março 11, 2004

Mais do mesmo

Quero, inicialmente, pedir desculpa a A. Lima por colocar neste local o seu texto, publicado em O Público, mas face a uma tão formidável síntese do estado da educação em Portugal, não consegui evitar de o fazer.
Em relação ao texto, sinto a necessidade de realizar alguns comentários. O primeiro refere-se a uma verdade facilmente verificável nos nossos dias: a permanente culpabilização das Ciências de Educação, essas forças ocultas e tenebrosas, pelo estado da educação no nosso país. É um lugar comum entre aqueles que falam sobre Educação utilizando exclusivamente o senso comum, não tendo qualquer conhecimento no ramo nem, muitas vezes, a mínima experiência no que toca ao ensino não superior, culpabilizar as Ciências da Educação e as pedagogias “modernas” pelo estado do ensino. Gostaria de ouvir esses indivíduos dissertarem sobre medicina, ou sobre direito, ou qualquer outro ramo. Mas não, do que eles sabem é de futebol e educação. Aqui não faltam treinadores de bancada. E tal como os treinadores de bancada do futebol, estes também têm a lata de menosprezar os conhecimentos de profissionais que dedicam grande parte da sua vida ao estudo do fenómeno educativo. Infelizmente, as repercussões deste acto são nefastas para a educação. Funciona como uma espécie de cancro que se vai alastrando a toda a população (que, por exemplo, rejubila com a ideia da existência de exames, sem, no entanto, alguma vez ter reflectido sobre a eficácia dos mesmos), chegando ao governo e, pior, às escolas. É comum ouvir nestas as maldades que “essas” pedagogias fizeram à escola. No entanto, se alguém pedir a esses professores algo de concreto que “essas” pedagogias tenham feito à escola e como, a resposta é um silêncio ensurdecedor. Mais concretamente, sendo usualmente esses professores aqueles que hoje trabalham da mesma forma que os professores o faziam há dois, três ou quatro séculos atrás (ou mais), como é que podem afirmar que foram essas "novas" pedagogias que trouxeram o caos. Tendo tudo evoluído e eles não, de que estavam à espera? Afinal quem trouxe o caos? A presença das Ciências da Educação na escola ou a sua ausência? Se olharmos hoje em dia para as diversas profissões e para a de professor, quais as que realmente e vertiginosamente evoluíram? Alguém imagina um médico de há cem anos atrás a exercer hoje em dia? Como é que se pode afirmar que as Ciências de Educação exerceram tantas mudanças na escola tradicional quando esta pouco evoluiu em termos organização de espaços nos últimos, por exemplo, cem anos?
Peço simplesmente duas coisas. Se estou errado mostrem-me tal facto, argumentando; caso contrário juntemo-nos na luta contra este cancro, através de simples gestos: questionar quem profere tais disparates, pois pode ser que assim reflictam um pouco sobre o assunto, destruindo os seus preconceitos; fazer o que fez A. Lima, entre outros, escrevendo para os meios de comunicação social, dando a possibilidade às pessoas de contactarem com uma visão diferente da repetida até à exaustão; etc..


André Pacheco

Publicado por asampacheco em março 11, 2004 08:21 PM
Comentários

A construção de uma escola democrática e crítica requer o envolvimento de todos. Este projecto colectivo adquiriu maior relevância social com as incursões neoliberais e neoconservadoras. Há quem diga que falamos em circuito fechado e que nos perdemos em conversas de pares. A tua sugestão faz sentido e acrescento algo mais através das palavras de Aplle: "(...) Para construir alianças contra-hegemónicas teremos de pensar mais criativamente que antes".

Afixado por: Miguel Pinto em março 12, 2004 05:09 PM


A ferocidade dos ataques ao,dito,"pedagogês" é
exactamente o receio de que "essa malta" que de-
fende um novo paradigma de escola,diferente da-
quela que proporciona a "boa"EDUCAÇÃO BANCÁRIA,
de que fala Paulo Freeire,Que "essa malta"-dizia
eu- acorde se deixe de quezilias de pormenor e
entenda de uma vez por todas que tem de traba-
lhar colectivamente para conseguir levar por di-
ante o projecto de educação que pode combater o
insucesso e salvar a ameaçada escola pública.
O receio torna-"OS" "ferozes"...Mas infeliz-
mente,para as crianças e jovens portugueses,eles,com os seus receios infundados, sobrevalorizam os nossos níveis de conscientização e capacidade de colectivamente assumir esse projecto de mudança da nossa escola pública!

Afixado por: josepedropais em março 13, 2004 03:17 PM

Caro colega estou consigo, acredito que as ciencias da educação são uma mais valia para a Escola e estão contribuindo para a sua mudança, até porque deve-se a elas a evolução positiva dos alunos e da própria Escola como instituição. Infelizmente até os homens das ciencias da educação quando chegam aos cargos de decisão muitas vezes esquecem-se de continuar um percurso que está dando frutos na Escola. Sim, porque acredito que ela está evoluindo, os professores também, pena é que as políticas de educação esteja travando, quiçá contribuindo para uma certa regressão..

Um abraço

Afixado por: Miguel Sousa em março 15, 2004 04:54 PM