março 26, 2004

Ainda a avaliação

Tendo em conta os pressupostos do texto anterior, ao qual não houve reacções (pelo menos visíveis), penso ser importante reflectir sobre os entraves às mudanças. Não é que estas não estejam a acontecer. É verificável que hoje em dia existe um maior número de professores cientes da importância da avaliação, e do seu papel de motor do processo de aprendizagem do aluno. De acordo com este facto, cada vez são mais os professores que procuram melhorar a forma como a avaliação dos seus alunos é efectuada. Sabendo da fragilidade da avaliação mais usual (os célebres dois testes por período e respectiva média aritmética), e dos vícios horríveis que esta mesma forma de avaliar incute nos alunos, muitos professores procuram gradualmente melhorar a sua performance no que diz respeito à sua capacidade de efectuar uma avaliação rigorosa (expressão tão em voga).
A pseudo-segurança que uma classificação numérica atribuída a um teste transmite a um professor, tem vindo a fazer com que a forma mais usual de avaliação continue a ser a mais realizada. Tendo em conta que a avaliação sumativa consiste, usualmente, num valor numérico, o facto da avaliação formativa consistir em provas cuja informação se resume a um simples número, dá ao professor uma ideia errada de segurança e de rigor na avaliação. Isto porque um 50% tanto poderá dizer respeito à avaliação de um aluno que demonstrou ter atingido todos os objectivos, mas não de uma forma sólida, como poderá dizer respeito a um aluno que não atingiu nenhum objectivo, mas que ganhou uns pontinhos aqui e ali até perfazer os 50%. Já para não referir os casos de fraude (que, inexplicavelmente, nem sempre são objecto de uma reprovação moral nas escolas – ouvi, uma vez, numa reunião de avaliação, tal facto ser considerado positivo), e os casos dos alunos que simplesmente memorizam para esquecer. Em relação aos alunos, a avaliação feita única e exclusivamente nestes moldes ainda é mais gravosa. Para o aluno o objectivo não é aprender, mas sim obter os pontinhos necessários para conseguir a “positiva”, seja por que meio for. Ou seja, o importante não é o dia-a-dia das aulas, onde os alunos estão para apreender novos conhecimentos, mas sim aquelas 6 aulas do ano lectivo onde a sua nota é decidida.
O mais grave é que, supostamente, a avaliação é formativa. No entanto, se a avaliação se resume aos dois testes por período, de que forma se pode falar em avaliação formativa. De facto, esta pressupõe que a avaliação seja um orientador da aprendizagem, de modo a que o aluno possa verificar o que sabe e o que não sabe, com o intuito de assimilar aquilo que não sabe. Mas se o aluno não volta a avaliar aquilo que não sabia, ele não tem qualquer interesse em voltar a rever o que não sabia. Este último facto provoca, em algumas disciplinas (de que é exemplo a Matemática e as Línguas estrangeiras, disciplinas de carácter cumulativo), um resultado desastroso. Aqueles conhecimentos que não são apreendidos irão fazer mossa nos seguintes anos lectivos, sendo o resultado habitual a negativa nesses mesmos anos lectivos. Caso o professor avalie nos testes as matérias já avaliadas por outros anteriores, estará a dar um maior peso às primeiras matérias na avaliação, visto terem sido mais avaliadas e consequentemente, mais pontuadas.
No entanto, muitos professores tentam, e bem, conciliar a avaliação tradicional com a avaliação formativa. De que forma? Construindo testes realmente capazes de determinar o que o aluno sabe e não sabe, registando tal facto (de facto, muitos dos testes que se vêem nas escolas pouco ou nada têm a ver com os objectivos da disciplina, estando mais de acordo com os manuais do que com os programas, para além de terem questões que são péssimas para uma ficha de avaliação. Destas são exemplo, na Matemática, as perguntas de respostas encadeadas, em que, caso o aluno não consiga fazer uma questão, já não poderá fazer as seguintes pois dependem da que não realizaram. Deste modo, quando as questões avaliam objectivos diferentes, o aluno não poderá mostrar que atingiu alguns destes, pois fica sem dados para o fazer. Por muito interessantes que estes tipos de questões sejam, devendo ser usadas em aula, em fichas de avaliação tornam-se desastrosas. Mas, sendo interessantes, são, infelizmente, muito usadas em avaliação). Deste modo, o professor poderá informar o aluno dos objectivos já obtidos, e ajudá-lo a adquirir os ainda não obtidos, podendo até voltar a avaliá-lo nestes. Assim, o aluno efectua melhores aprendizagens, e o professor tem ao seu dispor mais do que simples números; tem também o conhecimento sobre as aprendizagens efectuadas pelo aluno, podendo avaliá-lo de forma mais rigorosa.
Desta forma, o professor não corta completamente com o usual, e efectua uma melhor avaliação. O ideal seria cortar completamente com o tradicional, mas tal mostra-se extremamente complicado. De um lado estão os vícios dos alunos ligados aos testes, estranhando quando os tais não são efectuados; e, por outro, está a desconfiança de muitos colegas em relação a tudo o que sai da “normalidade”. Mas a reflexão sobre este facto ficará para um texto posterior.

André Pacheco


Publicado por asampacheco em março 26, 2004 11:54 PM
Comentários

Acho inconcebível o que o colega diz relati-
vamente à forma como (não)foi feita a abordagem da avaliação na sua faculdade e no estágio,porque
sendo a avaliação componente integrante da ges-
tão e desenvolvimento curricular e uma das suas mais importantes componentes,não compreendo como se pode fazer a dita gestão sem dominar um dos
seus instrumentos mais importantes.
Mais,este dado junto a outros que ao longo dos anos venho recolhendo,confirma-me que o des-
calabro do ensino em Portugal só será estancado
quando a formação inicial e contínua de profes-
sores levar uma " volta de 180º ".O que me diz
sobre parte da sua formação é escandaloso!!!Só
pergunto como se atreve gente irresponsável a esse ponto,a criticar os professores do básico?!
Haja vergonha!!!

Afixado por: José Pedro Pais em março 29, 2004 07:36 PM