agosto 12, 2007

Barbaridade

Um texto com quase dois anos teve direito a um comentário que me deixou satisfeito, pois defende uma visão diferente daquela que é maioritária neste espaço de debate. Sendo o objectivo deste ser plural e abrangente, é deveras importante que surjam textos de pessoas com outros modos de pensar, que muito respeito mesmo discordando. No entanto, quando uma opinião é criticada, o autor da mesma tem direito a rebater os argumentos apresentados, se considerar que o deve fazer. É a beleza da democracia e o risco da escrita. Assim, com todo o respeito, irei “comentar o comentário” citado, esperando que tal contribua para o enriquecimento do debate de um tema tão polémico e importante para qualquer educador.

Para ser mais simples para mim e para quem leia este texto, irei dividir o comentário em partes sem nunca perder o significado do seu todo.
Gisela, autora do comentário, começa por afirmar: «Estou abismada com esta forma de pensar: "educar" um bebé de 4 meses!! Deixá-lo chorar porque está com "manha"!
Paremos um pouco para pensar. Abramos um pouco os nossos horizontes mentais.»

Provavelmente nesta parte surge a questão mais importante e onde reside a maior diferença entre duas visões tão antagónicas. Pode-se ou não educar uma criança de 4 meses? Estará aqui, provavelmente, a razão para que pouco ou nada haja em comum nestas duas formas de ver esta problemática. Poderíamos entrar numa discussão académica mas penso que tal será desnecessário e desadequado. Apesar do valor claramente superior de conclusões de pessoas cuja função na sociedade é estudar temas pedagógicos, será mais correcto usar neste espaço o bom senso e o poder de reflexão individual que todos temos. Com que idade se poderá educar uma criança? Já ouvi muitos comentários de senso comum relacionados sobre esta questão. E devo dizer que os mesmos geralmente se encontram relacionados com o comportamento dos educandos dos autores de tais comentários. Obviamente que não poderemos educar uma criança de 4 meses a fazer tarefas só possíveis com 10 anos, mas será de todo impossível educá-la? Qualquer pessoa que tenha vivido de perto os primeiros tempos de vida de vários bebés facilmente verifica que, salvo raríssimas excepções, existe uma relação entre a postura dos educadores e os meios que o bebé necessita para adormecer. Deste modo, como se pode afirmar que não existe aqui educação, com processos e resultados? Há sempre quem afirme que tais resultados estão única e exclusivamente centrados nas especificidades do bebé e não nos processos postos em prática pelos educadores. Obviamente que há crianças que devido, por exemplo, a questões físicas terão mais dificuldade em ter um sono descansado (as cólicas são um excelente exemplo). E há muitos outros aspectos que facilitam ou dificultam esse mesmo sono. No entanto, a regularidade espantosa que existe na relação entre o comportamento dos educadores e os modos que as crianças necessitam de ser adormecidas, demonstra que há educação aos 4 meses, boa ou má (esta parte já é mais controversa, devendo ficar ao critério de cada um).

Em seguida, Gisela afirma: «Um bebé acaba de passar 9 meses no quentinho, na barriga da mãe. Ele nasce com necessidades das mais básicas que há: comer, dormir e RECEBER CARINHO, SER ABRAÇADO.»

Esta é a parte que sempre me dá vontade de ser malcriado… As minhas crianças foram educadas de modo a que, o mais cedo possível para elas, conseguissem dormir a maior parte da noite e adormecessem sem a necessidade da presença de um adulto ou de procedimentos tal como embalá-las. No entanto, sempre RECEBERAM CARINHO E TODOS OS DIAS AS ABRAÇO. Não posso observar esta suposta superioridade moral sem a criticar ferozmente, por tal facto peço desculpa.

Em seguida, podemos ler: «Ou talvez achem que um bebé deve ter a independência e a maturidade de uma criança de 10 anos (e mesmo assim)?
Por favor tentem pôr-se no lugar de um bebe desta idade, ou pelo menos imaginar como será. É uma barbaridade, e peso cada letra desta palavra, deixar chorar um bebé minutos a fio só porque sim, porque assim não se tornará independente. Fi-lo algumas vezes, instigada por pessoas bem-intencionadas que mais não fizeram que repetir-me aquilo que ouviram e aquilo que fizeram, mas apercebi-me do meu erro.»

Este pedaço de comentário merece duas chamadas de atenção. A primeira prende-se no perigosíssimo “e mesmo assim” dentro de parênteses na questão que é colocada. Se esse reparo se prende com a incapacidade em uma criança de 10 anos ser educada, aí compreenderei melhor o porquê de cada vez ser mais complicado ser professor do 1º Ciclo do Ensino Básico. Mas acredito que não seja com esse propósito que tal reparo tenha sido escrito. O segundo pormenor que merece ser comentado é o “só porque sim”. Faz-me lembrar a paródia que os Gato Fedorento fizeram a Marcelo Rebelo de Sousa. Quem não compreender porquê, talvez deva vê-lo com atenção. Acredito que depois de visualizarem tal filme compreendam o que penso sobre este “só porque sim”.

Seguidamente, Gisela escreveu: «Dei IMENSO colo à minha filha, hoje com 14 meses, inclusivamente contra a opinião de muitos pediatras, também eles bem-intencionados mas encerrados no sistema vigente "um-bebé-deve-aprender-a-tornar-se-independente-logo-que-nasce" e hoje não, é uma criança dependente do meu colo.
Quando uma criança recebe todo o carinho de que precisa, e aqui incluo o famoso colo quando choram "sem razão", ela depois sentir-se-á segura e não duvidará do amor que sentimos por ela, tornando-se assim independente por ela própria.»

Estes dois parágrafos são de uma extrema importância. De tal modo, merecem vários comentários. Sobre o primeiro parágrafo muito há a dizer. Em relação aos pediatras, sendo eles formados em saúde infantil e não em Educação não lhes reconheço especial relevo neste tema, há excepção do seu conhecimento ao nível das necessidades físicas das crianças e da experiência que significa o acompanhamento do crescimento de muitas crianças. Em relação ao facto de um bebé necessitar de aprender a ser independente, tal não é o sistema vigente. É um facto. O saudável para o ser humano é ser o mais independente e autónomo possível, para o seu próprio bem. Nenhuma criança fica autónoma de um momento para o outro, é algo que se aprende, que se constrói. Quanto mais tarde começar tal aprendizagem mais complicado será para a criança. A sua criança tem somente 14 meses. Os resultados da educação que agora está a ter só mais tarde virão a ter efeito. A ver vamos que resultados terá o ela ser «uma criança dependente» do seu colo.

Sobre o segundo parágrafo lamento mas terei de lhe dar uma má notícia. Como disse há pouco, as crianças não ficam independentes por elas próprias. A experiência dos educadores diz exactamente o contrário. As crianças dependentes não são seguras, pois a sua segurança está demasiado presa a terceiros. E aqui entramos num ciclo vicioso: se não suficientemente independentes para serem seguros, não terão segurança para se tornarem independentes. Bastará observar adultos que foram jovens demasiado dependente dos pais para compreender tal processo.

Por fim, uma criança não duvida do amor que sentimos por ela se for amada, e não porque lhe damos colo a torto e a direito. Por um lado, há múltiplas formas de mostrar o amor que sentimos, e por outro, convém relembrar que o colo é extremamente importante mas, como tudo na vida, convém ser doseado. Ou seja, ela pode ter todo o carinho (incluindo muito colo) que necessita, sem ser adormecida dessa forma. E este último ponto é o que está em causa.

Por fim, o comentário termina com estes dois parágrafos: «É preciso mantermos uma mente aberta e o espírito crítico, nem que isso signifique irmos ao contrário daquilo que todos nos dizem, inclusivamente os nossos pais.
Por favor façam esse exercício e reflictam no que sentirá uma criança de meses, que não tem capacidade de raciocínio, quando chora e ninguém vem ter com ela.»

Como já me alonguei muito neste texto irei somente prender-me no segundo parágrafo. E sobre este pergunto: como se sentirá uma criança de 6 anos quando é repreendida por ter feito uma asneira? Obviamente que se sentirá muito triste. Não devemos então repreendê-la? Poderão retorquir que este caso é diferente, que o bebé nada fez de errado. Será? Ele está bem, confortável depois de comer, fralda limpa, tem sono e está na hora de descansar (e creio que ninguém põe em causa a importância de um descanso regrado do bebé). Como é mais confortável estar no colo, o que todos compreendemos, ele põe-se aos gritos. É um comportamento correcto? Mas poderão dizer: é um bebé, faz parte do seu instinto, e não tem capacidade de raciocínio. É um facto. Mas nós temos capacidade de raciocínio. E sabemos que o ser humano é um ser de hábitos. E sabemos que o sacrifício nosso e dele de o deixar chorar um pouco significará um bem maior para todos num futuro próximo e potencialmente para o restante. Não valerá a pena o sacrifício?

André Pacheco

Publicado por asampacheco em agosto 12, 2007 09:04 PM | TrackBack
Comentários

Olá!

Sou mãe de um bebé de 4 meses e andava na net a pesquisar sobre o tema como educar um bebé quando vi este comentário. Gostaria de saber qual o artigo que deu origem à crítica pois estou bastante interessada em ler. Acho que é possível e que devemos educar os bebés mas gostava de algumas sugestões,pois educar é a coisa mais difícil do mundo. Eu, como muitas mães, caí em muitos erros ... mas creio estar a tempo de os corrigir.

Afixado por: Daniela Braz em setembro 21, 2007 12:44 PM

Para todos os que queiram conhecer o artigo citado que foi comentado, informo que o mesmo se chama “Inventem-se novos pais X” e está contido num conjunto de textos no arquivo http://educaportugal.weblog.com.pt/arquivo/cat_educacao_familiar.html.

Afixado por: andrepacheco em setembro 22, 2007 11:52 AM

Olha, concordo em n. genero e grau. Tenho duas filhas gemeas e sempre fiz dormir no colo, ate os 6 meses. Elas dormiam mal, acordavam de 3 em 3 hrs, minha vida e de meu marido estava virando um inferno pois ha 6 meses n tinhamos uma noite bem dormida! Resolvemos fazer a tentativa, fazer a tecnica do choro para dormir, do livro "Nana Nene: Como resolver o problema de insonia de seu filho". N vou dizer q foi facil pois n foi, n eh facil ouvir seu bebe chorando, mas vc tem q pensar q eh por um bem maior. O livro n manda vc deixar chorando ate parar, eh uma tecnica, vc tem q visitar seu bebe no quarto de tempos em tempos (o livro tem indicacoes sobre os tempos q devem ser observados) e conversar com seu filho, explicando q vc esta ensinando a dormir sozinho e etc. Enfim, primeiro dia 45min, segundo dia 30, no terceiro dia ja n choravam mais e nunca mais acordaram a noite! Passaram a dormir de 10h30m a 11 hrs seguidas o q antes era inimaginavel, e MAIS, melhorou o comportamento durante o dia, pois estavam mais descansadas e tb sinto hj q sao mais seguras.

Afixado por: Fiona En em março 23, 2009 07:22 PM

Cara Fiona, a postura de pais como vós mostram o que é amor e sacrifício pelos filhos, com equilíbrio e poder de reflexão. Os meus sinceros parabéns e muitas felicidades.

Afixado por: andrepacheco em março 27, 2009 09:49 PM

Concordo totalmente consigo! Tenho um menino de 9 meses e desde os 1ºs dias que o habituei a dormir no seu berçinho, o que realmente foi maravilhoso. Educá-los desde o primeiro dia sim é possível, no entanto exige bastante esforço e paciência. É mais fácil para nós ceder às vontades e caprichos das crianças, mas será isso o melhor para elas como futuros adultos? E isto não significa que sejamos pais severos, pois eu sou extremamente carinhosa com o meu filho e dedico-lhe todo o tempo disponível para brincar com ele, dar-lhe miminhos e no entanto quando tenho de lhe dizer um NÃO sonoro, não hesito um momento. E todos os dias quando o vou buscar ao fim do dia, lança-me um sorriso aberto como quem me diz que me adora e sabe que o amo também!!

Afixado por: Lucia Barros em abril 14, 2009 04:09 PM

Concordo totalmente consigo! Tenho um menino de 9 meses e desde os 1ºs dias que o habituei a dormir no seu berçinho, o que realmente foi muito bom. Educá-los desde o primeiro dia, sim é possível, no entanto exige bastante esforço e paciência. É mais fácil para nós ceder às vontades e caprichos das crianças, mas será isso o melhor para elas como futuros adultos? E isto não significa que tenhamos de ser severos, eu sou extremamente carinhosa com o meu filho e dedico-lhe todo o tempo disponível para brincar com ele, dar-lhe miminhos, no entanto quando tenho de lhe dizer um NÃO sonoro, não hesito um momento. E no entanto, todos os dias quando o vou buscar ao fim do dia, lança-me um sorriso aberto como quem me diz que me adora e sabe que o adoro também!!

Afixado por: Lucia Barros em abril 14, 2009 04:14 PM
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