março 11, 2004

Chega de Bodes Expiatórios

Em articulação com o regresso do PSD-PP à governação do ensino português, tem sido desenvolvida uma intensa campanha (aliás, bastante acarinhada pelo PÚBLICO) em que se pretende responsabilizar as Ciências da Educação e, simultaneamente, a esquerda (numa abusiva sobreposição) pelos males da educação nacional, usando para isso uma "argumentação" propagandística baseada em meia dúzia de banalidades de senso comum transformadas em grandes novidades reformistas.

Fundamentados nessa moda, os actuais dirigentes do Ministério da Educação (ME) pretendem apresentar-se como arautos do neoliberalismo educacional, no que merecem a bênção de alguns académicos que até dão umas aulas e de outros tantos directores de jornais cuja sabedoria é enciclopédica. Em conjunto, ei-los a sacralizarem o papel das avaliações (dos professores, das escolas e dos alunos), a defenderem o regresso às soluções do passado ("back to basic") e a subordinarem todo o processo educativo aos ditames da componente administrativa.

A (in)acção da governação da 5 de Outubro não mereceria sequer comentário, tão vazia, risível e desorientada se tem revelado, não fora o facto de estar a fazer muito mal ao futuro das gerações mais jovens sob o diáfano manto de um "marketing" voluntarista e mentiroso.

Senão, vejamos. Em trinta anos de democracia a direcção da Educação pertenceu quase sempre ao PSD, exceptuando os períodos entre 1974/1976 e 1996/2001. Ou seja, o PSD dirigiu a educação durante 22 anos e o PS, com algumas personalidades de diversas áreas à esquerda, governou apenas 8 anos. Não deveria, portanto, o PSD ser mais rigoroso e comedido quando sistematicamente recorre à culpabilização da esquerda pelos males do ensino em Portugal?

Quanto às "culpas" das Ciências da Educação, seria bom ter presente que não houve um único ministro da Educação com formação (inicial ou pós-graduada) em Ciências da Educação. Mesmo no conjunto de todos os secretários de Estado e quadros superiores que passaram pela 5 de Outubro durante os últimos trinta anos, contam-se pelos dedos de uma mão aqueles com alguma ligação à área das Ciências da Educação.

É certo que alguns destes (p. ex. Bártolo Paiva Campos, Ana Benavente, Pedro da Cunha, Manuel Patrício) realizaram efectivamente obra educacional mas que, infelizmente, acabou quase sempre por ser bloqueada ou totalmente desvirtuada pelos muitos engenheiros, advogados, gestores e outros académicos que têm preponderado na condução da educação portuguesa.

É bom que lembremos estes factos porque parece haver quem acredite que as mentiras, de tão repetidas, se tornam verdade.

Finalmente, importaria também começar a tirar algumas lições sobre o caldo de banalidades servido pelo mais inculto populismo que parece constituir o único suporte ideológico do actual governo da educação.

Alguns traços são já evidentes ao fim de mais de dois anos. Um discurso demagógico e tendencialmente simpático,mas conducente a uma total paralisia de acção. As poucas medidas adoptadas não têm qualquer coerência e, no geral, nem sequer são aplicadas (nem aplicáveis) ao quotidiano das escolas. A administração educativa hegemoniza toda a actuação do ME exacerbando a lógica burocrática, pesada e centralista. Há um consequente agravamento de todos os problemas estruturais da educação (insucesso escolar, incapacidade de melhorar o funcionamento das escolas, instabilidade do corpo docente, etc.), a que rapidamente se acrescentaram outros (conflitualidade crescente com os pais e com os professores, bloqueamento dos serviços de ME,desarticulação dos currículos, desregulação da educação especial e das colocações dos professores, etc.).

A precipitação para soluções do passado (do género de exames no quarto e sexto anos) não resolve nenhum dos problemas actuais, antes vem agravar os existentes. As soluções para a educação requerem conhecimento, teórico e prático, específico desta área, muito trabalho euma forte aposta em estratégias de negociação capazes de conduzir à definição de diversificados e estáveis consensos para reformar o ensino.

E isso já não é possível ao actual Governo.

A. Lima

Publicado por asampacheco em março 11, 2004 07:47 PM
Comentários

Mais um excelente artigo seu, que mereço os meus aplausos, e acredito, que de muito colegas, contudo devo-lhe dizer que aqui na Região Autonoma dos Açores a coisa parece ser mais grave, temos um Engenheiro da Zootecnia ou da área agraria....bom, resultado é um independente colocado pelo PS, que nos trata (professores e a educação em geral)...como se fossemos uma pastagem

Afixado por: Miguel Sousa em março 15, 2004 05:01 PM