agosto 15, 2007

Diferenças

Este texto surge na consequência de um comentário da autoria de um, tal como eu, professor de Matemática, Daniel Braga. Começo por agradecer o contributo que o mesmo deu a este espaço e ao debate necessário ao ensino em Portugal, onde as pessoas se queixam mais do estado das coisas em vez de pensarem em formas de modificar as mesmas. São pessoas como Daniel que são necessárias a este país e que demonstram que, de facto, podemos evoluir como país e como povo.

No entanto, este texto assenta mais nas diferenças do que naquilo que nos une. Alguns dos factos que apresentarei não são verdadeiras diferenças mas, sobretudo, diferentes formas de abordar alguns dos temas apresentados no comentário.

Em relação a remodelar o Ensino Básico de alto a baixo e de que o aprender a aprender seja uma falácia é tudo uma incógnita. Por várias vezes houve remodelações e por si só elas não mudaram nada em concreto. Podemos mudar e voltar a mudar o enquadramento legal do sistema educativo e modificar as directivas do Ministério da Educação, sem que nada mude de forma efectiva nas escolas ao nível das práticas lectivas ou das relações de trabalho entre os diversos docentes. Para se verificar tal facto bastará pensar nas diversas grandes modificações inseridas no sistema educativo desde 1986 e comparar a forma de trabalhar dos professores nessa altura e agora. Para o grosso dos professores não houve qualquer mudança, não se verificou qualquer evolução nas suas práticas. Portanto, não concordando nem discordando com as palavras do Daniel, vejo que a única forma de modificar algo é introduzir mudanças ao nível de cada escola. Não se pode esperar milagres vindo do Ministério da Educação, qual Dom Sebastião, mas começar a trabalhar em conjunto nas escolas, compreendendo os porquês do insucesso, determinando em equipa processos que permitam atacar esse mesmo insucesso e avaliando os resultados desses mesmos processos para que, sempre em equipa, se possam modificar ou pura e simplesmente reformular totalmente se se revelarem errados no seu todo. Enquanto nas escolas mantermos a cabeça na areia minimizando o poder individual e colectivo dos professores, pouco ou nada mudará.

No entanto, não é fácil efectuar tal mudança ao nível das escolas. Primeiro porque há muitos anos que os professores trabalham de costas voltadas, funcionando como ilhas. Segundo, e mais grave, muitos dos professores não estão interessados em fazê-lo. Entristece-me dizê-lo, e talvez não o devesse escrever, mas nem todos os professores são como o Daniel, que reflecte sobre o seu trabalho, que dá um grande valor à sua função na sociedade, que investe nessa mesma profissão. Uma significativa parte limita-se a “dar as suas aulinhas”, a reunir com sacrifício e limitam-se a ser medíocres. E este é que é o grande problema, e que o nosso espírito corporativista tenta fazer de conta que não existe.

Relativamente ao Ensino Secundário ser um reflexo do Ensino Básico, tal é uma justificação muito simplista e uma boa forma de desresponsabilização do Secundário. Já vi o Terceiro Ciclo do Ensino Básico fazer o mesmo com o Segundo Ciclo, e este com o Primeiro Ciclo. É óbvio que um mau trabalho num dos ciclos influenciará os subsequentes, mas todos teremos de assumir as nossas responsabilidades e o nosso poder de intervenção.

Por fim, no que toca aos exames, concordo com o facto de que não vem grande mal ao mundo pelos mesmos serem efectuados. O problema é que também não vejo vir algum bem ao mundo com a realização dos mesmos. Porque se os exames são considerados importantes porque vão «começando os nossos jovens a perceber que há metas que a atingir terão que ser atingidas pelo seu empenho e trabalho», tal deixa-me perplexo e desiludido. É a assumpção de que não somos exigentes com os nossos alunos o que, de facto, não é de todo mentira. No entanto, pessoalmente, tal carapuça não me serve, e acredito que também não ao Daniel, pois os meus alunos são avaliados continuamente e têm de trabalhar no sentido de atingir as metas estabelecidas para que obtenham sucesso. Sobre este último ponto, este último ano lectivo tive uma turma com um assustador nível de insucesso, apesar do meu hercúleo esforço. Nunca um aluno dessa turma ou um seu encarregado de educação me acusou de algo ou criticou, muito pelo contrário. Os únicos problemas que tive foram críticas internas, de colegas nossos, efectuadas em pequenos círculos, nunca assumidas ou feitas pessoalmente. Será isto o “sistema” de que tantos se queixam?

André Pacheco

Publicado por asampacheco em agosto 15, 2007 02:38 PM | TrackBack
Comentários

fVfT2g hi! hice site!

Afixado por: nick em julho 29, 2008 03:24 AM
Comente esta entrada









Lembrar-me da sua informação pessoal?