto!
Amigo André tive a sorte de ter sido bem atendida duas vezes no hospital de Faro, uma nas urgências e mandaram-me para a tal sala 10.
Como eu estava mesmo mal fui logo atendida, mas se tivesse de esperar 3 horas...
Claro que pedia o livro de reclamações.
Uma vez tive de pedir o famoso livro no Centro de Saúde de Castro Verde.
Não é que fui para lá às 10h da manhã e só fui atendida às 13.30? A essa hora a funcionária passou-me a justificação para a escola com a hora - 13.30.
Pois se eu tinha faltado a vários tempos da manhã como justificaria as faltas ao meu trabalho?
Começou um diálogo surrealista:
- Não pode ser porque o meu computador só põe a hora do atendimento.
- Ai sim então dê-me o livro de reclamações que eu escrevo e peço uma cópia para justificar as faltas.
- Não é preciso, vai à minha colega lá de dentro que o computador dela está preparado para isso, ela coloca-lhe a hora de chegada e a hora de atendimento.
- Já podia ter dito.
De facto, Olinda, dificilmente poderia ter havido um diálogo tão surreal... Apesar de haver problemas nos serviços, a verdade é que muitas das situações caricatas que vivemos não são responsabilidade de toda uma instituição mas sim de indivíduos que aí encontramos. É da responsabilidade da instituição o procedimento de cada um dos indivíduos que a compõe, mas se não houvesse pessoas tão ridiculamente pouco profissionais e tão preguiçosas, nem os responsáveis pelas instituições teriam de perder tempo precioso a resolver os problemas por elas criados, nem, sobretudo, os utentes teriam de viver pedaços de romances kafkianos... Profissionais destes deveram ser estudados pois, por mais que reflicta, não os consigo compreender. A falta de brio profissional e respeito pelo próximo ultrapassa os limites do compreensível.
Afixado por: andrepacheco em novembro 22, 2007 10:42 AME, quanto a consequências, nada, como sempre...
Miséria de serviços públicos que temos no nosso país. E, ainda por cima, Portugal é dos países com maior taxa de funcinalismo público da UE. A qualidade da dita é que é pior...
Será justo informar que os responsáveis pelo serviço de defesa dos utentes do hospital já me contactaram e foram muito cordiais e preocupados. Esperemos que o seu esforço produza os resultados pretendidos de modo a que todos ganhemos com esse facto.
Afixado por: andrepacheco em dezembro 19, 2007 06:31 PMNo privado também acontece coisas semelhantes e conheço cidadãos defensores de gestão privada e com seguros de saúde mas que saltimbancam à vontade nos dois sistemas, para quando a coisa entorta...
O português manso e inactivo abunda...ou entope-se os processos nos tribunais...e prescrevem...Mais vale estar vivo e com saúde...
seria interessante analisar tmabém as condições de trabalho dos médicos do SNS. Os horários desumanos, o trabalho não reconhecido, o controle absurdo sobre a QUANTIDADE de "actos médicos", a obrigatoriedade de "pôr o dedo" nas entradas e saídas de hospitais...etc.etc. s médicos também são humanos. E acreditemq ue se os professores se queixam com razão eles também têm as suas razões de queixa.Que são muitas...
Afixado por: Navegante em abril 11, 2008 01:36 PM