julho 06, 2004

“Inventem-se novos pais”

Estava eu a preparar um texto de continuação da reflexão sobre avaliação quando, na leitura de O Público, me surgiu isto. Não me espanta tal notícia, nem me irá espantar quando esta forma de caça às bruxas chegar a Portugal. Socialmente já chegou, bastará para tal verificar nas diferentes reacções que poderão acontecer em duas situações distintas. Perante um comportamento errado e ignóbil de uma criança num local público, cria mais olhares reprovadores uma palmada de forma a corrigir o dito comportamento, que o comportamento de “bananas”, por parte dos pais, cedendo à chantagem que tal comportamento por norma significa. Não importará que a médio/longo prazo, a criança cujo comportamento foi corrigido seja um jovem/adulto equilibrado, consciente do “eu” e do “não eu”, com um apurado sentido de justiça; e que o segundo seja um imbecil com o único conhecimento da existência de ele próprio, frustrado, infeliz, para quem a justiça consiste na sua vontade (uma curta viagem numa qualquer escola dará para verificar todos estes factos).
Não defendo que se bata nas crianças, desde que tal signifique espancar, de uma forma selvagem, resultado de uma explosão pessoal (muito comum naqueles pais que evitam castigar as crianças porque são “pequeninas”, transformando-as em pequenos “monstros”, sendo verdadeiramente insuportáveis numa idade em que os seus comportamentos estão totalmente desajustados). Caso fosse possível, seria excelente nunca bater/castigar os filhos, pois não acredito que alguém minimamente equilibrado tenha prazer em tal facto. Verifico que a totalidade dos casais com quem privo, que defendem nunca bater nos filhos, sentem-se algo frustrados e sentem estar a falhar, pois o que não foi feito já não o poderá ser agora. A maioria deles via nos “castigos” a melhor forma de corrigir um comportamento errado. No entanto, fizeram a triste descoberta que tal estratégia não funciona em todas as situações.
É natural que todas as crianças errem. Estão em crescimento e numa aprendizagem constante de como viver em sociedade. Não haverá uma que tenha um comportamento exemplar de raiz. O mais saudável é que façam asneiras (algumas conscientes, outras não), mas o que mais me choca não é que o façam (tenho dois filhos, e não são nenhuns totós, quando podem fazem as suas travessuras). O que mais me choca é ver um pai ou uma mãe dizer para o filho(a) fazer, ou não fazer, algo, e o garoto(a) realizar exactamente o contrário, com um sorriso nos lábios, misto de conquista e afronta, e a reacção dos pais ser um: “Ai! Este miúdo(a) é impossível, não sei o que hei-de fazer. Estou mortinho(a) que ele(a) vá para o infantário para aprender a obedecer”. Nestes momentos, a minha vontade não é dar um açoite na criança, mas sim espancar os pais. Não por serem uns “bananas”, mas sim por estarem a criar um futuro adulto desequilibrado emocionalmente, incapaz de lidar com qualquer frustração, irresponsável... numa só palavra: infeliz.
Quando me apercebo destes movimentos de caça às bruxas, que comparam a violência atroz a um simples açoite no momento certo, revolto-me, não pelos responsáveis de tais movimentos, mas pelo efeito nefasto que tem sobre as crianças, pais e respectivos ambientes familiares. Quando ouço estas teorias, peço simplesmente para conhecer os filhos dos seus representantes. É o suficiente para terminar a discussão.
Quem conhece um pouco sobre as teorias libertárias da educação, sabe que as únicas que tiveram sucesso foram aquelas em que a liberdade da criança era por esta conquistada diariamente, e não era um dado adquirido. Neste último caso, as experiências resultaram em relativo fracasso. Não esperem que uma criança nasça educada, ou que se auto-eduque. Tal como a firmeza não é suficiente para educar uma criança, o amor, por si só, igualmente se mostra insuficiente. E nos casos de manifesta má educação, por muito que o amor lá esteja, os actos não o demonstram (dado que a criança não conhece limites, os pais acabam por considerá-la insuportável, criticando-a constantemente), e isso para uma criança deixa marcas profundas e dolorosas. A própria falta da firmeza tem o mesmo resultado: um sentimento de desamor.
Sendo este um tema extremamente controverso, por ventura o mais dos aqui já tratados, e não havendo “receitas” de uma boa educação, há, pelos menos, traves mestras para uma educação equilibrada. E uma delas é exactamente isso: o equilíbrio, o caminho do meio. Nem o radicalismo dos anti-açoite, nem o radicalismo dos pró-“porrada pr’á frente”.

P.S.: o título deste texto não é da minha autoria mas, face à genialidade do mesmo, resolvi utilizá-lo como homenagem.

Espero reacções,
André Pacheco

Publicado por asampacheco em julho 6, 2004 04:43 PM
Comentários

É só para saudar o regresso. ;)

Afixado por: Miguel Pinto em julho 6, 2004 09:45 PM

Não posso agora comentar o seu post mas gostaria de o fazer em breve. Também li o artigo do Público. Tenho muitas reservas à sua expressão de abertura, quando se refere ao comportamento "errado e ignóbil de uma criança"... Não estará a utilizar uma escala de valores despropositada quando fala de ignomínia? Admito que tenha sido uma deriva semântica, mas em primeira mão são as palavras que nós lemos. Voltarei para comentar com mais detalhe o seu texto. Cumprimentos cordiais.

Afixado por: José Gustavo em julho 7, 2004 09:51 PM

Excelente artigo!

Afixado por: Alex do blog em julho 9, 2004 04:30 PM

Só há uma forma de subdesenvolvimento, que é o subdesenvolvimento educativo.
Já diz o Prof. Nuno Grande, numa excelente entrevista que fez há uns anos para a Página da Educação, SPN e que eu reproduzo no meu blog BIOTERRA http://bioterra.blogspot.com Como professor, com mais de 13 anos de serviço, não posso deixar passar em claro o meu dasabafo acerca do estrago de Educação no nosso país, provocado especialmente pelo último Ministro da Educação. Em solidariedade apelo a todos os portugueses que coloquem a meia haste a Bandeira que tanto foi apanágio do Euro 2004. O País com estas injustiças fica definita e irremediavelmente POBRE.
Joao Soares, Porto

Afixado por: João Soares em julho 15, 2004 04:42 PM