fevereiro 19, 2004

Ainda a cooperação

Ainda em relação à cooperação, sinto ser necessário clarificar a minha opinião sobre o assunto, tendo em conta os comentários ao meu texto. Em relação aos últimos, concordo plenamente com o Miguel Pinto e com o Miguel Sousa (este último consegue exprimir perfeitamente o meu sentimento sobre o assunto), mas não posso discordar com o José Pedro Pais, sobretudo quando ele foca a cooperação no sentido de operar mudanças no funcionamento da escola.
No entanto, apesar de partilhar do optimismo dos Miguéis, não posso deixar de admitir que, em algumas escolas, essa cooperação (seja a que nível for) é praticamente impossível de existir. Tiro esta conclusão partindo da minha experiência pessoal, em que, apesar da enorme relevância que dou ao factor cooperação, procurando-a sempre, por vezes tal se mostrou perfeitamente inacessível.
Pensando na cooperação como factor de transformação do modo de funcionamento da escola, o caso torna-se mais complicado e mais preocupante. Ouço, com alguma frequência, um coro de lamúrias dos professores em relação à escola. No entanto, existe alguma inconsistência nas mesmas. De facto, muitos desses professores questionam tudo excepto as suas práticas, sendo estas uma espécie de dogma. Deste modo, quando qualquer tipo de modificação tenta ser inserida na escola, através de qualquer reforma criada pelo poder político, verifica-se nesses professores grande renitência em relações às mudanças que se pretendem operar, optando, por vezes com orgulho, por continuar a fazer, tal e qual, o que antes faziam. Deste modo, podemos afirmar que nenhuma das últimas reformas realmente existiu (exceptuando o nível curricular e organizacional), pois as práticas de grande parte dos professores perpetuam-se, resistindo às reformas, às mutações sociais e à própria, teórica, evolução profissional. No entanto, apesar de na prática não terem existido, quando se pergunta quais as causas dos problemas do nosso sistema de ensino, as reformas são por eles apontadas.
Não quero com isto insinuar que os novos professores são magníficos e os mais velhos um bando de acomodados. Verificam-se alguns jovens professores que começam a trabalhar automaticamente com o espírito de quem está farto do que faz, e alguns professores mais velhos que evoluíram ao longo dos tempos, tendo modificado as suas práticas, aperfeiçoando-as, e é com estes que os mais novos podem e devem aprender (pois é lícito afirmar que são experientes), não com aqueles que recebem os novos professores como se fossem uns coitadinhos por terem escolhido esta profissão.
A diferença, a este nível, entre os diversos professores não reside, de facto, na idade ou nos anos de experiência. Encontra-se na capacidade de reflexão sobre as suas práticas, na capacidade de colocar em causa tudo aquilo que fazem, com o propósito de o melhorar, de operar mutações nas suas práticas ano após ano, sejam elas profundas ou aparentemente insignificantes. Quando um professor possui esta capacidade, pode aprender com aquilo que os outros fazem, não colocando automaticamente de parte tudo aquilo que é diferente da sua forma de actuar.
Penso que sobre este assunto haverá muito mais a acrescentar, pacientemente espero algum eco.


André Pacheco

Publicado por asampacheco em fevereiro 19, 2004 07:19 PM
Comentários

Concordo com o que dizes André.

Afixado por: Miguel Pinto em fevereiro 19, 2004 08:46 PM