fevereiro 16, 2004

Professores e trabalho cooperativo?

Em resultado do meu último texto, Miguel Pinto colocou uma questão extremamente complicada, senão a mais: o que fazer para que os professores realizem um trabalho cooperativo? Creio não haver resposta, nem respostas.
Avaliando o meu trajecto pelas várias escolas onde trabalhei, verifico em mim uma atitude, a este nível, diferente todos os anos, não num sentido evolutivo, mas sim como reacção ao meio envolvente. Quando senti que fazia parte de algo, que pertencia a um todo em que cada um dos seus membros detinha um papel importante, em que o mérito era reconhecido, realizei muito trabalho cooperativo, seja a nível de grupo disciplinar, seja a nível de conselho de turma, seja ao nível da simples reflexão colectiva sobre a escola. No entanto, quando deparei com escolas em que as partes não constituíam um todo, em que a escola era um mero local onde se “dava” aulas, em que o tempo passado na escola era, para representativa parte dos professores, um sacrifício (onde se ouviam expressões como: “Já vais para a aula? Não ganhas mais por isso!” ou “Finalmente é a última aula”, com um horripilante ar de enfado e dito quase diariamente, etc.), isolei-me (profissionalmente), trabalhando o mais afincadamente possível para os garotos, para que pudesse compensar as lacunas dos restantes professores. Durante o ano lectivo, começava a reparar nessas escolas outros como eu, e quando começava a cooperar com os mesmos o ano lectivo estava no seu término. Nestas escolas, o mais frustrante não é não ter quem connosco cooperar, ou simplesmente discutir educação a um nível superior ao do “os miúdos são todos uns anormais...” ou coisas do género (frases que, com o tempo, começamos a conseguir digerir com um ligeiro sorriso indiferente), mas sim o facto de, caso demonstremos ideias minimamente diferentes daquelas que a escola apresenta, ainda que argumentadas, ou se demonstrarmos vontade de trabalhar, nós é que passamos a ser olhados como anormais, tendo por vezes o direito de ouvir fantásticos comentários como “Vais ganhar uma medalha” ou coisas do género, para além de ter direito a comentários com um pouco mais de escárnio nas nossas costas. É irónico quando é o trabalhador empenhado a ser criticado e o medíocre regra...
Não acredito que estes professores sejam, hoje em dia, maioria. Verifico é que, em muitas escolas, é suposto dar a ideia de que não gostamos de trabalhar, muito menos gostamos do que fazemos, e que só gostamos de não fazer nenhum. Infelizmente muitos encaixam neste perfil e o resultado na imagem dos professores é catastrófico.
Assim, voltando à questão inicial, não tenho resposta, pois cada escola é um caso, e algumas, devido à mudança anual de praticamente todos os docentes, sofrem mutações todos os anos a este nível. Será sobretudo uma questão de evolução da nossa sociedade e, talvez, a injecção de sangue novo nas nossas escolas, onde cada vez mais surgem professores com formação e vontade de o serem.

André Pacheco

Publicado por asampacheco em fevereiro 16, 2004 08:19 PM
Comentários

O problema da cooperação e das práticas colaborativas começa no próprio professor quando ele atira a toalha ao chão. O colega tem razão, não é fácil colaborar quando no nosso horizonte não vemos com quem. Contudo, o primeiro passo é o nosso. Esta é a minha única certeza.

Afixado por: Miguel Pinto em fevereiro 16, 2004 09:40 PM

Colega Pacheco como eu te compreendo...O colega que fez o outro comentário que não esteja tão certo de conseguir coperação só porque a tal está aberto!
Se desejar cooperação para mexer com o "pân-
tano",no sentido da mudança do "ensino",dito tra-dicional,bem pode "esperar sentado",para não se
cansar...

Afixado por: josepedropais em fevereiro 17, 2004 03:24 PM

Sugiro ao colega José Pais um visita ao meu blog. Encontrará nesse espaço muito mais matéria para discordar. Quanto à questão da cooperação, continuo convencido que ninguém cooperará comigo se eu não estiver disponível. Já agora, a colaboração não é positiva em si mesma. Ela adquire um significado diferente quando estamos perante a colaboração artificial.

Afixado por: Miguel Pinto em fevereiro 17, 2004 03:53 PM

A colaboração deve existir...e como dizemos muitas vezes aos nossos alunos...se todas as pessoas que não fazem a sua parte com o argumento de que estão sós e sozinhas não mudam o mundo, fizessem a sua parte...provavelmente o Mundo, neste caso a Escola, já tinha mudado....

um abraço e parabén pelo excelente espaço de reflexão que é o seu blog

Afixado por: miguel sousa em fevereiro 18, 2004 10:11 AM