Sentindo, tal como o Miguel, a frustração, o choque, e muitos outros sentimentos destes derivados, após ter assistido a uma discussão num programa televisivo sobre o ensino básico e secundário em Portugal, onde não constava um único representante dos mesmos, senti-me obrigado a escrever sobre o assunto, para sossegar a minha revolta.
Que conste do painel um anterior ministro da educação que demonstra ter conhecimentos sobre a coisa educativa, compreendo. Que se encontre um representante do Fórum para a Liberdade de Educação, compreendo. Que se observe um doutor e mestre em Ciências da Educação, compreendo. Que se encontre a ministra de educação, compreendo, apesar de manifestamente ter um paupérrimo conhecimento sobre a coisa educativa (paupérrimo e tristemente observável, no entanto, não a posso criticar... sentir-me-ia muito desconfortável se tivesse no ministério das finanças, por exemplo). No entanto, pergunto-me o que estariam lá a fazer os outros dois intervenientes. Um deles sabia pouco, mas admitia-o dando as suas opiniões de senso comum de uma forma ponderada, vendo ter alguma capacidade de reflexão. No entanto, ouvir a outra senhora foi francamente confrangedor.
Este constrangimento não deriva da senhora ter opiniões, no que concerne à coisa educativa, diametralmente opostas às minhas. O meu espírito democrático permite-me conviver com diferentes opiniões e com as críticas às minhas. No entanto, quando essas opiniões derivam do desconhecimento e da ignorância relativamente ao objecto em questão, apoiando-se única e exclusivamente no senso comum da pessoa em causa, ao mesmo tempo que esta demonstra uma arrogância e superioridade sobre os demais, como se a sua opinião fosse revestida de uma solidez a toda à prova; aí o sentimento de revolta apodera-se de mim com toda a força. Esta revolta provavelmente não apareceria se aquelas opiniões fossem proferidas num qualquer café, perante outros ignorantes sobre o assunto. Neste caso, o sentimento seria de simples compaixão. Mas, tudo se passou num programa televisivo com uma audiência significativa, e onde, mais grave ainda, a pessoa em causa foi uma das mais interpeladas por quem moderava o programa. Vi outros intervenientes deste programa serem interrompidos pela moderadora quando apresentavam opiniões fundamentadas em dados concretos, enquanto que a outra senhora teve um tempo de antena quase escandaloso. De facto, a moderadora também teve um papel triste, tentando à força passar a ideia que o que é bom é o ensino particular, como se todo este fosse excelente, e todo o ensino público mau. Felizmente falhou nos seus intentos. Mas esquecendo a moderação pobre e parcial do programa, centremo-nos na senhora Fátima.
Esta senhora apareceu graças a um artigo de jornal, utilizando um discurso que está em voga, utilizado por muitos “opineiros” (obrigado Miguel), de que o sistema educativo está mal (como se antigamente fosse fantástico), e que a culpa é dos “especialistas” e “dessas pedagogias”. O próprio ex-ministro da educação, o muito amado David, utilizou este tipo de discurso, porque, infelizmente, é uma forma fácil de ganhar adeptos, até entre os próprios professores!?! Na altura, li o artigo e tentei esquecê-lo, pois como me explicou alguém que me é muito querido, se fôssemos responder a todos os artigos do género não faríamos mais nada na vida. No entanto, esta senhora ganhou, de uma forma incompreensível, o “direito” de aparecer em debates sobre educação (num dos dias seguintes tive que gramá-la na SIC Notícias... pobre país!). Mas colocando de lado este facto, centremo-nos no seu discurso. Entre as coisas que retive na discussão, algumas são realmente chocantes. Ela disse que coisas como aprender a aprender, competências, desenvolvimento do sentido crítico, etc., eram más para o sistema educativo. Ela própria afirmou que não compreendia o que era isso de aprender a aprender. E este é que é o grande problema: ELA NÃO SABE. E se não sabe, ou aprenderia para poder falar sobre o assunto (mas para tal terá de saber aprender), ou admitiria a sua ignorância e manter-se-ía calada. Mas esquecendo esta afirmação (que continha outros itens do género que ela considerava maléficos para a escola) que, só por si, deveria ser suficiente para a expulsar do programa, continuemos, para chegarmos à parte mais triste do discurso.
Essa parte é aquela em que critica os “especialistas” e as “pedagogias”, defendendo o esforço, o rigor, o ritmo, etc., todos aqueles chavões sempre presentes neste tipo de discurso (talvez a do ritmo seja a novidade). Tenho que admitir que a pedagogia é um tema ao qual dedico quase exclusivamente as minhas leituras e, acreditem ou não, ainda não cheguei à parte das pedagogias em que se defende que não deve haver esforço, rigor... e até ritmo. Em relação ao último, já li muita coisa sobre a importância do ritmo de aprendizagem de cada um, que deveria ser respeitado (conforme está na lei), o que, no entanto, só acontece em casos pontuais (mas penso que não era isto a que ela se referia quando falava em ritmo, penso que esta visão de ritmo ser-lhe-á incompreensível).
Em relação aos “especialistas” e às “pedagogias” adoraria perguntar-lhe: que pedagogias? Estou farto de ouvir professores criticarem essas “pedagogias”, mas se alguém lhes perguntar quais, não sabem responder. E, por outro lado, se, na escola, num considerável número de casos, os professores ainda trabalham como há 30, 50, 100 anos atrás, como poderão essas “pedagogias” ser a razão da nossa desgraça. Sendo essa senhora professora do superior, já lhe imagino as aulas: uma espécie de conferência onde as questões por parte da audiência devem ser escassas (pois que quebra a linha de raciocínio!). É verdade, eu fui aluno do superior, poucos professores tive. Tinha lá era uns indivíduos que “davam” aulas. No início dos semestres distinguia os professores dos outros (dos dadores de aulas), bastando duas ou três aulas para o efeito, e depois, ia às aulas dos professores, e estudava as cadeiras dos outros, sozinho ou com os meus colegas (sorte a minha que tinha aprendido a aprender). E o melhor é nem falar em avaliação, porque o grosso dos docentes do superior confunde avaliação com exame. No seu já célebre artigo a senhora até escreveu: «Há 25 anos que observo, de ano para ano, a degradação da qualidade dos estudantes, e há 25 anos que vão sendo piores as notas que me vejo obrigada a dar, apesar de a minha complacência e tolerância terem aumentado com a idade e a sensata tendência para a acomodação que ela gera.» “Facilitismo” diriam alguns...
Bom, deixa-me lá pensar em qualquer coisa de positivo... Olha, gostei de ouvir os alunos convidados que, muito sobriamente, conseguiram desbaratar algumas crenças da Sra. Jornalista.
Afixado por: Miguel Pinto em setembro 24, 2004 11:15 PMAs ciências da educação para mim são um divagar sobre o vazio num noite à beira mar. Entendo que neste momento se valoriza o processo de aprender a aprender, mas muito vezes me interrogo o que é isso? É propiciar uma organização do estudo, é extrair as ideias fundamentais de um texto, é ...? Primeiro é preciso saber ler, depois compreender e produzir - literacia.
Como se pode ver na história recente das CE muitos são os modelos que foram surgindo pelos menos em educação em ciência (do inquérito às concepçoes alternativas) mas pela análise destes modelos a conclusão a que cheguei é simples é preciso saber ciência. Por vezes ao enfeitar, ao tornar apelativo ao aluno com metodologia e mais metodologia perde-se o cerne da questão. Para o aluno ficou apenas as flores.
Pelo que se consta no texto, muito pouco se percebe do ser humano, do estímulo às suas capacidades, afinições e talentos.
Educação, economia, ciência, política, nada disso tem motivo de existir senão para o desenvolvimento do ser humano, caso o objetivo seja desviado, qualquer destes substantivos tornam-se autofágicos !!!!
Dentre as opniões dadas neste site, fico do lado do Pink Floyd
We don't need no education
We dont need no THOUGHT CONTROL
No dark sarcasm in the classroom
Teachers leave them kids alone
Hey! Teachers! Leave them kids alone!
All in all it's just another brick in the wall.
All in all you're just another brick in the wall.
Nem mesmo o programa teórico mais iluminado resiste 5 minutos a escolas impreparadas e má vontade de professores e alunos (já para não falar da do próprio ministério). Desconfio sempre de teorias que são construidas sem conhecimento da vida real, é fácil a universitários que nunca ensinaram no secundário construir teorias maravilhosas, mas provávelmente demasiado dependentes do wishfull thinking.
Afixado por: Mário em janeiro 26, 2005 12:42 PM