Na reunião de reapreciação da avaliação de final de ano da nossa aluna, a revolta e espanto do director de turma estendeu-se ao conselho de turma. Não pelo pedido em si, mas pelos moldes em que foi feito, e pela falta de qualidade do mesmo, miseravelmente argumentado, calunioso, e até disparatado (ao ponto da turma da aluna estar errada). Apesar deste último erro, de carácter formal, ser suficiente para a não realização da dita reunião, o conselho de turma optou por um caminho mais sensato, apreciando, reflectindo, e comentando os argumentos apresentados pela encarregada de educação. Tendo em conta a fragilidade da argumentação, bem como algumas falsidades aí incluídas, o conselho de turma optou pela manutenção da avaliação da aluna decidida na reunião de final de ano, contrariando todos os argumentos apresentados pela mãe da aluna.
O Conselho Pedagógico, após apreciar o processo de reapreciação, concordou com o conselho de turma e, consequentemente, a aluna manteve a não aprovação, decisão que foi transmitida à encarregada de educação, incluindo os documentos referentes ao processo de reapreciação.
Poucos dias após estes acontecimentos efectuaram-se as matrículas. Para efectuar as matrículas da turma da nossa aluna foram indigitados o director de turma e um outro professor da turma. Sendo a turma muito grande, e comparecendo muitos alunos e encarregados de educação na abertura das ditas matrículas, os dois professores não tinham mãos a medir... Para além disso, outras questões extremamente importantes tinham que ser resolvidas pelo director de turma, o que fazia com que este por vezes tivesse que se ausentar da sala onde decorria o processo de matrículas, andando a correr pela escola fora como um misto de uma barata tonta e do coelho da Alice no País das Maravilhas... No meio deste corre-corre, o director de turma foi à sala das matrículas, na procura de uma pessoa. Chegou à porta da sala e observou a mãe da nossa aluna a falar com o outro professor com um modos extremamente mal-educados, ao ponto do outro professor quase não responder, tal era o seu choque. Quando a mãe da nossa aluna viu o director de turma, automaticamente, calou-se. Como a pessoa que o director de turma procurava não estava na sala, este deu meia volta e continuou a sua procura. Poucos minutos depois, quando o director de turma tinha já terminado de tratar a quase totalidade dos outros assuntos, podendo dedicar-se inteiramente ao processo de matrículas, no caminho para a sala onde estas se realizavam, apareceu a mãe da nossa aluna, novamente com maus modos, a dizer que tinha de ir trabalhar, logo, estava com pressa. O director de turma terminou rapidamente a conversa respondendo-lhe que estava ali desde as 8:30 da manhã e ainda não tinha parado. Já na sala, e tendo em conta que a senhora não era a primeira dos que estavam à espera, o director de turma perguntou aos que estavam à frente da mãe da nossa aluna se não se importavam de que ela fosse atendida primeiro, visto estar com pressa, demonstrando à mãe da nossa aluna que há formas de vivência em sociedade que devem ser respeitadas. Deve-se acrescentar ainda que a nossa aluna, também presente na sala, não conseguiu olhar nos olhos do director de turma, só lhe dirigindo a palavra quando este a cumprimentou.
Mais tarde, quando já ninguém estava na sala, o director de turma e o outro professor comentaram o incidente, ficando o director de turma a saber que, quando a mãe da nossa aluna chegou à sala, se pôs a perguntar onde estava o director de turma, pois queria falar com ele sobre a avaliação da aluna, etc., coisa que, de facto, não fez.
Neste dia houve unicamente mais um acontecimento a registar, mas sem importância para a nossa história. A outra encarregada de educação que ponderou pedir reapreciação da avaliação do seu educando, não o fazendo entretanto, teceu comentários sobre a injustiça dessa avaliação, colocando em causa um professor do conselho de turma, extremamente empenhado e profissional, o que, tendo em conta os acontecimentos anteriores, enfureceu o director de turma que, sabendo que o dito professor estava na escola, perguntou à encarregada de educação se não preferiria falar directamente com o mesmo, ao que esta se negou e a conversa ficou por aí.
(Cenas do próximo episódio: a Direcção Regional de Educação entra na nossa história...)
Após a afixação das avaliações finais do ano lectivo, o director de turma convocou todos os encarregados de educação para uma reunião a realizar na escola. Na reunião, onde participaram grande parte dos encarregados de educação dos alunos, foram dadas as informações necessárias quer em relação às matrículas, que se avizinhavam, quer, mais importante, às informações relativamente à avaliação dos seus educandos. Em relação a esta, apenas uma encarregada de educação a colocou em causa, explicando ao director de turma o seu ponto de vista, e afirmando que iria pedir reapreciação da avaliação do aluno. Perante tal facto, o director de turma conduziu a encarregada de educação à secretaria da escola, dando-lhe informações sobre os procedimentos a efectuar, e colocando-se à disposição para ajudá-la no que considerasse necessário.
Durante o dia em que se efectuou a reunião, a mãe da nossa aluna telefonou para o telemóvel do director de turma, pedindo-lhe para falar com ele sobre a avaliação da aluna. Como era comum no director de turma, colocou-se à disposição da encarregada de educação, recebendo-a na escola pouco tempo após o contacto telefónico.
Nesse encontro, o director de turma explicou à encarregada de educação que o caso da sua filha foi um dos mais discutidos na reunião, mas que, perante o facto de apresentar três níveis inferiores a três, acumulando Língua Portuguesa e Matemática, níveis estes inequívocos (incluindo o de Língua Portuguesa onde, ao contrário do que a mãe da aluna pensava, a aluna não tinha tido qualquer avaliação positiva no segundo período; aliás, teve nível dois como avaliação sumativa em todos os períodos), aliado a um parco empenho, o conselho de turma decidiu pela não aprovação da aluna.
Aceitando bem o facto e as explicações do director de turma, a mãe da aluna perguntou-lhe se haveria alguma coisa mais a fazer, ao que o director de turma indicou os exames de equivalência à frequência como derradeira hipótese de obter aprovação. Informada sobre estes, e mostrando-se interessada, o director de turma conduziu a encarregada de educação à secretaria, onde a ajudou a preencher os impressos referentes aos exames. Em seguida, não havendo mais nada a tratar, a encarregada de educação ausentou-se da escola, agradecendo ao director de turma por tudo o que tinha feito pela sua educanda.
O director de turma, entristecido com a não aprovação da aluna e consequente desalento da sua mãe, pensou que provavelmente esta seria a última vez que iria conversar com a última. Nada mais errado pois, logo no dia seguinte, quando chegou à escola foi chamado ao Conselho Executivo, onde deparou com um pedido de reapreciação da avaliação da aluna.
Visivelmente consternado, não com o pedido efectuado, mas como foi feito, sem qualquer frontalidade ou honorabilidade, sabendo como que uma facada nas costas, o director de turma leu o mesmo documento, o que o revoltou ainda mais. De facto, nesse documento, para além de colocar em causa o profissionalismo da professora da disciplina de Língua Portuguesa, apresentava argumentos contrários à avaliação sumativa da aluna nesta disciplina do género: “a aluna teve testes mais ou menos” e “a aluna esforçou-se no terceiro período”; argumentos estes considerados pelo director de turma, no mínimo, disparatados e falsos, e que demonstravam que da conversa ocorrida com a mãe da aluna o dia anterior, a mesma não tinha ouvido rigorosamente nada do que o director de turma lhe tinha dito.
(Cenas do próximo episódio: a reunião de reapreciação da avaliação sumativa da aluna e... o director de turma e a encarregada de educação da aluna encontram-se...)
Na reunião de avaliação observou-se aquilo que era já esperado: cerca de metade dos alunos ficaram não aprovados (caso único na escola). De todos os casos de não aprovação, somente quatro deram lugar a uma maior discussão, pois eram casos de alunos que, caso tivessem menos um nível inferior a três, conseguiriam aprovação de final de ciclo. A nossa aluna era um desses casos, tal como previra o director de turma. Quando chegou a vez de atribuir as avaliações sumativas às várias disciplinas pelo conselho de turma, verificou-se que, segundo as propostas apresentadas, a aluna ficaria com três níveis inferiores a três, acumulando Língua Portuguesa e Matemática, o que resultava em não aprovação. Tendo em conta o sucedido na reunião com os encarregados de educação ocorrida no final do segundo período (e não só), a professora de Língua Portuguesa apresentou todos os dados referentes à avaliação da aluna na sua disciplina. O director de turma descobriu então que, no que se refere a avaliações escritas (vulgos testes), a aluna não tinha tido nenhuma positiva no segundo período, ao contrário do que tinha referido a sua mãe. Na realidade, nesse tipo de avaliação, tinha tido unicamente uma positiva no primeiro teste do ano lectivo, e todos os restantes tinham sido negativos, e na maior parte deles, inequivocamente negativos. Para além disso, em todos os outros parâmetros da avaliação da aluna, a mesma era insuficiente; e na prova global obteve nível dois. Por outro lado, havia a questão do empenho. Neste aspecto, era opinião geral do conselho de turma que a aluna tinha capacidade para não ter qualquer nível inferior a três, e se o tinha era manifestamente devido à sua gritante falta de empenho. Aprová-la nestes moldes seria premiar a preguiça.
Confiante que tinha sido feita justiça no que concerne à avaliação da aluna, o director de turma ficou completamente confuso no que diz respeito a todos os acontecimentos ocorridos no final do segundo período, princípio do terceiro, com a aluna e a sua encarregada de educação.
Para terminar, a aluna que tinha estado envolvida na quezília ocorrida no terceiro período com a nossa aluna, e sobre quem a mãe da última pediu informações sobre as hipóteses de aprovação, foi aprovada.
(Cenas do próximo episódio: o director de turma recebe a mãe da nossa aluna, após esta saber da não aprovação da última)
Aproximando-se a reunião de avaliação do final do ano lectivo, o director de turma, ciente que grande parte dos alunos da turma iriam ficar não aprovados, ia recolhendo algumas informações em relação a alguns deles, sobretudo aqueles que se encontravam em dúvida no que concerne à aprovação, ou não aprovação. Um dos alunos nesta situação era a nossa aluna. De facto, após ter tido três níveis inferiores a três no segundo período, a mesma necessitava de subir um desses níveis. Tendo em conta que iria ter, com grande grau de certeza, nível dois a duas disciplinas, uma delas matemática (visto que tinha, de alguma forma, desistido nestas duas disciplinas), restava-lhe a outra disciplina, no caso Língua Portuguesa, disciplina cuja avaliação a sua encarregada de educação tinha posto em causa no fim do segundo período.
O director de turma, perante os factos ocorridos, acreditava que a aluna com um pouco mais de esforço conseguiria nível três a essa disciplina, e assim obter a aprovação de final de ciclo. No entanto, o director de turma não tinha conhecimento da avaliação da aluna da disciplina, daí que a sua suposição carecia de fundamentação e de certeza.
Deste modo, num jantar realizado poucos dias antes da reunião de avaliação, com os professores e alunos da turma, jantar organizado pelos últimos, e tendo ficado o director de turma ao pé da nossa aluna, no meio da conversa que decorreu durante o jantar, o director de turma questionou a aluna sobre as suas perspectivas para a sua aprovação no final do ano. A aluna, para espanto e desalento do director de turma, disse ter más perspectivas, pois, para além de não ter conseguido melhorar a avaliação de Língua Portuguesa, tinha piorado numa outra disciplina, podendo assim ter quatro níveis inferiores a três no final do ano. Era uma péssima notícia para o director de turma, pois mesmo que na disciplina em que tinha piorado conseguisse nível três, continuaria com três níveis inferiores a três, tendo cumulativamente Língua Portuguesa e Matemática, o que no fim de ciclo resultaria em não aprovação.
Era com estas preocupações que o director de turma iria receber no dia seguinte a mãe da aluna, para que esta desse o parecer sobre uma possível não aprovação da sua educanda, parecer este necessário visto que a aluna iria ser submetida a avaliação especializada, pois corria risco de retenção repetida em fim de ciclo (caso único na turma).
Quando o director de turma recebeu a encarregada de educação e lhe explicou a razão da sua convocatória, a mãe ficou um pouco surpresa com a hipótese da sua educanda ficar não aprovada (apesar da aluna ter tido cinco níveis inferiores a três no primeiro período, e três no segundo, sempre acumulando Língua Portuguesa e Matemática). Perante a estupefacção da mãe da aluna, o director de turma perguntou-lhe se a última não tinha falado com ela sobre o assunto, ao que a mãe respondeu negativamente. Nesta situação o director de turma ficou perante um dilema complicado: por um lado a aluna tinha-lhe dito que iria ficar não aprovada, e a mãe deveria ser informada da forte hipótese de tal acontecer; por outro lado, sentia que iria trair a confiança da aluna, ao dizer à mãe aquilo que a sua filha lhe tinha dito. Perante tal dilema, o director de turma, sem nunca dizer o que a aluna lhe tinha dito, apresentou-lhe o cenário. Que a sua educanda tinha dois níveis inferiores a três confirmados (a Matemática e outra disciplina), e que estava dependente das avaliações sumativas da disciplina de Língua Portuguesa e outra, não sendo a última determinante, pois mesmo que nesta tivesse nível três, uma avaliação sumativa de nível dois a Língua Portuguesa seria suficiente para a sua não aprovação. O mais preocupante é que havia mais possibilidades de obter nível três à outra disciplina que à de Língua Portuguesa (pois nesta tinha tido nível dois nos dois primeiros períodos, e na outra tinha tido nível três no segundo período, apesar do nível dois no primeiro).
A encarregada de educação não aceitou bem a possibilidade da sua educanda não obter aprovação, dando um parecer pouco favorável a essa hipótese, embora fracamente fundamentada (qualquer coisa como que havia alunos piores que ela na turma... não era por acaso que se temia uma taxa de não aprovações na ordem dos 50%).
Na parte final da reunião com o director de turma, reunião que, apesar de tratar de um assunto melindroso, correu de uma forma muito cordial, a mãe da nossa aluna questionou o director de turma sobre as hipóteses de aprovação da aluna que tinha estado envolvida no conflito acontecido com a sua filha (episódio 4), não fazendo porém alusão ao incidente, referindo a aluna pelo seu nome próprio. Espantado e intrigado com a questão, o director de turma, no entanto, respondeu que estava numa situação similar ao da sua filha, não se sabendo ainda se iria obter aprovação, ou não.
(Cenas do próximo episódio: na reunião de avaliação do final do ano lectivo, o director de turma fica a conhecer e a perceber a avaliação sumativa de Língua Portuguesa)
É um facto que muitos novos professores sentem o mesmo que o Filipe quando entram numa escola. Outros sentem-no ao longo da sua carreira, nunca menosprezando os seus sonhos relativamente a uma escola melhor, que sirva melhor os seus “clientes”, que seja motivo do seu orgulho.
Em relação à não organização dos alunos em turmas a questão é extremamente controversa. Também eu considero que para um ensino individualizado, respeitador do ritmo de aprendizagem de cada aluno (como preconiza a nossa Lei de Bases do Sistema Educativo), a organização em turmas é paradoxal. Não é que não se possa realizar um ensino nesse sentido com a existência de turmas, mas as mesmas tornam-se desnecessárias (veja-se o ensino recorrente). No entanto, o que um ensino individualizado requer, de facto, é a quase extinção do ensino tradicional, onde o professor é um mero transmissor de conhecimentos, sobretudo por via oral. Isto é, “dá” a aula a todos por igual, colocando de parte os ritmos de aprendizagem de cada um. Na realidade, neste momento, é difícil fugir deste ensino tradicional, visto os alunos estarem completamente habituados ao mesmo, tornando-se seres extremamente passivos, não procurando o conhecimento, habituados a ouvir e não a ler ou fazer. Uma forma de verificar este facto é observar os alunos que passam do ensino diurno para o ensino recorrente nocturno. Estes demonstram uma grande dificuldade inicial, pois não sabem ser autónomos, nem responsáveis pelas suas aprendizagens (daí tantos desistirem ao fim de algum tempo). Tendo em conta que é quase impossível, pelo menos individualmente numa escola, um professor colocar de parte o ensino tradicional, tem-se vindo a registar uma grande evolução do mesmo. De facto, muitos professores não se limitam a papaguear conhecimentos, mas sim, através de um discurso interactivo com os alunos, levam-nos a descobrir os mesmos. Desta forma, evita-se que uma grande parte da “plateia” não se disperse, pois qualquer pessoa sabe que não é fácil estar concentrado no discurso de alguém ininterruptamente (por muito bom que seja o orador). Esta abordagem do ensino tradicional demonstra, claramente, melhores resultados nas aprendizagens dos seus alunos que o ensino tradicional primitivo. É um facto que a evolução do ensino tradicional tem um limite. E, com a evolução dos meios de comunicação e novas tecnologias, ele terá que ter um fim, ou a escola corre o risco de perder a razão da sua existência. Então aí, as turmas irão definitivamente acabar (pelo menos no molde actual). Até lá restam-nos algumas escolas que já o fizeram, e que têm obtido excelentes resultados. Assim qualquer professor que queira trabalhar noutros moldes, ou vai para estas escolas, ou arranja um grupo razoável de professores da sua escola, de forma a implementar um projecto diferente.
André Pacheco
Tal como prometido, embora há uns tempos largos, vim aqui desabafar com todos e participar neste espaço importante!
Sou um professor novato, é o meu primeiro ano a dar aulas, neste caso de Educação Musical, acabei a ESE do Porto o ano passado... Poderia falar de n coisas, mas vou partilhar com vocês alguns pensamentos que tive aquando da primeira reunião de conselho de turma!
Há uns tempos perdi a virgindade no que toca a reuniões de conselho de turma! Foram convocadas reuniões para se discutir o projecto curricular de cada turma.
Uma vez mais voltei a verificar o cancro que sofre a escola...
O habitual atraso de meia hora não fugiu à regra, servindo de prelúdio. Começada a reunião onde participavam professores, delegada e sub-delegada da turma, o director de turma começou por caracterizar a turma em termos de hábitos, idades, biografias, situação dos pais, saúde, etc.... Terminado este primeiro ponto, passou-se aos "casos problemáticos da turma", aos alunos que revelavam falta de atenção, maus resultados, mau comportamento, etc., e foi aqui onde começaram a percorrer-me alguns arrepios pela espinha. A princípio falou-se de um caso grave, um aluno que tinha princípios de hiperactividade, desorganizado, desconcentrado, que todos os professores se queixavam, frisando, por outro lado, ser muito inteligente... como para música vai só metade da turma, ainda não conheço o rapaz, e quando me pediram a opinião disse que infelizmente ainda não conhecia o famoso rapaz, ao que ripostaram, depois de alguma risota, "disseste infelizmente? ah ah ah ah... depois de o conheceres já não vais dizer o mesmo...". Não percebi bem porque se riram e porque disseram tal frase, porque é minha intenção tomar contacto com este rapaz e ajudá-lo. De seguida voltaram a falar de outros alunos que não se concentravam e que não acompanhavam a turma, que distraíam os outros. A professora de Inglês dizia muito séria: "eles tiveram todos negativa no teste, o nível nem é baixo, é muito baixo, têm de resolver os problemas deles". Na minha inocência de caloiro disse: "problemas deles que são nossos, mais, são mais nossos do que deles"... O verdadeiro momento chegou um pouco antes de os alunos se retirarem da reunião. Apercebendo-me disso, quis fazer um comentário louvando esta turma por ainda não estar completamente metalizada, robótica. Chamei a atenção para não deixarmos morrer o pouco de humanos que ainda possuem, e por ainda conseguirem apreciar a beleza de uma música, assim como a beleza de um quadro ou uma frase; de todas as minhas turmas é, com certeza, a que dá mais valor à experiência por ainda porem algum sentimento nela, embora o humanismo, a sensibilidade, seja tão reduzida... Após a minha intervenção os professores riram-se e concordaram comigo, dizendo, no entanto, que daqui a um ano isso já me passou...
Chegou a próxima reunião, desta vez do 8ºA e, nesta sim, queria intervir mais por ser já uma turma de alma metálica, porque quando os vejo a entrar pela sala de aula vejo ao mesmo tempos 10 alunos que são também 10 bigmac´s... todos iguais, produzidos de igual forma, com o mesmo fim... a especificidade de cada um e a procura pelo belo, assim como a sensibilidade, foram rudemente mortas pela nossa escola, da qual eu faço agora parte, "tantos e todos sendo" – Fernando Pessoa... O esquema da reunião foi sensivelmente o mesmo, mas nesta turma havia um caso mais grave, uma aluna que chegou este ano de França para estudar em Portugal e que, portanto, não percebia nada de português e na maioria das aulas estava ausente psicologicamente... Cada professor opinava sobre o caso e falava da sua disciplina, que a avaliação tinha de ser diferente, outros discordavam; outros que devia recuar um ano, outros não; outros que não podia perder tempo com uma aluna porque tinha outros para ensinar na turma, outros não; etc... Timidamente, eu, um caloiro no meio de tantos professores com anos de experiência, disse: "realmente temos um problema grave para resolver, mas pensem comigo, a razão de estarmos a discutir isto, em que afinal a grande prejudicada é a aluna, é simplesmente porque a temos de encaixar numa turma governada por um programa idêntico para vinte alunos que efectivamente são diferentes entre si... a solução era acabar com as turmas para podermos pensar em cada aluno e não num aluno comparando-o a 19...." .O silêncio que durou um segundo foi para mim de horas e, rapidamente apercebendo-me de algum mal estar disse: "foi uma ideia que me passou pela cabeça..." ........a directora continuou com os restantes pontos...!
Foi assim a minha estreia nas reuniões dos conselhos de turma, ainda me aguardam mais duas reuniões que pretendo sem duvida tocar no ponto humanístico, sensibilidade, que toquei nas duas outras reuniões, tendo algum feedback ou não... Houve realmente coisas que me deixam preocupado em relação ao futuro, os professores tocam nas feridas mais profundas na escola sem se aperceberem, nas razões que exigem a emergência de outro rosto da escola procuram soluções paradoxas... preocupo-me principalmente quando me dizem "daqui a um ano, essas ideias passam-te!"...
Espero poder estar presente daqui a um ano para poder refutar com alegria essa afirmação.
Com amizade,
Filipe
No último período aconteceu única e exclusivamente uma situação problemática com a nossa aluna, sendo, porém, a mais grave de todo o ano lectivo. Quando faltava cerca de um mês para o fim do ano lectivo, outra aluna da turma foi ter com o director de turma com ar grave, dizendo-lhe que precisava muito de falar com ele. De facto, uma das suas colegas da turma andava ultimamente muito triste, tendo já chorado mais do que uma vez na escola, não demonstrando vontade de ir para a mesma todos os dias. O que se passava é que depois de um pequeno mal entendido numa visita de estudo recente, alguns elementos da turma, e outros da escola, chamavam-lhe algo que ela não gostava, bastante ofensivo, criticando-a constantemente; uma verdadeira tortura psicológica. O ponto mais alto desta tortura foi a afixação de um papel na escola, com a sua fotografia cortada em pedaços, com ameaças físicas, para além de vários insultos. Quando a aluna visada encontrou o papel, retirou-o da parede e desapareceu para chorar (a amiga da vítima entregou este mesmo papel ao director de turma neste encontro). Ao questionar a aluna sobre os acontecimentos, o director de turma identificou os alunos envolvidos, convocando-os para esclarecer a história. Para além disso, falou com os professores intervenientes na tal visita de estudo, para compreender melhor o sucedido.
A nossa aluna era a principal responsável por todos estes acontecimentos, pois o mal entendido tinha acontecido com ela, para além de nunca ter apreciado a aluna visada da tortura (admitindo-o publicamente).
Nesse encontro com as alunas envolvidas em todo este conflito, vítima incluída, o director de turma compreendeu que tudo não passou de uma futilidade. Apesar da nossa aluna considerar os acontecimentos dessa visita de estudo graves, enquanto que para as outras não tinham tanta importância, o director de turma, com muito esforço, tentou demonstrar-lhe que tudo não passava de um mal entendido, como muitos que acontecem todos os dias por este mundo fora, e que, independentemente da gravidade do sucedido, o que estavam a fazer à colega era extremamente mais grave e, se tal não terminasse naquele momento, iria agir disciplinarmente sobre os alunos em questão (havendo já material para o fazer). Dessa forma, esclarecido o assunto, e com a promessa que, fosse quem fosse, o próximo a insultar a aluna seria alvo de um processo disciplinar, o assunto ficou encerrado.
De facto, com esta intervenção e outra de um outro professor da turma (interveniente na visita de estudo em causa), o assunto morreu.
(Cenas do próximo episódio: os dias anteriores à reunião de avaliação de terceiro período)