dezembro 21, 2008

Adoro a minha avó! (ou então, Estou em desobediência civil)

Tenho um enorme amor pela minha avó. Uma mulher com um feitio complicado e com um grande coração. Sempre me considerei uma pessoa calma mas, se alguém na minha adolescência sempre teve capacidade de me levar a um extremo de colapso nervoso numa discussão, essa pessoa era a minha avó. Tal acabou por se revelar muito útil no meu crescimento por duas razões: treinou-me até ao extremo a tentar manter a calma numa discussão, e levou-me a perceber que, por vezes, mais vale parar de discutir, pois a altercação não levará a lado algum. Mas não é por isso que escrevo.
Escrevo porque no fim-de-semana da grande manifestação de professores ela ligou-me. Não sabia se eu lá tinha estado. Pensava que não tinha participado na manifestação, pois sabia que sempre fui defensor de uma avaliação do desempenho docente credível, que dignificasse a profissão, e que sempre fui um crítico dos parasitas presentes na profissão. No entanto, eu tinha lá estado.
O seu discurso começou por transparecer uma certa surpresa por esse facto. Disse-me no seu discurso que um tio meu, homem simples, inteligente e directo, tinha dito que os professores não queriam era ser avaliados. Provavelmente muitos não querem, é óbvio, mas tentei explicar-lhe que estavam lá cerca de 80% de todos os professores. Não poderão ser todos preguiçosos e medíocres. De facto, a maior parte daqueles onde vejo profissionalismo e qualidade estavam lá… não poderiam nunca temer uma avaliação justa e séria. Disse-me, em seguida, que o meu tio também tinha dito que era uma vergonha como as coisas estavam, pois pessoas como o André (que sou eu) fartavam-se de trabalhar, enquanto outros, sem fazer nenhum, ganhavam muito mais que ele. Fico feliz que o meu tio me veja como um bom trabalhador, mas tentei explicar à minha avó que este modelo de avaliação não iria beneficiar aqueles que mais trabalham… mas senti que nada que dissesse a iria convencer. Ela não poderia perceber. Só quem viva um pouco deste modelo ou o conheça bem nos seus diversos aspectos legais, poderá compreender porque é que profissionais exemplares o rejeitam. Sabia que não valeria a pena cansar-me. Mandei-lhe muitos beijinhos e cumprimentos a toda a família, pois adoro-a.
Foi neste pequeno telefonema que pela primeira vez deparei com a opinião de alguém de fora do mundo da educação em Portugal, sobre o momento actual da mesma. Até aí, somente tinha falado sobre o assunto com outros professores, porque considero que, acima de tudo, esta discussão diz respeito aos professores. Há quem diga que este tema diz respeito a todos os portugueses, pois todos são parte interessada na questão, o que é verdade. Mas também sou parte interessada no sistema nacional de saúde, mas não vou dar “bitaites” sobre como se deverá avaliar um médico. Remeto-me à minha ignorância no assunto.
Devo, neste momento, assumir que sempre fui um crítico do sistema de avaliação anterior, bem como do sistema de progressão na carreira. Nunca pude compreender e aceitar como é que professores cujo mérito e profissionalismo eram reconhecidos por todos, e com um enorme grau de empenhamento na escola, poderiam ganhar, por vezes, cerca de metade do salário de outros que praticamente glorificavam a sua mediocridade. Tendo em conta o forte corporativismo existente nas escolas sempre tive um certo receio em tocar neste tema. Também o facto de haver uma relação afectiva com alguns professores que não dignificam a sua profissão levou a que não tivesse o à-vontade para dizer o que pensava nesta questão. No entanto, com a idade, e com a frustração de viver diariamente tão grande injustiça, comecei a alertar para este facto, tentando nunca fulanizar. Perante esse alerta tive quatro respostas: um concordar por parte de muitos daqueles que demonstram um grande empenhamento na sua profissão; um “estas pessoas já trabalham há muitos anos, agora já querem descansar”, ao que respondia “achas que fulano já alguma vez trabalhou com afinco?”, recebendo em troca um sorriso silencioso de concordância com o meu ponto de vista; outros diziam: “também passei pelos escalões mais baixos”, argumento este que só me faz lembrar quando os escravos afro-americanos mais velhos tentavam dissuadir os mais novos de fugir dizendo que já tinham passado pelo mesmo e que acabariam por se habituar; por fim, a resposta mais comum, era um silêncio ensurdecedor de quem sabia que o outro tinha razão, logo evitava a discussão antes da mesma iniciar.
Tendo em conta o último parágrafo, obviamente que quando surgiu a novidade de que iria haver um novo modelo de avaliação de desempenho, achei normal e importante, mas sem grande entusiasmo tendo em conta a qualidade das outras novidades até então introduzidas por esta equipa ministerial. Quando o modelo finalmente surgiu na sua forma legal, ainda como proposta, logo as minhas preocupações se mostraram justificadas, devido a alguns pontos presentes nessa proposta. Ao passar para forma de lei, sem grandes modificações tirando umas pinceladas de maquilhagem, fiquei preocupado com a operacionalização de tal diploma legal, mas mantive a expectativa sem grandes alaridos. Até que finalmente, essa operacionalização chegou à minha escola…
O meu primeiro pequeno momento de revolta foi quando descobri que os documentos que iriam servir de instrumentos de avaliação do desempenho docente estavam a ser “cozinhados” por meia dúzia de professores da escola (alguns dos futuros avaliadores), em total sigilo, o que contrariava fortemente a lei que diz que tais documentos devem ser elaborados e aprovados pelo Conselho Pedagógico, órgão no qual estão os representantes de cada um dos departamentos disciplinares. Esta forma obscura de actuar revoltou vários professores da escola o que levou o Conselho Executivo da mesma a recuar, e a afirmar que tais documentos iriam ser aprovados somente para servir de base de discussão, não sendo, dessa forma, definitivos. Ainda agora me esforço no sentido de acreditar em tais palavras. Mas, com as convulsões que surgiram em praticamente todas as escolas, nesse ano lectivo, o ministério repensou a sua estratégia, optando por avaliar de um modo simplificado os docentes que precisavam de tal avaliação para efeitos de renovação de contrato, para concorrer, ou para progredir na carreira. Das escolas de onde tenho informações sei que tal avaliação foi uma farsa, sendo todos os docentes “corridos” a Bom, o mínimo indispensável aos professores para não serem prejudicados. Onde teria eu já visto isto…
Mas no ano lectivo actual, a ideia era entrar com toda a força com o novo modelo da avaliação de desempenho, e assim foi. Tudo começou pelo preenchimento de uns documentos sobre os quais ninguém sabia explicar para que serviam ou como deveriam ser preenchidos. Mas preencher documentos sem sentido que resultam numa burocracia vazia já é algo que se faz nas escolas há muitos anos e com grande mestria. Portanto, tal não foi grande problema, exceptuando pelo tempo perdido e pelo sentimento de ridículo…
No entanto, durante o processo de preenchimento de papelada, mais especificamente, dos já conhecidos “objectivos individuais”, surgiu o meu segundo momento de revolta. Isto porque, mais uma vez, veio a descobrir-se que o Conselho Executivo, juntamente com os conselhos executivos de outras escolas, estavam a criar a ficha de avaliação a preencher pelo Presidente do Conselho Executivo. Mais uma vez, em flagrante desrespeito pela lei e de um modo pouco transparente. Para além disso, não compreendia como era possível pedirem-me para traçar os meus objectivos quando ainda não sabia de que modo iria ser avaliado, quer pelo Conselho Executivo, quer pelo Coordenador de Disciplina (pois o documento a preencher por este ainda não estava também criado). Mas todos estes factos são pequenos face ao que encontrei naquele documento… Mas, sobre este, escreverei num outro texto, o mais brevemente possível. Para já deixo ficar estes acontecimentos, para que a minha avó e todos os outros portugueses possam saber porque é que muitos professores se revoltam. E para que percebam como Sócrates os faz passar por parvos quando afirma que para ele a avaliação de professores é essencial, não dizendo que para os professores ainda o é mais. E não dizendo que tudo o que os professores pedem é um processo de avaliação credível, claro e justo. Mas sobre isto, brevemente, mais escreverei.

André Pacheco

Publicado por asampacheco em 11:14 PM | Comentários (2) | TrackBack