janeiro 21, 2007

Os exames: um rasgo da realidade

Há muito tempo que a questão da existência de exames não era presença neste espaço. Apesar do tema se encontrar, momentaneamente, um pouco fora da actualidade, resolvi escrever por respeito a quatro alunos cujas experiências merecem ser contadas e alvo de reflexão. Foram todos alunos que frequentaram o 9º Ano de Escolaridade no último ano lectivo. Por último, irei usar nomes falsos por uma questão de privacidade.
Começo por duas alunas que tiveram experiências muito semelhantes. A Alda e a Carla são duas alunas com consideráveis dificuldades de aprendizagem. Até ao ano lectivo em que se encontravam nunca tinham ficado retidas graças a muito esforço e persistência, algo que, infelizmente, é escasso num grande número de alunos do Ensino Básico. No entanto, a disciplina de Matemática no 9º Ano de Escolaridade não é simples, e juntando algumas insuficiências em aprendizagens que deveriam ter sido obtidas em anos de escolaridade anteriores, a disciplina torna-se, para alunos com as suas características, num verdadeiro quebra-cabeças.
Deste modo, as alunas tiveram uma luta árdua com muito trabalho e persistência, algo que foi observado pelo seu professor. No final do ano lectivo, tendo em conta as aprendizagens efectuadas pelas alunas e a avaliação das atitudes e valores demonstradas pelas mesmas, o professor atribuiu às duas, como Avaliação Sumativa, nível três. No entanto, faltava a Avaliação Sumativa Externa, que aparece sob a forma de um exame que abrange uma parte das competências matemáticas trabalhadas no Terceiro Ciclo do Ensino Básico e que dura noventa minutos. É desnecessário lembrar que este mesmo exame não avalia atitudes ou valores. Nem que tão pouco avalia competências matemáticas, limitando-se a atribuir uma classificação aos alunos através de um conjunto de exercícios. Quem já participou na classificação de exames compreenderá facilmente este facto.
Faltava assim o referido exame. No entanto, as alunas iam para este com disposições diferentes. A Carla tinha um só nível negativo e a Alda tinha dois. Na prática, mesmo descendo a avaliação sumativa com o exame, a Carla não ficaria não aprovada. A Alda, sim. Para além disso, para este tipo de alunos, um exame é um verdadeiro martírio. Tendo uma baixa auto-estima resultante das dificuldades de aprendizagem e lento ritmo de aprendizagem, falta-lhes a confiança para defrontar uma experiência do género da de um exame. No caso da Alda, adicionava-se este facto ao medo de que uma má prestação naqueles míseros noventa minutos, que poderão parecer dias, resultar na perda de um ano lectivo inteiro. Perante tudo isto, o professor, apesar de confiante nas aprendizagens que as alunas tinham efectuado, encontrava-se apreensivo e sentia-se impotente, não podendo fazer mais do que tirar dúvidas relacionadas com exercícios de exames anteriores e tentar transmitir-lhes alguma confiança, algo que, visivelmente, escasseava.
Infelizmente, a apreensão do professor tinha de razão de ser. Ambas as alunas tiveram nível um no referido exame e, resultante desse facto, a Alda encontra-se a repetir o 9º Ano de Escolaridade. Para a Carla tudo não passou de uma má experiência sem resultados práticos visíveis, excepto mais um golpe na sua já baixa auto-estima.
A seguinte história é a da Ilda, uma miúda fantástica, bem-educada, mas que teve o azar de ter um elevado grau de dislexia, que transforma grandes textos em algo completamente incompreensível. Tendo em conta este obstáculo, a aluna participava em todas as aulas de apoio de todas as disciplinas possíveis, tendo um horário semanal impressionante. Nunca se queixava do facto e agradecia a ajuda dos professores. Com tal determinação a aluna conseguiu chegar ao fim do ano lectivo com somente uma negativa. A Matemática teve avaliação sumativa de nível três, mais do que merecida. Faltava ainda o exame. Para este, os professores consideravam importante estar alguém que lhe lesse os exercícios, pois a aluna nunca iria compreender aqueles que tivessem textos um pouco maiores. Mas tal era complicado e, deste modo, a aluna somente “lucrou” com a sua deficiência trinta minutos extra na realização do exame, algo de que pouco lhe servia. Quem viu o exame de Matemática de 9º ano em 2006, rapidamente verificou que a sua principal característica eram os textos longos dos enunciados dos exercícios (facto ao qual não me oponho). Imaginam o que terá sido o exame para a Ilda? Desnecessário será dizer que a aluna teve nível um no mesmo, ficando, deste modo, com um monstruoso e injusto nível dois no final do ano lectivo. Felizmente, não resultou numa não aprovação. Pergunto-me: para quantas Ildas este final terá sido diferente?
A última história é a de um jovem que, vivendo numa antiga colónia portuguesa na qual rebentou uma guerra civil, perdeu, entre muitas outras coisas, três anos da sua vida em que não pôde andar na escola. Para além disso, viu-se obrigado a deixar a sua terra natal, vindo para Portugal. Aqui, revelou-se um aluno muito interessado, esforçado, e uma pessoa bondosa. Mais: fora da escola era um jovem impressionante, trabalhando sempre que podia de forma a ter dinheiro para comprar aquilo que para os seus colegas era dado adquirido, pois era-lhes comprado pelos seus pais. Sendo um aluno com algumas dificuldades de aprendizagem, potenciadas por alguma dificuldade no domínio da língua portuguesa (em casa fala crioulo), conseguiu, graças a um grande esforço, terminar o ano lectivo com uma única negativa: a Matemática. Deste modo, só poderia ficar não aprovado se tivesse negativa a Língua Portuguesa. Para tal, teria de ter nível um no exame dessa disciplina, que era o seu calcanhar de Aquiles. Infelizmente, tal aconteceu, e todo o esforço efectuado pelo aluno nesse ano lectivo foi simplesmente em vão.
Estas quatro histórias passaram-se todas na mesma escola. Muitas mais terão havido por este país fora. No entanto, apesar de considerar os exames completamente inconsequentes no que se refere à melhoria das aprendizagens dos alunos, devo afirmar que houve coisas positivas que deles surgiram, tal como os planos da matemática existentes em muitas escolas e, mais importante, a reflexão conjunta que os professores de cada escola tiveram de fazer para a criação dos referidos planos. Mas esta reflexão já poderia ter sido feita a partir das provas de aferição que já demonstravam aquilo que os exames vieram trazer a público. Quem conhecia a realidade dessas provas sabe que os resultados dos exames não constituem qualquer surpresa. No entanto, inexplicavelmente, os resultados das provas de aferição nunca foram conhecidos em tempo útil e as escolas nunca tiveram acesso às mesmas.
Preocupa-me a treta da ideia de alargar os exames aos restantes ciclos do Ensino Básico onde, perante a menor maturidade dos seus alunos, os estragos dos mesmos serão maiores. No entanto, oponho-me a que se retire desde já os exames de 9º ano porque, concordando ou não com a sua existência, o que é mais destrutivo é esta contínua mudança no mundo da educação onde não se pode sequer avaliar se cada medida funcionou ou não, visto estarem em vigência escasso tempo. Lembremo-nos que os resultados das medidas educativas só se podem avaliar a longo prazo, e esta mania legislativa de sucessivos governos vem impedir qualquer avaliação credível.

André Pacheco

Publicado por asampacheco em 04:50 PM | Comentários (7) | TrackBack