Já muito se escreveu e discutiu sobre o insucesso na disciplina de Matemática. Muitas razões para o facto já foram apontadas: grande parte da população incute nos seus educandos uma cultura de desvalorização da escola; a qualidade dos professores não é satisfatória; as escolas não têm meios que permitam aos alunos obter aprendizagens satisfatórias; os programas não têm qualidade; etc..
Na verdade, o insucesso não é exclusivo da matemática, unicamente esta tem mais visibilidade. Qualquer professor concordará que o sucesso obtido na generalidade das escolas portuguesas às diversas disciplinas está ainda longe do aceitável. Na origem deste facto estarão, principalmente, razões de ordem social, mas não unicamente. No entanto, a Matemática, a par de outras disciplinas (de que são exemplo as línguas estrangeiras), têm um carácter especial, que lhes confere um maior insucesso. São disciplinas em que os conhecimentos assentam noutros anteriormente obtidos. Resultado: o insucesso de um ano escolar é um potencial insucesso dos seguintes, num efeito de bola de neve. Partindo deste facto, encontra-se aquela que é, provavelmente, uma das maiores razões para o insucesso nesta disciplina: a organização das escolas em anos de escolaridade. Apesar da Lei de Bases do Sistema Educativo preconizar a existência de ciclos, estes limitam-se a ser uma denominação de um conjunto de anos de escolaridade. As escolas trabalham em função de cada ano de escolaridade, cabendo aos alunos não obter mais do que tantas negativas para que possam transitar para o ano seguinte. Na Matemática, e não só, o resultado está à vista: vários alunos "encostam" a disciplina a um canto, tendo a perfeita noção de que poderão transitar de ano com negativa nessa disciplina e, consequentemente, o seu insucesso estende-se aos restantes anos de escolaridade seguintes. Chegados ao secundário, eis que se dá o descalabro. Estes garotos, não todos, não sabem nada da disciplina. Os professores põem as mãos na cabeça, dizem que os alunos (todos) não sabem nada, que a culpa é dos professores do 3º ciclo, que por sua vez já culparam os do 2º, e por aí em diante. Por outro lado, tendo em conta que o país, nos últimos anos, sofreu uma evolução de ordem económica (evolução esta superior à das mentalidades), permitindo às famílias que os seus filhos estejam mais tempo na escola, cada vez mais alunos com estas características chegam ao secundário, o que leva os professores a afirmarem que isto cada vez está pior (não percebem que antigamente estes alunos não chegavam ao secundário).
E por hoje mais não digo, pois tenho que dar banho aos meus filhos.
André Pacheco
Estamos de acordo na globalidade.
O problema é que esta questão se arrasta há muitos anos. E vamos continuar assim por mais quantos anos?
Sou de Línguas estrangeiras e posso confirmar determinados factos que apontou. Quanto ao insucesso,talvez não seja tão gravoso como se alardeia. Há alunos que são péssimos, sem dúvida! Mas há alunos que são excelentes. Porque é que não se fala também neles? E os professores, em vez de dizerem que isto cada vez está pior, que as gerações que vêm sabem e fazem cada vez menos, que tal aceitar que os tempos mudaram, que o nosso papel agora é outro, que não podem continuar a dar as suas sessões de «parlapié» e a fazer 2 testes por período? Ouvi há pouco, numa reunião, que os míudos cada vez valem menos a pena... não sei o que a pessoa queria dizer exactamente... mas acho é que, com tanta "gente boa" no desemprego, estes, os que têm tantos anos como «dadores de aulas» é que já não valem a pena e não sabem que rumo tomar neste mundo em mudança. Estamos lá pelos meninos que entram todos os anos. E afinal de contas, os que se queixam mais são exactamente os que pertencem à geração dos que educaram os meninos que chegam agora à escola e são irresponsáveis e pouco trabalhadores... isto quer dizer alguma coisa, não?
Afixado por: SD em fevereiro 11, 2004 07:46 PM