Este pequeno texto fez parte da revista Xis, do Jornal Público de 7 de Outubro. Peço muitas desculpas ao jornal em causa e ao autor do texto, mas senti que esta preciosidade de Daniel Sampaio devia ser partilhado pelo maior número de pessoas possível, tal a sua qualidade. Leitura obrigatória.
Adeus Psicologia, viva Educação
Um aviso prévio: o título desta crónica é exagerado e não é para ser tomado à letra. A Psicologia e a Psiquiatria sempre nortearam a minha vida e espero que assim continue a ser, ainda por muitos anos. Sempre trabalhei com psicólogos e mantenho com muitos relações de profunda amizade, sedimentada numa visão partilhada dos problemas da Saúde Mental das crianças e dos jovens. Luto para que estes técnicos tenham cada vez maior credibilidade e possam ajudar, mais e melhor, um número crescente de pessoas. Sou a favor da presença de mais psicólogos na escola, não para fazerem consultas, mas para trabalharem ao lado dos professores e em contacto com as famílias. Por isso, o "adeus Psicologia" é apenas metafórico...
Creio, no entanto, que vale a pena pensar se não estaremos a exagerar. Muitos dos adolescentes que me procuram no Hospital de Santa Maria ou no consultório não sofrem de disfunção psicológica, nem têm doença mental: são jovens com vicissitudes do seu processo de desenvolvimento, sobretudo dificuldades de comunicação familiar ou conflitos relacionais na escola. Predominam as questões de autoridade na família (os filhos respeitam pouco os pais) ou problemas de rendimento escolar e aceitação das regras na sala de aula, num conjunto onde abundam os sentimentos de aborrecimento e desinteresse juvenis, dando razão ao meu colega brasileiro Içami Tiba, que diz estarem a viver a "aborrescência". Quando se pesquisa o passado destes jovens, muitos tiveram uma infância superprotegida, com exigências sempre satisfeitas pelos pais, inseguros para estabelecer regras ou introduzir a frustração. Cresceram assim numa família incapaz de definir limites e a pouco e pouco se tornam crianças cada vez mais omnipotentes, para mais tarde darem lugar a adolescentes controladores e tirânicos. E então surge o recurso ao psicólogo, em casa ou na escola, como técnico salvador capaz de colmatar uma falha, com origens na infância e que uma comunicação distorcida agravou ao longo do tempo. Que pode um técnico de Saúde Mental fazer, se não há doença e falta a educação?
No meu novo livro Lavrar o mar, dou muitos exemplos de situações em que é evidente a necessidade de reactualizar regras, definir espaços para cada geração, procurar zonas de entendimento entre pais e filhos, em suma: educar. E também na escola analiso, em colaboração com a professora Eulália Barros, muitos fragmentos do quotidiano escolar em que a RELAÇÃO entre professor e aluno é crucial para que a sala de aula possa ser um local de estudo e aprendizagem, só possível num ambiente de respeito mútuo. Posso hoje afirmar também que a informação psicologizante (sobretudo a de má qualidade), embora fundamental para compreendermos muitos aspectos do desenvolvimento infantil e adolescente, não tem contribuído para dotar os pais de mais competências para lidarem com os filhos, porque muitas vezes é impeditiva da resposta imediata e intuitiva, essencial à eficácia da função parental.
Deixemos aos psicólogos e psiquiatras o tratamento das doenças e reforcemos, nos pais e professores, a responsabilidade de educar. Já aceitam melhor o título?
daniel.sampaio@xis.publico.pt