Tendo em conta a pertinência das questões colocadas neste comentário, sinto ser importante e interessante tecer algumas considerações pessoais ao mesmo.
Caro Américo, permita-me que lhe responda por partes.
Em relação às Ciências da Educação, tendo estas como objecto de estudo o fenómeno educativo ao longo da história, bem como as diferentes metodologias de ensino até hoje experimentadas, não sei em que é que elas podem ser «um divagar sobre o vazio numa noite à beira mar», parafraseando-o. Penso que será útil a qualquer professor saber o que já foi experimentado em termos de métodos de ensino, bem como os seus resultados. Por outro lado, com o desconhecimento das diversas correntes e metodologias em educação, não compreendo como é que um professor pode afirmar que o método por si utilizado é o mais correcto. Não concordo com todas as correntes presentes nas Ciências da Educação (sendo eu um eterno aprendiz das mesmas), mas para tal tenho o meu sentido crítico que me permite tentar retirar o melhor de cada uma. Não me permito ter, porém, aqueles preconceitos presentes num grande número de pessoas, inclusive de professores, que avaliam e criticam as Ciências da Educação tendo em conta aquilo que pensam que elas são, não sabendo, de facto, nada de nada no que concerne a essas mesmas ciências (o que não será o seu caso). Para ilustrar este facto, bastará imaginar o que a senhora Fátima Bonifácio saberá sobre Ciências da Educação.
Em relação ao aprender a aprender, penso que aqui o que estará em causa são as diferentes visões do que é o ensino, sobretudo nas diferenças entre os métodos activos e passivos. Se há coisa que hoje em dia os nossos jovens são acusados é de serem passivos, não tendo capacidade de procurar aquilo que pretendem conhecer. Não discordo em absoluto deste facto, mas temo que tal não seja um exclusivo dos nossos jovens (nem apenas culpa deles). Até os professores têm dificuldade de auto-formação. Para ilustrar este facto, posso dizer que o ano passado tive presente numa acção de formação, onde alguns dos professores simplesmente não faziam nada autonomamente. Sem o apoio individualizado e constante da formadora, nada faziam. O mais engraçado é que estes professores coincidem quase na perfeição com aqueles que usam um discurso do género da senhora Fátima Bonifácio, criticando os alunos exactamente naquilo que são manifestamente as suas falhas. Mas se olharmos para os modelos de ensino que vigoram (não na nossa legislação) nas salas de aula deste país, podemos observar que numa maioria dos casos são usados métodos passivos, isto é, o aluno é um mero receptáculo de informação, pretendendo-se do mesmo que esteja no seu lugar ouvindo o seu professor. Mais tarde, é-lhe pedido que repita as informações que recebeu, num teste. Deste modo, se o trabalho é efectuado nestes moldes, o que se espera que seja o resultado? Jovens com capacidade de auto-formação, que buscam as informações que necessitam, que não têm dificuldade em compreender simples instruções escritas, etc.? Para verificar tal facto, bastará assistir ao triste espectáculo numa qualquer repartição pública de um qualquer serviço onde, sem a ajuda dos funcionários, poucos são capazes de procurar informações presentes nos painéis desses serviços, preencher documentos onde constam as instruções para o efeito, etc.. Por outro lado, começam a surgir nas escolas pessoas que compreendem e revêem-se nos métodos activos de ensino, onde o aluno não é um mero espectador, mas sim co-constructor do seu próprio conhecimento. Este modelo implica mudanças importantes ao nível da avaliação, envolvendo o aluno na mesma, procurando fazer com que o objectivo do aluno não seja obter os pontinhos necessários para “passar”, mas sim compreender o que é aprender, fazendo com que ele tenha a noção do que sabe, e do que ainda não sabe (e se possível, tenha prazer nas suas aprendizagens – não significando isto que se deva, obrigatoriamente, enfeitar ou tornar apelativas todas essas aprendizagens). Esta forma de trabalho poderá ser mais eficaz para que o aluno obtenha capacidade de auto-formação, de ser capaz de aprender autonomamente (ou seja, aprenda a aprender – algo tão importante no mundo de hoje, tal a velocidade de evolução das novas tecnologias). Pessoalmente, não acredito que se deva utilizar um único método, como se esse fosse em tudo superior aos restantes. Devemos tentar escolher e adaptar aquele que se adequa a cada situação. Mas para tal temos que os conhecer, como são, quais as vantagens e desvantagens. Assim, acho que não podemos ter qualquer preconceito em relação a todos “esses” modelos que foram surgindo. Só tendo um amplo conhecimento de todos eles, e tendo abertura para a sua experimentação, podemos fazer as escolhas adequadas no nosso ofício, ao mesmo tempo que podemos criticar cada um deles.
Já me alonguei na resposta, por tal peço desculpa. Espero ter sido claro, e penso que esta discussão deveria continuar, tal a sua importância.
Sentindo, tal como o Miguel, a frustração, o choque, e muitos outros sentimentos destes derivados, após ter assistido a uma discussão num programa televisivo sobre o ensino básico e secundário em Portugal, onde não constava um único representante dos mesmos, senti-me obrigado a escrever sobre o assunto, para sossegar a minha revolta.
Que conste do painel um anterior ministro da educação que demonstra ter conhecimentos sobre a coisa educativa, compreendo. Que se encontre um representante do Fórum para a Liberdade de Educação, compreendo. Que se observe um doutor e mestre em Ciências da Educação, compreendo. Que se encontre a ministra de educação, compreendo, apesar de manifestamente ter um paupérrimo conhecimento sobre a coisa educativa (paupérrimo e tristemente observável, no entanto, não a posso criticar... sentir-me-ia muito desconfortável se tivesse no ministério das finanças, por exemplo). No entanto, pergunto-me o que estariam lá a fazer os outros dois intervenientes. Um deles sabia pouco, mas admitia-o dando as suas opiniões de senso comum de uma forma ponderada, vendo ter alguma capacidade de reflexão. No entanto, ouvir a outra senhora foi francamente confrangedor.
Este constrangimento não deriva da senhora ter opiniões, no que concerne à coisa educativa, diametralmente opostas às minhas. O meu espírito democrático permite-me conviver com diferentes opiniões e com as críticas às minhas. No entanto, quando essas opiniões derivam do desconhecimento e da ignorância relativamente ao objecto em questão, apoiando-se única e exclusivamente no senso comum da pessoa em causa, ao mesmo tempo que esta demonstra uma arrogância e superioridade sobre os demais, como se a sua opinião fosse revestida de uma solidez a toda à prova; aí o sentimento de revolta apodera-se de mim com toda a força. Esta revolta provavelmente não apareceria se aquelas opiniões fossem proferidas num qualquer café, perante outros ignorantes sobre o assunto. Neste caso, o sentimento seria de simples compaixão. Mas, tudo se passou num programa televisivo com uma audiência significativa, e onde, mais grave ainda, a pessoa em causa foi uma das mais interpeladas por quem moderava o programa. Vi outros intervenientes deste programa serem interrompidos pela moderadora quando apresentavam opiniões fundamentadas em dados concretos, enquanto que a outra senhora teve um tempo de antena quase escandaloso. De facto, a moderadora também teve um papel triste, tentando à força passar a ideia que o que é bom é o ensino particular, como se todo este fosse excelente, e todo o ensino público mau. Felizmente falhou nos seus intentos. Mas esquecendo a moderação pobre e parcial do programa, centremo-nos na senhora Fátima.
Esta senhora apareceu graças a um artigo de jornal, utilizando um discurso que está em voga, utilizado por muitos “opineiros” (obrigado Miguel), de que o sistema educativo está mal (como se antigamente fosse fantástico), e que a culpa é dos “especialistas” e “dessas pedagogias”. O próprio ex-ministro da educação, o muito amado David, utilizou este tipo de discurso, porque, infelizmente, é uma forma fácil de ganhar adeptos, até entre os próprios professores!?! Na altura, li o artigo e tentei esquecê-lo, pois como me explicou alguém que me é muito querido, se fôssemos responder a todos os artigos do género não faríamos mais nada na vida. No entanto, esta senhora ganhou, de uma forma incompreensível, o “direito” de aparecer em debates sobre educação (num dos dias seguintes tive que gramá-la na SIC Notícias... pobre país!). Mas colocando de lado este facto, centremo-nos no seu discurso. Entre as coisas que retive na discussão, algumas são realmente chocantes. Ela disse que coisas como aprender a aprender, competências, desenvolvimento do sentido crítico, etc., eram más para o sistema educativo. Ela própria afirmou que não compreendia o que era isso de aprender a aprender. E este é que é o grande problema: ELA NÃO SABE. E se não sabe, ou aprenderia para poder falar sobre o assunto (mas para tal terá de saber aprender), ou admitiria a sua ignorância e manter-se-ía calada. Mas esquecendo esta afirmação (que continha outros itens do género que ela considerava maléficos para a escola) que, só por si, deveria ser suficiente para a expulsar do programa, continuemos, para chegarmos à parte mais triste do discurso.
Essa parte é aquela em que critica os “especialistas” e as “pedagogias”, defendendo o esforço, o rigor, o ritmo, etc., todos aqueles chavões sempre presentes neste tipo de discurso (talvez a do ritmo seja a novidade). Tenho que admitir que a pedagogia é um tema ao qual dedico quase exclusivamente as minhas leituras e, acreditem ou não, ainda não cheguei à parte das pedagogias em que se defende que não deve haver esforço, rigor... e até ritmo. Em relação ao último, já li muita coisa sobre a importância do ritmo de aprendizagem de cada um, que deveria ser respeitado (conforme está na lei), o que, no entanto, só acontece em casos pontuais (mas penso que não era isto a que ela se referia quando falava em ritmo, penso que esta visão de ritmo ser-lhe-á incompreensível).
Em relação aos “especialistas” e às “pedagogias” adoraria perguntar-lhe: que pedagogias? Estou farto de ouvir professores criticarem essas “pedagogias”, mas se alguém lhes perguntar quais, não sabem responder. E, por outro lado, se, na escola, num considerável número de casos, os professores ainda trabalham como há 30, 50, 100 anos atrás, como poderão essas “pedagogias” ser a razão da nossa desgraça. Sendo essa senhora professora do superior, já lhe imagino as aulas: uma espécie de conferência onde as questões por parte da audiência devem ser escassas (pois que quebra a linha de raciocínio!). É verdade, eu fui aluno do superior, poucos professores tive. Tinha lá era uns indivíduos que “davam” aulas. No início dos semestres distinguia os professores dos outros (dos dadores de aulas), bastando duas ou três aulas para o efeito, e depois, ia às aulas dos professores, e estudava as cadeiras dos outros, sozinho ou com os meus colegas (sorte a minha que tinha aprendido a aprender). E o melhor é nem falar em avaliação, porque o grosso dos docentes do superior confunde avaliação com exame. No seu já célebre artigo a senhora até escreveu: «Há 25 anos que observo, de ano para ano, a degradação da qualidade dos estudantes, e há 25 anos que vão sendo piores as notas que me vejo obrigada a dar, apesar de a minha complacência e tolerância terem aumentado com a idade e a sensata tendência para a acomodação que ela gera.» “Facilitismo” diriam alguns...
Enquanto se educam as crianças nas dormidas, eis que surge outra questão um pouco mais complicada: as refeições.
De início, salvo certas características físicas das crianças, as refeições não são complicadas. Comem de três em três horas (uns com uns intervalos entre as refeições um pouco maiores, outros um pouco menores), logo não haverá grandes complicações (norma geral). No entanto, a alimentação das crianças sofre evoluções com o seu crescimento. Salvas algumas excepções, o leite materno é substituído pelo biberão, depois surgem as papas, mais tarde as sopas até ao aparecimento gradual dos sólidos. No início de cada uma destas etapas podem, ou não, surgir crises. Por exemplo, no nosso caso, a introdução do biberão na vida do Marcos foi um enorme problema para todos. Perante a escassez do leite materno, vimo-nos na contingência de alimentá-lo com um biberão. O rapaz, habituado que estava a mamar na mãe, não aceitou a ideia de mamar em algo sintético e com um sabor diferente. Fomos sempre, com muita paciência, tentando habituá-lo à nova forma de alimentação. No entanto, ele mostrava-se irredutível. Vendo que “a bem” a coisa não ia, e que ele começava a sofrer com fome, foi tomada a decisão mais difícil, mas necessária: ou “ia ou rachava”. Rachou. Depois de muito se debater contra o biberão, o cansaço venceu-o e ele desistiu, tomando a sua primeira refeição completa de biberão. Depois desta refeição complicada, a sua luta com o biberão diminuiu, até cessar no dia seguinte, passando a encarar com naturalidade a nova forma de se alimentar. Poderá parecer violenta esta forma de agir. No entanto, não se pode esperar que um bebé tenha a maturidade para compreender o que é melhor para si. Se agimos da forma como fizemos, foi só para o seu bem. Tal como relatei este episódio, poderia também fazê-lo relativamente à introdução da sopa na alimentação dos nossos dois pequenos. No entanto, nestes casos não foi tão difícil e sofrível (foi possível habituá-los ao novo sabor e textura de uma forma gradual; no entanto, não esqueçamos que no caso da passagem do leite materno para o biberão foi um corte total com a forma de alimentação anterior, ao mesmo tempo que era a única forma de alimentação, logo, imprescindível).
Todo este relato teve uma única intenção. Costumam dizer-nos que temos sorte com os nossos filhos, pois comem bem, sem necessidade de técnicas de diversão (não tornando as refeições penosamente longas), e a mais velha, vejam lá!, come sozinha à mesa desde pouco mais do ano e meio e pede para sair da mesa nos fins das refeições, após todos terem acabado de comer.
Mas vamos por partes. Primeiro, nunca nos permitimos a arranjar esquemas para que os nossos filhos comessem. Sendo o Marcos novo de mais para exemplo, a mais velha será melhor para ilustrar o que afirmo. A Alice foi habituada a que, quando era para comer, era para comer. Não havia brinquedos na área, não havia televisão para que estivesse distraída, e quando nos começou a compreender, “sabia” que tinha de estar virada para nós para que pudéssemos dar-lhe as “colheradas” (não andávamos à procura da sua boca, numa ginástica por vezes impressionante, e à custa de uma grande firmeza da nossa parte, o que significou, por vezes, a aplicação da “palmadinha pedagógica”). Assim, quando passou a fazer as quatro refeições normais, facilmente passou a comer connosco. Aqui, enquanto comíamos, dávamos-lhe de comer, de forma que ela desde cedo compreendeu que a refeição é um momento familiar colectivo. Quando ganhou mais destreza com as mãos, enquanto lhe dávamos de comer, deixávamos que ela tivesse uma colher, para que tentasse comer sozinha. Deste modo, rapidamente aprendeu a comer sozinha (apesar de muita comida cair no chão e afins, pois a sua destreza com a colher não surgiu de um momento para o outro). Após ter aprendido a comer sozinha, em seguida aprendeu outra coisa: que só podia sair da mesa com os restantes membros da mesma, salvo raras excepções. Comendo rapidamente, era sempre das primeiras a terminar a refeição. É óbvio que no fim de comer queria ir brincar. No entanto, habituamo-la a sair da mesa depois de todos terem comido. Para isto, o mais importante foi o exemplo. Nunca tentem educar uma criança com o princípio “não faças o que eu faço, faz o que eu digo”. O resultado será catastrófico. Todo este trabalho diário, gradualmente apreendido pela Alice, fez com que ela seja uma criança de três anos (recém feitos) que come com os adultos, e que no fim da refeição pede para ir para o chão, depois de todos terem terminado (não sendo, porém, nenhum fenómeno!). Enquanto se alimenta, está com os restantes adultos ou crianças de igual para igual, com as suas limitações, obviamente, partilhando um momento deveras importante e significativo para a vida familiar.
Por tudo isto e mais algumas coisas, começo a perder a paciência quando dizem termos sorte. O mais grave é que são capazes de nos criticar quando não permitimos que a Alice vá para o chão antes de todos os outros terminarem a refeição, ou de não a permitirmos ser “lambona”, comendo só o que mais lhe agrada, etc.. Ao mesmo tempo criticam os seus filhos por fazerem das refeições um inferno, de saírem da mesa sem acabar de comer e sem pedir, de serem esquisitos só comendo o que querem, etc.. Nem vêm que a culpa não é exclusiva das crianças, e ao estar a criticá-los continuamente, só estão a fazer com que eles interiorizem que são tal como os pais os descrevem, nunca mudando essa sua faceta e criando uma baixa auto-estima.
Correndo o risco de ser chato, volto a bater na tecla da primeira infância. Não esperem pelos 5, 6, 7 anos, ou mais, para os habituar a este tipo de coisas. Aí já pouco haverá a fazer. Não é por acaso que há adultos tão “maus de boca”, com montes de manias no que concerne à sua alimentação, algumas que nem mesmo eles conseguem explicar.
Com tudo isto pretendo somente que cheguem a uma conclusão: tudo se educa; seja a boca a diferentes sabores, seja o comportamento à mesa. Todo este esforço da parte dos pais será recompensado. Depois de momentos iniciais de muita tensão e choro à mistura, nunca agradável aos pais (e que alguns consideram cruel, pois nem sequer admitem a possibilidade de deixar os seus filhos chorar), o resultado são crianças equilibradas e felizes, com um comportamento correcto.
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André Pacheco
Trocando as voltas a mim mesmo, levei a que esta reflexão mudasse de rumo, sem que eu mesmo disso tivesse dado conta. Deste modo, considerei mais interessante para mim e para todos os interessados, não apontar os erros mais frequentes de alguns educadores de forma quase indiscriminada, disparando em todas as direcções, mas sim avaliando o nosso, meu e da minha cara-metade, percurso de educadores de uma criança que praticamente concluiu a sua primeira infância. Utilizando a nossa experiência e observação, espero reflectir com os interessados com o fim de orientar e apoiar futuros e actuais educadores. Com este propósito, propus-me, no último texto, reflectir sobre quando se dá o início da educação, e será este o ponto de partida deste texto.
Diria que a educação começa mal a criança nasce (o que não significa que o nosso papel de pais só surja neste momento). Ainda no berçário do hospital, o comportamento da mãe relativamente ao bebé (infelizmente, o pai está privado desses momentos), é extremamente importante. Isto relativamente à educação de dois aspectos: o dormir e o comer. Vou dedicar a minha reflexão mais ao primeiro ponto, deixando o segundo para mais tarde.
Se observarmos crianças dos 0 aos 4/5 anos, vemos, no que concerne ao hábito de dormir, casos muito distintos. Vemos crianças que, numa determinada hora vão para a cama, onde ficam sozinhas até adormecerem; outras vão com os pais, também em determinadas horas, adormecendo na companhia dos pais; outras vão com os pais, onde estes “tentam” mantê-las na cama para que adormeçam, realizando várias tentativas, até que consigam, ou até que desistam (neste caso nas sestas da tarde); outras vão para a cama quando querem. Seria extremamente simplista afirmar que uns pais têm sorte e outros azar. No entanto, este é o argumento mais usado nestes casos: o defeito está, pura e simplesmente, nas crianças. Mas, se observarmos o comportamento dos pais relativamente às crianças neste ponto, descobrimos que as coisas não são tão simples assim.
Nos primeiros dias de vida da criança, podemos ver pais sempre com o bebé no colo, e outros a pegar no bebé de uma forma criteriosa. Sabe bem a qualquer pai pegar no seu filho no colo, no entanto, não poderemos pensar só em nós, mas sobretudo na criança. Relativamente a esta, saber-lhe-á bem sentir o calor dos seus pais pegando nela ao colo. Porém, o que se torna hábito deixa de ser um prazer. Deste modo, estamos a retirar um prazer a essa criança, porque o mesmo passa a ser banal. Para além disso, criamos-lhe um hábito que trará muita infelicidade, seja aos pais, seja a ela própria. Com o crescimento da criança, uma de duas coisas irá acontecer: ou lhe iremos retirar um hábito por nós nela inculcado, e daí trazer grande sofrimento ao bebé, ou, por outro lado, sentir-nos-emos prisioneiros daquele ser que não nos deixa realizar os nossos afazeres e ter os nossos prazeres individuais, pois está completamente dependente da nossa presença física ao seu lado, mesmo nos momentos em que não precisa dela.
Voltando à questão da dormida, o que está em causa é a forma como a criança é habituada a dormir. Em relação a este ponto, há dois factos a ter em conta. O ambiente de adormecimento e os horários do mesmo. Este último será, provavelmente, o mais importante. Se a criança for habituada a realizar as suas sonecas aproximadamente no mesmo horário, diariamente, e se for habituada a que a ida para a cama seja definitiva, não uma mera tentativa de adormecimento, ela apreenderá aquele hábito, tornando-se o mesmo natural (no caso das sestas durante o dia, será natural enquanto o seu metabolismo assim o exigir).
Em relação ao ambiente de adormecimento, o que está em causa é a forma como as crianças são adormecidas. Nuns casos, desde bebés que algumas crianças são embaladas até adormecerem. Qual não é o espanto dos seus pais que, ao longo do seu crescimento, essas mesmas crianças quando acordam a meio da noite, exigem tal tratamento. Pergunto; porquê o espanto, se assim foram habituadas? Outras crianças, pelo contrário, quando chega a hora de dormir, os seus pais preparam-nas, preparam o quarto, e simplesmente deitam-nas. Elas lá ficam até adormecerem. Dizem-nos que temos sorte, porque as nossas crianças são assim. Creio que seja algo mais do que simples sorte. Sei que cada caso é um caso, e que há crianças mais difíceis de educar neste ponto específico que outras. Nós próprios temos essa experiência. Foi-nos mais difícil incutir este hábito à nossa filha mais velha. Mas desde pequenos que os dois sabem que, quando é para ir para a cama dormir, é realmente para ir para a cama dormir. No início é relativamente simples, porque, salvo os casos de cólicas e outros problemas, as crianças têm o ritmo de dormir três horas, comer em seguida, e assim sucessivamente. Aos poucos vamos introduzindo a ideia da noite, até que ela surge quando deixam de necessitar comer à noite. O problema começa quando eles descobrem que o facto de irem para a cama dormir é uma decisão tomada pelos pais. Aí começam a lutar contra esse facto. Quando vão para a cama choram, gritam, etc.. Se lá formos sempre que eles o fazem eles descobrem que a sua táctica está a surtir resultados. Deste modo, quando nós, os pais, sentíamos que tudo estava bem, que mal entrávamos no quarto e pegávamos neles o choro cessava, quase por milagre, o que fizemos foi deixá-los chorar. Quem nunca o fez não pode imaginar o sofrimento que os pais passam nestas alturas. As dúvidas que estes momentos trazem. Os momentos de tensão entre os dois progenitores. No entanto, com o passar das noites, o choro diminui até que cessa. A partir daqui é fácil, a criança acha natural que a determinado momento é tempo de dormir, deita-se e dorme. No entanto, o trabalho não está terminado (nunca está), tem que se manter a regra. Aquilo que pode demorar meses a construir poderá ser destruído num dia; nunca nos esqueçamos.
Para ilustrar tal facto poderei usar o nosso exemplo. Como quaisquer pais, não temos a alegria de estar com os nossos filhos durante todo o dia. Quando terminámos a licença de maternidade, e fomos os dois trabalhar, a Alice ficou, durante alguns momentos do seu dia, ao cuidado de um infantário. Aqui não houve qualquer problema em relação às dormidas, pois o infantário tinha o horário das sestas bem definido, e como ela estava habituada a dormir sem mordomias desnecessárias, manteve o seu saudável hábito. No entanto, mudámos de cidade e, consequentemente, a Alice deixou o infantário que tanto nós gostávamos. Numa nova cidade, onde os infantários e afins estavam lotados, tivemos de recorrer a uma ama. A que nos calhou em sorte era excelente em praticamente todos os aspectos, não nos podendo queixar da nossa sorte. Porém, nada é perfeito. E o primeiro caso com a ama surgiu pela questão das dormidas. Estando a Alice o menos tempo possível na ama, para que pudesse estar connosco a maior parte possível do dia, ela fazia na ama, por vezes, uma sesta sensivelmente a meio da tarde, antes do lanche. Nos dias em que íamos levar a Alice na hora em que ela devia começar a fazer a dita sesta, alertávamos a ama do facto. No entanto, com o tempo, a ama começou a dizer algo que nos começou a deixar preocupados. Quando nós dizíamos que estava na hora da sesta da Alice, a ama dizia que ela quando queria dormir, dizia-o, não sendo necessário deitá-la no imediato. Logo vimos que tal facto, a médio/longo prazo, iria trazer problemas. Enquanto a sesta antes do lanche foi um imperativo biológico impossível de ultrapassar, o problema estava minimizado. Chegava a um momento em que o seu corpo não mais aguentava, e a Alice pedia então à ama para ir dormir (estava minimizado na perspectiva dos adultos, pois para ela não era saudável brincar até à exaustão). O problema para os adultos (e para ela), surgiu quando começou a aguentar acordada até ao lanche, e um pouco mais, não pedindo à ama para ir dormir. Necessitada de descansar, quando a íamos buscar, encontrávamos uma espécie de zombie, cansadíssima e mal-humorada. Quando chegávamos a casa deitávamos a pobre que, fazendo um sono fora de tempo, desregulava todo o resto do seu dia, passando-o com um humor simplesmente assustador (não estando bem com ninguém, nem com ela própria). Face a isto fomos falando com a ama, alertando-a para o que estava a suceder. Perante tal facto, e depois de compreender o que se passava, ela repensou a sua forma de agir com a Alice. Aí aconteceu o que nós esperávamos: quando um dia, por fim, a senhora resolveu deitar a Alice para que ela dormisse (coisa que ela continuou sempre a fazer em sua casa apesar de passar, na altura, uma fase de negação relativamente às sestas à tarde, o que não era de estranhar), a Alice fez-lhe frente, não dormindo, não ficando sequer na cama, levando a que ama desistisse de tal intento. É óbvio que tal acontecimento não nos surpreendeu. Se habituou a criança a decidir sobre quando ir para a cama, como é que queria que a criança, agora mais velha, aceitasse a perda desse privilégio. Estando cientes que, provavelmente, a repetição deste episódio levaria a que a ama nunca mais conseguisse deitar a Alice, tivemos que modificar os horários desta, de forma a que não necessitasse dormir lá nos tempos seguintes. Readquirindo totalmente o seu hábito de efectuar a sesta da tarde, voltou a dormir uma ou duas vezes na ama, não muitas vezes, pois tal não foi necessário.
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André Pacheco
Depois de um interregno considerável derivado da “silly season”, continuo a minha reflexão escrita sobre a educação familiar. Mantenho este tema por considerá-lo um tema emergente e urgente, pois que as implicações do mesmo são importantíssimas para a vida de milhares de futuros adultos. Prova da emergência de tal tema é a chuva de textos nos meios de comunicação social escrita que criticam o nosso sistema educativo e os jovens de hoje, apelidando os últimos de preguiçosos e de outros adjectivos desagradáveis. No entanto, custa-me criticar somente esses jovens, algo muito fácil e que acarreta aplausos de todos os quadrantes, esquecendo aqueles que os ajudaram a crescer, que foram co-responsáveis pela sua formação nos mais diversos aspectos. Os contagiados pela “opinite” (expressão muito bem conseguida pelo Miguel), criticam o sistema educativo, por consequência, criticam os jovens, esquecendo ser eles os seus educadores, logo grandes responsáveis pelo estado actual dos mais novos. Não quero dizer com isto que não haja razões para criticar muitos dos jovens. No entanto, será mais profícuo gastar uma hora por dia a pensar como melhorar a situação actual, do que estar todo o dia a criticar essa mesma situação.
Apesar das críticas dos “opiniteiros” se dirigirem quase exclusivamente aos jovens, continuo a bater na tecla da primeira infância, onde se forma quase totalmente o carácter e a personalidade da criança. Facto que a Joana ajudou a explicar.
Assim continuo a reflectir sobre a questão da procura de consensos entre os educadores sobre o rumo a dar relativamente à educação dos seus educandos.
Um dos factores importantes para que tal aconteça é a tal comunicação entre os educadores sobre os comportamentos dos seus educandos, e sobre o que fazer para melhorar alguns aspectos dos mesmos. Para tal, será inicialmente necessário que os educadores acreditem no seu papel preponderante na formação da personalidade dos seus educandos. A partir do momento em que acreditam que uns nascem “assim” e outros “assado”, portanto nada havendo a fazer, estamos perante um final catastrófico. Verifica-se, no entanto, que os defensores do determinismo, só o são após uma má experiência relativamente aos seus educandos, sendo mais uma forma de justificar o seu “insucesso”. Na realidade, antes de se verem no papel de educadores, todos sabem apontar os erros efectuados por outros educadores. O que sucede então com esses indivíduos quando se vêm nesse papel? Admito não fazer a mínima ideia em alguns dos casos. Existem aqueles que nunca reflectiram muito sobre questões educativas. Para além disso, confundem progenitores com pais e, face à falta de vontade em ser pai na sua plenitude, deixam que os seus filhos cresçam e se auto-eduquem. O resultado é, na esmagadora parte dos casos, catastrófica, salvo quando existe a intervenção de outros adultos que vão incutindo alguma educação nessas crianças. Depois há aqueles que, por uma série de acontecimentos desafortunados na sua vida, perdem a força para educar os seus educandos. Estes dificilmente poderão ser criticados. Havendo ainda muitas e diversas situações, nas quais se consegue explicar minimamente o que se passou com os educadores para “falharem”, há, no entanto, uma que se apresenta como a mais enigmática: é o caso daqueles que sempre apontaram defeitos à educação ministrada por outros educadores e, quando na situação de educadores, imitam-nos. Já observei e tentei compreender estes casos, mas nunca o consegui. Falta-me a coragem para os interpelar sobre o assunto, pois que o mesmo é muito melindroso, podendo gerar um conflito desnecessário. Compreendo que não é fácil pôr em prática certos procedimentos com os nossos filhos, sobretudo aqueles que implicam sofrimento dos mesmos. O sofrimento que sentimos nessas ocasiões é brutal. No entanto, se os amamos, não compreendo que se opte pelo caminho mais fácil para nós, que levará a um enorme sofrimento futuro dos nossos filhos. Alguns pais dizem: sabemos que estamos a criar maus hábitos no nosso filho, mas quem sofre as consequências somos nós. Infelizmente, futuramente, esse jovem irá ser alvo de um grande sofrimento derivado desses maus hábitos. Em muitos casos, o sofrimento vem a curto prazo, devido às críticas constantes dos pais, à falta de habilidade em lidar com os seus pares, fazendo com que estes os coloquem de parte, e à falta de vontade de outros adultos privarem com estas crianças, pois que o prazer em tal facto passa a ser residual.
O prazer supremo resultante do esforço de educar o melhor possível os nossos filhos, é ter orgulho nos mesmos, poder elogiá-los, vê-los felizes e sociáveis, e verificar que as outras crianças e adultos apreciam a sua companhia. Por estes factos, e por saber que os estamos a ajudar a serem potenciais futuros adultos felizes, vale a pena efectuar sacrifícios no sentido de lhes incutir as melhores aprendizagens.
Haveria ainda muito a escrever sobre este assunto, no entanto, irei passar para outra questão ligada à educação na primeira infância: quando começa essa mesma educação?
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André Pacheco