setembro 07, 2006

Os alunos, os encarregados de educação e a avaliação de desempenho

Ainda dentro da avaliação de desempenho, eis que surge o segundo avaliador: a direcção executiva. No segundo ponto do artigo que descrimina os itens de classificação, naqueles que são referentes ao avaliador citado surge uma das questões que mais discórdia criou aquando do surgimento da proposta de alteração do ECD: o papel dos encarregados de educação na avaliação dos professores. No entanto, não me prenderia somente no indicador de classificação referente à apreciação realizada pelos encarregados de educação. Há outros dois indicadores que merecem reparo: os resultados escolares dos alunos e as taxas de abandono escolar. Deste modo, este texto girará em torno dos três referidos indicadores de classificação.
Nestes três indicadores residem, naturalmente, os maiores criadores de controvérsia referente à proposta apresentada. Comecemos pelos dois que nunca deveriam ser tomados como indicadores de classificação: os dois últimos que referi. Em relação às taxas de abandono, há várias coisas que será necessário afirmar. Primeiro, o abandono de um aluno não depende exclusivamente de um professor. A responsabilidade do abandono escolar poderá ser imputada à organização escolar, nunca individualmente a um professor. Segundo, o abandono dependerá sempre da vontade do próprio aluno e dos encarregados de educação. Por fim, qualquer professor digno desse nome faz todos os possíveis para precaver o abandono escolar de qualquer aluno a quem a escola se demonstra relevante para o seu desenvolvimento pessoal e social. Deste modo, não se podendo imputar ao professor a responsabilidade individual pelo abandono escolar de um aluno, não faz qualquer sentido que o mesmo seja um indicador de classificação do desempenho do referido professor.
Relativamente aos resultados escolares dos alunos como indicador de classificação mais haverá a dizer, visto criar uma situação muito grave, de promiscuidade entre a avaliação dos alunos e a dos professores, avaliações de natureza e fins totalmente díspares. Obviamente que, em parte, o sucesso dos alunos é o sucesso do professor. No entanto, esse sucesso não se resume aos resultados escolares dos discentes. Mais: resumir a responsabilidade dos resultados escolares dos alunos nos professores é provavelmente um dos actos mais graves que se poderia realizar. Por um lado cria uma pressão sobre o docente no sentido deste criar sucesso artificial. Por outro lado, e mais grave, desresponsabiliza, em parte, o aluno pelas suas aprendizagens, quando ele é, indubitavelmente, o grande responsável pelas mesmas. No entanto, esta visão enquadra-se perfeitamente no ensino tradicional, com o expoente máximo no ensino superior, onde é mais importante um professor ensinar do que um aluno aprender. Portanto, se o professor for uma espécie de super orador e os alunos estiverem totalmente concentrados no discurso do mesmo, melhores resultados haverá (em princípio). No entanto, qualquer pessoa com dois dedos de testa sabe que as aprendizagens a realizar por um aluno dependem quase exclusivamente deste. Ao professor cabe facilitar o acesso a essas mesmas aprendizagens, usando a forma que considerar mais adequada a cada aluno, facto que reforça a importância do último. Não retirando qualquer responsabilidade ao professor, há que reforçar o papel do aluno neste ponto. Mas vamos partir do pressuposto de que terá lógica avaliar o professor a partir deste indicador, partindo da sua quota de responsabilidade que lhe assiste. Vamos ver na prática o que poderá suceder, não como remota hipótese, mas como algo muito provável. Havendo nas escolas turmas com alunos com melhor rendimento escolar e outras com alunos com um rendimento escolar inferior, os professores com as últimas turmas serão, à partida, prejudicados neste indicador relativamente aos professores que tiverem as outras turmas, independentemente da qualidade do trabalho ou do empenho de cada um. E quero evitar neste ponto tocar em factos obscuros como turmas feitas de acordo com o rendimento escolar dos alunos ou de professores que graças à sua antiguidade nas escolas têm prioridade de escolha das turmas com que irão trabalhar, algo que, infelizmente, sucede em muitas escolas, e que criará ainda maiores injustiças no que concerne a este indicador de classificação. Por fim, e ainda relativamente a este indicador devo fazer uma afirmação que me parece importante. Colocando sempre a tónica no facto do aluno ser o grande responsável pelas suas aprendizagens, defendo uma grande exigência relativamente as alunos, mas uma exigência equilibrada e responsável. Não sou de forma alguma dos que confundem um grande número de negativas com um professor rigoroso e exigente, portanto, de qualidade. Esta é mais uma das mentiras que, de tão repetida, muita gente já a toma como algo verdadeiro. E, mais uma vez, é um mito muito presente no ensino superior. Sobre este facto muito poderia afirmar tendo em conta a minha experiência como aluno. No entanto, ficarei por uma pequena afirmação de grande valor uma vez feita por alguém muito especial, que afirmou algo como: se o bom professor é o que chumba muito, o bom médico é o que mata muito. Se alguém discordar com este ponto, por favor argumente. Neste momento não me alongarei no mesmo, porque ainda me falta focar um indicador de classificação.
Neste momento, de acordo com o prometido, só falta reflectir sobre um indicador de classificação, nomeadamente a “apreciação realizada pelos pais e encarregados de educação que integram a turma leccionada, em relação à actividade lectiva do docente”. Aqui muita coisa deverá ser afirmada. Primeiro, sendo os pais e encarregados de educação parte directamente interessada, nunca poderão ser totalmente isentos numa avaliação a efectuar aos professores dos seus educandos. Em segundo lugar, que parâmetros irão avaliar? E a partir desta questão faço um apelo a todos os professores: nós, boa ou má, temos uma formação pedagógica e experiência no mesmo âmbito. Ninguém põe em causa o tratamento que um médico lhe prescreve, diz a um jogador profissional de basquetebol como se colocar para lutar pelo ressalto, ou diz a um pedreiro como “chapar massa”. Por que raio tanta gente neste país pensa que percebe de educação? Para que temos nós uma formação específica? Temos que colocar ênfase nesta especificidade, defendê-la e melhorar os nossos conhecimentos no mesmo âmbito, para retirar o peso desmerecido dos “opineiros” pedagogicamente ignorantes e evitar que propostas atrozes como estas sejam colocadas. Mas para que tal suceda muitos professores terão que deixar de ter vergonha em utilizar a expressão pedagogia, visto que se esta é, grosso modo, acção sobre a criança, é o que fazemos no nosso ofício todos os dias.

André Pacheco

Publicado por asampacheco em setembro 7, 2006 12:49 PM
Comentários

Sobre o primeiro ponto, concordo. É absurdo o abandono escolar fazer parte da avaliação individual do professor - este aspecto terá maior relevância numa apreciação da escola no seu todo. Em relação aos resultados, penso que a intenção será fazer a avaliação a partir de exames e não a partir das classificações internas. Se se partir das classificações internas, surgirão problemas de credibilidade da avaliação, uma vez que não existem mecanismos nacionais de nivelamento de critérios. Se se partir de exames, que exames? A menos que eles sejam criados anualmente a nível central ou de escola, não vejo como se poderá acompanhar o desempenho do professor. Penso que a ideia (que não me repugna, nem entusiasma) foi avançada para agradar a uma parte do eleitorado sem se ter a noção exacta de como poderá ser aplicada, correndo-se o risco de se tornar um procedimento burocrático inconsequente (deve ser isto aquilo a que chamam demagogia). A mesma coisa para a avaliação pelos pais - é elevadíssima a probablidade de a proposta cair ou de se tornar numa rotina irrelevante de preenchimento de formulários. A rotina burocrática chegará tão cedo quanto mais cedo for cumprido o objectivo de baixar o bolo salarial total dos professores; passados uns anos (poucos) um ME iluminado descobre que a avaliação não funciona nem operou maravilhas no sucesso escolar e fará um novo "regime" redentor. Se houvesse alguma decência e visão, a avaliação do professor centrar-se-ia em observação, discussão e avaliação de aulas, planificações e materiais; as avaliações poderiam fazer-se por áreas disciplinares (ano X: ciências e línguas; ano y: artes e ciências sociais), recolhendo-se informação de diagnóstico do ensino e das aprendizagens que se fazem e que serviria para fazer recomedações ao professor (individualmente) e a nível nacional; os exames poderiam ser mais realistas, isto é, partirem do trabalho efectivamente feito, sem prejuízo de serem nivelados pela fasquia mais alta; aproveitar-se-ia cada processo de avaliação para divulgar práticas (em acções de formação, publicações, documentários vídeo, etc.). Mas tudo isto tudo é caro, dá trabalho e exige muito mais seriedade do que a incompetente, patética e improdutiva sofreguidão legislativa que temos tolerado por demasiado tempo.

Afixado por: pedro em setembro 7, 2006 02:16 PM

A luta deve ser travada sensibilizando e não hostilizando a opinião pública, argumentando e não meramente recusando, propondo alternativas para o que se considera mal, recorrendo aos tribunais se necessário para trvar abusos evidentes contra direitos adquiridos, que não devem funcionar apenas em outras situações. A gritaria, por si só, só produz ruído e ajuda à confusão e à descredibilização da própria classe docente.

Afixado por: Paulo G. em setembro 8, 2006 04:01 PM

Agradeço desde já estes dois comentários, não só pelo seu teor, mas também por me ter dado a conhecer dois excelentes blogues que demonstram que a educação na blogosfera em Portugal esta cada vez mais profícua, o que demonstra também que há uma quantidade enorme de professores que vivem a sua profissão com grande cometimento. Em relação ao comentário do Pedro, observei o seu esforço em tentar criar um modo de avaliação a partir da avaliação dos alunos, de algum modo demonstrando a dificuldade em fazê-lo. Acrescentaria o facto de os exames serem um modo pouco rigoroso de avaliação. Para ser minimamente justo teria de haver uma avaliação externa mais sistemática, não só 90 minutos de uma prova no fim de um ano lectivo ou ciclo de ensino. Para além disso, teria de se ter em conta os conhecimentos prévios dos alunos antes do início do trabalho com o professor em causa, bem como o seu background familiar, outro grande responsável pelo desempenho escolar. Por tudo isto, e demais razões, será muito difícil avaliar o desempenho dos professores a partir destes dados.
Em relação ao comentário do Paulo, não poderia estar mais de acordo. É importante que os professores adoptem uma postura crítica mas construtiva, criticando com argumentação válida quando tal se justifique, mas ouvindo as propostas tendo em conta que há coisas que estão mal e que é necessário efectuar algo de forma a melhorar esses pontos.

Afixado por: andrepacheco em setembro 9, 2006 07:36 PM

VOCEIS TEM QUE COLOCAR COMONTARIOS NÃO OS DIREITOS TODOS NOS SABEMOS OS NOSSOS DIREITOS JA ESTOU FARTA DE FALAR DISSO CARALHO

Afixado por: Amanda em outubro 20, 2006 05:21 PM

Pais preocupados com a educação dos filhos, ai não que não estamos. Senão vejamos.
Nessa Escola Secundária do Castelo da Maia os alunos são convidados por uma espécie de rede, para o ATL Guia do Estudo. Garantem boas notas para os nossos filhos a um preço razoável! Segundo consta até dão os testes que irão sair com a devida antecedência. A ser tudo isto verdade, pergunta-se? Serão os professores angariadores de clientes de ATLs? Os alunos que préviamente sabem que lhes garantem uma excelente nota, portar-se-ão nas aulas devidamente, deixando os que não têm possibilidades de frequentar tais ATLs tirar o devido aproveitamento das aulas.
Será que os professores que induzem os pais a colocar os seus educandos nos referidos ATLs deveriam estar no ensino Público?

Afixado por: Valetudo em abril 23, 2007 01:06 PM

É verdade Valetudo. Os professores só pensam em dinheiro e estão-se cagando prós miúdos. Reforma do Ensino já e esses comerciantes de notas pró desemprego urgentemente. É uma vergonha

Afixado por: Poucavergonha em abril 23, 2007 07:16 PM

Algumas professoras primárias continuam a bater nas crianças desde a 1º ano, com 5 e 6 anos levam chapadas na cabeça, e não por serem mal educadas.Pura e simplesmente porque estes professores não têm maneiras nem paciência para receberem crianças que estavam habituadas a um infantário.O ministério da educação(no meu caso a DRE do Algarve) deve saber que continuam a haver pais calados,com receio e a certeza que se reclamarem com a professora continuarão ainda com mais represálias, e os seus filhos com medo de ir á escola. Faro

Afixado por: Anónima em junho 25, 2007 11:51 AM

Sempre aconteceu alguns professores baterem nos alunos, sobretudo nos miúdos mais novos. Concordo que se este facto tivesse relacionado com má educação dos alunos haveria muito a discutir e não seria um assunto para conclusões simplistas. Infelizmente estamos a falar de professores que, possivelmente por não gostarem do que fazem, não têm paciência perante o erro académico do aluno e outras situações similares. Não será necessário reflectir muito para condenar energicamente tais atitudes. Para além da atitude estúpida por si só, os resultados esperados na estima e no percurso escolar dos alunos são simplesmente aterradores.
Pena é que hajam situações destas (e outras igualmente graves), que sejam do conhecimento de autoridades competentes, e que nada seja feito.
Sou professor mas não poderei ter uma atitude corporativista perante a mediocridade e a falta de profissionalismo e brio na função que desempenho. É toda uma classe que fica mal vista devido a falhas de um pequeno grupo que a ela pertencente.

Afixado por: andrepacheco em junho 30, 2007 04:22 PM
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