17.01.2009 - 10h22 - Anónimo, BRAGANÇA
Ao que tenho lido dá-me vontade de GRITAR: SRS PROFESSORES voltem a trabalhar pois é, para isso, que o POVO lhes paga. Com os vossos vencimentos faustosos deveriam ter VERGONHA de exigir fosse o que fosse. POVO sabe que: 1 - vencimentos entre 2000,00 e 3000,00 euros - férias 3 meses ano (Natal-Carnaval-Páscoa e Ditas Grandes)-horários semanais de 12h00/14h00-folgas-faltas fradolentas-trabalho extraordinário remunerado e demais mordomias. Não haja dúvidas que são uma classe de NOBREZA ( RAINHAS/REIS) num País onde, praticamente, só existe o POVO e um, ainda, certo CLERO. SRS PROFESSORES, voltem ao trabalho que é o que não tem feito, nos últimos 30 anos, para dignificarem a classe a que pertencem e para voltar a serem respeitados por quem vos paga, assim como a todos os Funcionários Públicos, que são os Contribuintes. Os mesmos que nacessitam que, os seus Filhos, sejam ensinados mas, por Profissionais competentes. O POVO exige avaliações para saber como são esses mesmos profissionais. TODOS À CONCENTRACCÇÃO NO DIA 19, PELAS 09h00, EM COIMBRA....NÃO FALTEM PARA FAZER VER AOS SRS PROFESSORES QUE,SÓ EM 2 DIAS, TAMBÉM TEMOS CAPACIDADE DE MOBILIZAÇÃO E DEMONSTRAÇÃO DE FORÇA..APAREÇAM
Não! Não foi a minha avó que escreveu este comentário numa notícia relacionada com avaliação de desempenho docente no jornal “O Público”. Independentemente da sua opinião sobre o assunto, ela é uma mulher inteligente e nunca diria um chorrilho de barbaridades e mentiras como estas. No entanto, este tem sido o tom habitual de grande parte dos comentários que tenho lido em notícias do tema. Claro que a maior parte desses comentários não ombreiam com a má criação que este denota, que demonstra que a escola de facto está a falhar, pois este indivíduo andou numa escola e, no entanto, é o que se vê… Mas mesmo não tendo este tom insultuoso, a opinião mais presente não é favorável aos professores.
Na semana anterior à última greve de professores, quando os alunos de uma turma me perguntaram se iria fazer greve, eu confirmei esse facto quando, falando baixo, um aluno comentou que se eles eram avaliados porque é que os professores o não querem ser. Quando ouvi tal expressão pedi-lhe que repetisse, tendo o aluno ficado um pouco atrapalhado. Pedi-lhe que não tivesse medo em repetir o que disse, pois não ficaria zangado e compreendia o porquê de ele ter tal opinião. Ele repetiu, confirmando o que eu pensava ter percebido.
Tentei explicar-lhe que o que os professores querem não é não serem avaliados, mas sim não serem avaliados com este modelo de avaliação. Para que uma mente de 14 anos percebesse o porquê de eu, pessoalmente, discordar com o actual modelo de avaliação, procurei dar-lhe exemplos práticos do que me levava a discordar, sem entrar em pormenores teóricos que ele não iria compreender.
Comecei por dizer-lhe que, na nossa escola, para que eu tivesse, como avaliação, Excelente na parte da avaliação que concerne ao abandono escolar, não poderia haver abandono na escola toda, ou seja, se um aluno de uma turma que não seja minha, de outro ciclo do Ensino Básico que não o meu, resolver deixar a escola, eu serei prejudicado por esse facto. Para além da desresponsabilização que tal facto significa para os progenitores da criança e para a própria criança, a injustiça deste facto foi facilmente compreendida por todos, achando o facto totalmente ridículo. Tal deixa-me em parte perplexo… se crianças de 14, 15 anos percebem a imbecilidade deste critério de avaliação, como é que professores criaram tal descritor e outros o aceitaram? Passo a explicar a minha questão. Na ficha de avaliação de desempenho docente a preencher pelo Presidente do Conselho Executivo, um dos pontos a ser avaliados é o empenho do docente no que concerne a evitar o abandono escolar. Teoricamente tal parece justo, um dos objectivos de qualquer professor deve ser contribuir para que tal malogro da nossa sociedade venha a diminuir de intensidade. No entanto, para facilitar o preenchimento de tais fichas, os Conselhos Executivos têm vindo a modificar as fichas de avaliação provindas do Ministério da Educação (algo previsto por lei), criando descritores que permitam avaliar cada professor de forma simples, apoiando-se simplesmente nos resultados obtidos em cada um dos pontos a avaliar, e não no trabalho realmente desenvolvido em cada um desses pontos. Por exemplo, no caso do abandono escolar, o Conselho Executivo criou vários descritores, sendo que, para que o professor tivesse excelente nesse ponto, não poderia haver abandono em toda a escola. Não importa o empenho e as acções efectuadas por cada professor no sentido de evitar o abandono escolar, o que importa é o resultado final obtido nesse ponto. Deste modo, se crianças compreendem que tal facto não tem lógica, como podem professores terem criado tais descritores, e outros, no Conselho Pedagógico, os terem aceitado? E o mais grave é que estes descritores concernentes ao abandono escolar nem são os mais chocantes…
Neste momento muita gente pensará: mas o tópico relacionado com o abandono escolar não será avaliado este ano civil, algo que foi determinado por um decreto-lei já datado de 2009. É um facto. Mas também é um facto que continua no decreto-lei que regulamenta a avaliação de desempenho docente e, no próximo ciclo de avaliação, o biénio 2010/2011, será o Decreto-Lei N.º 2 de 2008 a regulamentar a avaliação de desempenho docente. Ou seja, a partir de Janeiro de 2010, os resultados escolares e o abandono escolar dos alunos voltarão a fazer parte da avaliação do desempenho docente, com todas as injustiças e males que os mesmos acarretam.
Para que os meus alunos compreendessem o porquê de não aceitar tal modelo de avaliação, em seguida expliquei-lhes que, segundo o mesmo, os resultados dos alunos também iriam ser contabilizados na minha avaliação. Nem precisei de dizer mais nada… logo todos acharam tal facto ridículo, afirmando que, caso os alunos se baldassem, os professores iriam ser prejudicados. Tal não tinha qualquer lógica! Ou seja, mais uma vez, jovens de 13/14 anos demonstraram ser mais sensatos que muitos adultos.
E por aí fiquei… como foi suficiente para que compreendessem a minha posição, não explanei mais nenhuma razão para repudiar este modelo de avaliação. Não lhes disse que, na minha escola, na ficha de avaliação a preencher pelo Conselho Executivo, segundo o descritor para se ter Excelente no indicador de avaliação referente aos resultados escolares dos alunos, todos os alunos deveriam ter positiva ou, em alternativa, todos os alunos deveriam melhorar os seus resultados relativamente ao ano lectivo anterior. Não importando se estamos a falar de um professor de Matemática ou Educação Tecnológica. Ou que, nesse mesmo indicador de avaliação, para que, no que se refere à comparação com a avaliação sumativa externa, para que um professor tenha Excelente, a avaliação sumativa interna teria de ser, em média, superior à primeira em, pelo menos, 1,5 valores!?! Para que percebam o quão estúpido isto é, 1,5 valores no Ensino Básico equivalem a 6 valores no Secundário… E acho que não vale a pena falar na brutal diferença entre estes dois tipos de avaliação, onde na avaliação sumativa interna uma parte considerável diz respeito à avaliação das atitudes e valores dos alunos, enquanto que na externa é exclusivamente cognitiva. Mais ainda, segundo esses descritores, se a média da avaliação interna não fosse pelo menos igual à externa, o resultado seria um Regular ou Irregular. Em qualquer um destes casos, mesmo que o professor tivesse Excelente em todos os outros parâmetros, nunca poderia ter mais que Bom como avaliação final. Tendo em conta que, em todas as escolas que conheço, a média da avaliação interna a Matemática é inferior à externa, tal significa que todos os professores de Matemática estariam limitados ao Bom. Ou, em alternativa, passavam a baixar as avaliações internas dos seus alunos, sendo prejudicados noutros itens de avaliação, e tendo os encarregados de educação à perna. Isto a minha avó não sabe… nem este senhor de Bragança, acho eu…
No entanto, também disse aos meus alunos que sei que alguns professores não queiram de todo ser avaliados, não sou ingénuo. Como em todas as profissões há bons e maus profissionais. No entanto, tive que lhes dizer que a esmagadora maioria dos melhores profissionais da minha profissão repudiam este modelo de avaliação. E estamos a falar de professores que não têm qualquer receio de serem avaliados, pois não têm razões para tal.
Por tudo isto, mantenho a luta contra o Decreto-Lei N.º2/2008. Não entreguei os objectivos individuais, estando em risco, segundo o meu Presidente do Conselho Executivo, de não progredir na carreira por mais dois anos.
Admito que se o modelo passasse a ser aquele que irá ser aplicado até ao final deste ano civil, entregaria os objectivos individuais. Não é perfeito mas, pelo menos, não tem aqueles pontos já referidos, que rejeito violentamente. De qualquer forma, sei que um modelo de avaliação perfeito e unanimemente aceite não existe. E pior que o sistema de avaliação anterior é difícil (apesar desta equipa ministerial o ter conseguido)… No entanto, este simplex tem pelo menos um ponto que considero execrável: quem quer ser avaliado na componente pedagógica terá de o requerer. Ou seja, aquilo que deveria ser a norma tem a natureza de excepção.
Deste modo, espero que os professores continuem a lutar contra este modelo de avaliação, tenham ou não entregado os objectivos individuais. Praticamente todos os professores que conheço que entregaram o referido documento fizeram-no devido à chantagem contínua de que fomos alvo. Deve ser dito que muitos professores arriscam muito nesta luta, em alguns casos, o emprego. E daí eu repudiar as atitudes dos professores que criticam aqueles que entregaram os objectivos individuais de avaliação porque, tendo todos algo a perder, uns arriscam mais do que outros.