junho 22, 2006

“Inventem-se novos pais XII – Por fim…”

Apesar de considerar o tema dos últimos textos de uma importância brutal e uma fonte inesgotável de saudável reflexão, resolvi escrever este texto para fechar, momentaneamente, o tema. Naturalmente, deverá sair daqui um texto um pouco maior que o desejável, visto ir tentar resumir tudo o que foi discutido e resumir todas as ideias que foram proferidas pelos diversos intervenientes na reflexão.
Infelizmente, mas compreensivelmente, a discussão centrou-se na questão dos açoites. Isto é, sendo algo controverso, centrou-se a discussão no acessório, passando para segundo plano as questões centrais relacionadas com o tema. Mais importante que a forma é o acto. Independentemente do modo como se alcança, é imprescindível a existência de regras e a obediência dos filhos relativamente aos pais. O comportamento regrado mostra-se necessário ao equilíbrio emocional da criança e, consequentemente à sua assunção do respeito pelo outro. Em relação à obediência, vivem-se tempos confusos neste campo. Para dar um exemplo, há pouco tempo, quando uma excelente professora procurava demonstrar a importância da obediência pela autoridade, no caso do professor na sala de aula, um aluno afirmou que “obedientes são os cães”. Perante tal facto, teve a professora de ter a tarefa hercúlea de explicar a noção de obediência e de autoridade ao dito aluno. Felizmente, os jovens são seres inteligentes e abertos, e apesar de todas as ideias nefastas de que este jovem tinha sido alvo no que concerne a estes dois conceitos, foi possível trazer algum bom senso à sua mente.
Para se incutir regras nas crianças e a obediência relativa aos pais, dois factores tornam-se necessários: amor e firmeza. Qualquer um destes factores sem o outro mostra-se insuficiente. Quando se ama quer-se a felicidade dos filhos. Como tal, por muito que nos faça sofrer, temos que ser firmes nas nossas opções quando são tomadas tendo como fim o bem deles, e não ceder egoisticamente, para cessarmos o nosso sofrimento e, simultaneamente, potenciarmos o deles.
Perante todos estes factores, não bastando o amor, terá de haver formas através das quais os pais possam demonstrar inequivocamente a sua autoridade, necessária para o equilíbrio emocional e afectivo da criança, formas de exercer a referida firmeza. Independentemente do modo como tal é realizado, torna-se indispensável que exista. Deste modo, a defesa obsessiva do “açoite nunca” tem contribuído para a frustração e sensação de impotência dos pais perante situações problemáticas. Só para dar uma pequena noção da dimensão de tal movimento e a sua perigosidade, há pouco tempo na escolinha da minha filha, quando uma das coleguinhas delas estava a ter um comportamento altamente reprovável e foi repreendida por uma das técnicas da escola, a criança de apenas quatro anos proferiu a seguinte frase, com um pouco de sarcasmo à mistura: “Tu não me podes bater!”. Não me venham dizer que uma criança de quatro anos chega sozinha a esta conclusão. Que raio disseram a esta criança, e com que propósito, para ela ter uma saída tão triste e tão pouco educada. Quem quer que o tenha feito, acredito que não tenha sequer noção da machadada que deu na autoridade de qualquer educador desta criança. Por outro lado, compreendi o porquê desta criança, como muitas outras, criar tantos problemas na escola, quer com os educadores, quer com os colegas.
No entanto, muitas das situações podem, e devem, ser resolvidas por outros meios que não o açoite, sobretudo a partir do momento em que as crianças passam a ter maturidade para compreender essas outras formas de agir, de modo a que sejam eficazes. Estou a falar dos castigos e da chantagem emocional. Colocando em oposição estes dois procedimentos com o açoite, questiono-me: qual será mais violento para a criança? Ao primeiro olhar será o açoite, mais instintivo, logo, em princípio, mais irracional. Mas, caso se consiga juntar alguma racionalidade ao acto, não permitindo que o mesmo seja uma explosão de irracionalidade e violência, mas sim uma simples consequência do acto da criança, sem ressentimentos nem violência verbal, qual forma de agir lhe causará mais sentimentos negativos? Os castigos têm, normalmente, uma duração temporal considerável, o que cria um espaço de tempo onde alguns sentimentos negativos poderão formar-se e amadurecer na mente da criança, sentimentos esses tendo como alvo preferencial quem a colocou de castigo. Por outro lado, a chantagem emocional colocará um sentimento de culpa na criança, deveras mais violento emocionalmente do que qualquer outro modo de agir. Apesar de defender o açoite como última forma de agir, mas sem hesitar utilizá-lo quando necessário, tenho dificuldade em discernir qual dos modos de agir trará efeitos secundários mais nefastos, quando bem praticados.
Concluindo, o amor e a firmeza são cruciais para o bem-estar da criança, para que seja feliz consigo própria e com os que a rodeiam. Por outro lado, uma criança bem-educada faz com os pais se orgulhem da mesma, transformando-a num alvo de elogios, ao contrário do que sucede com as crianças mal-educadas, constantemente criticadas, o que contribui ainda mais para as suas atitudes negativas, criando um efeito bola de neve. Por fim, uma criança bem-educada faz com que os pais tenham prazer em partilhar o máximo de tempo possível com ela. Cada vez há mais casos em que, de algum modo, os pais só têm tempo de qualidade quando os seus filhos não estão presentes. Ainda há pouco tempo, quando questionada sobre as suas férias, ouvi uma mãe responder: “Quais férias? Com as duas miúdas em casa…”.
Estes três pontos demonstram que vale a pena o sacrifício de sermos firmes e exigentes com os nossos filhos no que concerne ao seu comportamento. Este sim é aquilo a que podemos chamar fazer um sacrifício pelos filhos. E essa firmeza e exigência não deverá ser inconstante, mas sim algo sempre presente, pois a ambivalência ou a inconstância conseguem ser mais destrutivas pedagogicamente que a exigência desmesurada ou o laxismo extremo.
Muito mais haveria a dizer, mas por aqui me fico, prometendo que em breve tentarei escrever novamente sobre a escola, num momento em que tal muito se justifica.

André Pacheco

Publicado por asampacheco em 09:43 AM | Comentários (5)