outubro 21, 2005

“Inventem-se novos pais X”

O último texto teve alguns comentários, todos extraordinariamente importantes. Quase parece que inventei três personagens e escrevi em seu nome: da Isabel, da Rute e do Miguel. Mas não, são pessoas que tal como eu entendem a importância da educação e/ou têm a sorte de viver o mágico crescimento dos seus filhos.
A Isabel fez um pequeno comentário com um enorme significado. O facto de termos passado de um extremo a outro no que concerne à forma como os castigos físicos, e outros, são olhados pela nossa sociedade. Passamos de um tempo em que a violência física era corriqueira para um tempo onde, para uma significativa falange da nossa sociedade, qualquer tipo de castigo sobre uma criança é olhado com reprovação, ao ponto de em algumas sociedades haver movimentos no sentido de proibir por lei qualquer tipo de castigo físico sobre as crianças (veja-se o caso inglês, com o escritor Salman Rushdie).
O comentário da Rute é mais longo e como tal foca muitos pontos de extrema importância e relevância. Primeiro, a questão sobre a idade em que se começa a educar os filhos. Não te preocupes Rute por acharem ridículo uma criança ter regras aos quatro meses de idade. Acredito que a educação de uma criança começa à nascença e, infelizmente, as pessoas que consideram esta visão ridícula acabam por sofrer sob diversas formas, assim como a criança, com o facto de menosprezarem a capacidade das crianças serem educadas em tão tenra idade. Outra das questões que a Rute foca, esta mais prática, é o facto de algumas crianças dormirem no quarto com os pais até tarde o que coloca em causa a convivência saudável do casal, se não mesmo, por vezes, o casamento. Para além dos problemas que coloca ao casal, normalmente infringe sofrimento desnecessário à criança quando, por fim, lhe retiram algo que ela vê como dado adquirido. Por outro lado, se tivéssemos permitido que a nossa filha dormisse na nossa cama durante a noite, hoje em dia ela não teria o prazer, ou pelo menos não seria tão significativo, de se levantar nas manhãs do fim-de-semana e enfiar-se a dormir na cama connosco. Depois, ainda no seguimento da questão das dormidas, frisou duas dificuldades enormes: uma muito grande, o deixá-los chorar quando o choro é só uma tentativa de não dormirem sozinhos nas suas caminhas (pois apesar de nós pais sabermos que é pelo bem deles - e isto posso afirmá-lo porque hoje em dia temos duas crianças com quatro e dois anos que vão para cama a horas decentes, para dormir, sem ser necessário efectuar ginásticas brutais para os adormecer, bastando deitá-los e eles ficam sossegados, porque assim estão habituados, e sabem que, quando os pais assim o entendem, é hora de irem dormir - custa imenso ouvi-los chorar); e outra dificuldade ainda maior, mesmo brutal: a de outras pessoas interferirem na educação que se dá aos filhos, muitas das vezes à revelia dos próprios pais que, por educação, tentam gerir a situação de uma forma o mais suave possível. No entanto, nem sempre é fácil, porque as crianças, sentindo nessas pessoas aliados para fazer o contrário do que os pais pretendem, se aproveitam, dificultando mais essas situações. Sei que essas pessoas não o fazem por mal, mas, se soubessem o mal que fazem com tais atitudes, estou certo que passariam a ter outra forma de acção. Pessoalmente, sempre que um pai ou uma mãe estão numa situação complicada com um filho tento transformar-me no homem invisível, não interferindo de qualquer forma (a não ser que me peçam para o fazer), pois sei os problemas adicionais que uma interferência exterior, seja em que sentido for, traz a esse pai ou mãe. A Rute fala também dos hábitos alimentares. Não poderia estar mais de acordo com ela também neste ponto. Quantos pais criticam os filhos ou porque não comem à mesa com eles, ou porque só comem se estiverem a brincar, ou porque só comem a ver televisão, etc.. Resumindo, criticam os filhos porque estes não estão habituados a sentar-se à mesa e pura e simplesmente partilhar calmamente uma refeição com a família, algo que pode e deve ser um prazer. No entanto, se formos ver os hábitos que foram incutidos nestes garotos desde bebés, facilmente se compreendem as razões pelas quais eles não são aquilo que os pais desejam… eu não teria coragem de por o defeito nas crianças, neste caso.
Por fim, um pequeno comentário do Miguel, mas que me obrigou a escrever este texto com a maior brevidade possível. A verdade Miguel, é que os meus filhos não são diferentes de todas as outras crianças… são terroristas como as tuas, pois estão na idade de fazer certas “patifarias”(ainda hoje nos riscaram o sofá, de ponta a ponta, os dois, numa cumplicidade invejável). O problema não está nas crianças fazerem asneiras, na verdade todas fazem. O problema está na forma como agimos perante tais acontecimentos. Caso as crianças não tivessem certos comportamentos não seria necessário educá-las. Aquilo que muitas pessoas vêm como comportamentos indevidos, nós vemos como oportunidades de educar os nossos filhos, para evitar que tais comportamentos se repitam. Mesmo assim, eles não cessam de um momento para o outro ou de uma forma permanente. Mas diminuem e, por outro lado, o facto de os combatermos (seja de que forma for) ajuda a criar nas crianças um conjunto de normas e regras seja de ordem moral, seja de ordem social. No fundo, ainda bem que os nossos filhos são uns terroristas, porque sem este factor nunca os poderíamos educar. Para terminar este ponto devo dizer que acredito que, de facto, as crianças têm feitios diferentes, logo, umas serão mais difíceis de educar que outras sobre determinados aspectos, no entanto, creio que não devemos confundir feitio com educação. Nunca poderemos usar o feitio da criança como forma de demissão do nosso papel de educadores. Deste modo, Miguel, como homem que acredita na educação que és, deves agradecer pelos teus filhos serem uns terroristas, estão a abrir portas para a formação das suas personalidades. E estou certo que daqui a uns anos, mesmo que não o digam, estarão agradecidos aos seus pais pelas pessoas que deles fizeram.

André Pacheco

Publicado por asampacheco em 11:35 PM | Comentários (4)