Na primeira semana de Setembro, já colocado noutra escola, o director de turma dirigiu-se à sua anterior escola para presidir à nova reunião de reapreciação da avaliação da aluna. Felizmente, a maior parte do conselho de turma mantinha-se na escola, o que fez com que só dois membros desse conselho não participassem na reunião (de acordo com ordens da direcção regional).
Quando o director de turma e presidente do conselho executivo apresentaram os factos aos restantes professores, uma onda de indignação varreu aquele espaço. Não em relação à aluna, pois esta era uma espécie de vítima em todo este processo (independentemente de ter agido bem ou mal no mesmo); nem em relação à encarregada de educação, pois pessoas como ela, que agem de forma pouco ética, estão espalhadas pelo mundo (felizmente a maior parte dos encarregados de educação não têm comportamentos semelhantes, muito pelo contrário, os que têm algo a dizer ou agir, fazem-no de forma frontal e honrosa); mas sim em relação à direcção regional de educação, que agira de uma forma tão parcial, pouco profissional e desastrosa.
Após o primeiro impacto, a ideia que surgiu em todas aquelas cabeças, e de forma independente, foi a mesma que o director de turma e o presidente do conselho executivo já partilhavam: algo pouco límpido se passava aqui, parecia haver qualquer influência de forma a obter determinado resultado.
Com esta ideia em mente, alguns professores começaram por afirmar nada haver a fazer, que a aluna iria obter aprovação independentemente do que se passasse nesta reunião, logo, mais valia decidir pela aprovação da mesma. No entanto, à maior parte dos professores esta ideia repugnou-os, acreditando que, se tal fosse mesmo verdade, não ficariam bem consigo mesmo, preferindo desiludir-se com o país e a direcção regional, do que com eles próprios.
Para o director de turma esta história representava aquelas de que ouvia falar, de cunhas e afins, em que dificilmente acreditava, mas agora vivia-a pessoalmente, com um grau de participação elevadíssimo.
Depois de várias horas a discutir o processo, bem como a mostrar a sua indignação (como se tudo fosse uma daquelas histórias que se ouvem, em que não conseguimos calar a nossa indignação e repulsa, indignação esta que volta de tempo a tempo sempre que a história nos surge no pensamento), o conselho de turma optou por manter a avaliação da aluna, pois não havia argumentos para não o fazer, construindo um documento onde toda a argumentação da direcção regional era facilmente rebatida, visto essa mesma argumentação ser muito mal fundamentada, muito fraca mesmo. Os professores, depois de realizarem o documento, ficaram insatisfeitos. Isto porque consideravam o documento pouco poderoso em relação à forte indignação que sentiam. No entanto, dificilmente poderia ser mais forte, tendo em conta a inconsistência e a fragilidade da argumentação da direcção regional. De facto, a vontade do conselho de turma era, de algum modo, criticar a postura da direcção regional e não se limitar a contestar a argumentação apresentada. Na realidade, tendo em conta a indignação sentida, de quem durante um ano lectivo inteiro dá o seu melhor, avalia da forma que considera mais correcta e mais rigorosa, que tudo faz para ser o mais profissional possível, e vê agora uma qualquer instituição procurar uma forma de contrariar o seu trabalho, não detectando falhas óbvias e visíveis, mas sim procurando falhas no acessório, no pormenor mais insignificante; a vontade deste conselho de turma era “desancar” a direcção regional, apontando-lhe as falhas no seu procedimento, algo que era extremamente simples face às evidências. Mas, pelo contrário, preferiram, não o confronto, mas sim a postura profissional, fazendo o que lhes competia, ficando de consciência tranquila.
No que se refere ao director de turma, o que mais o chocava era a possibilidade da aluna conseguir a aprovação, não porque assim o merecesse, pois nunca a direcção regional colocou em causa a sua avaliação, em qualquer das disciplinas, mas sim por um qualquer erro formal que só eles detectavam e consideravam como tal. Pois se houvesse um erro grosseiro no processo de avaliação, o director de turma compreenderia se a aluna fosse aprovada, sobretudo se tal erro a tivesse prejudicado, mas neste caso fazê-lo era quase criminoso. Mesmo que em termos legais houvesse razões para a sua aprovação, no que se refere à moralidade e ética, tal acto era totalmente imoral. E tudo isto num tempo em que se fala da necessidade de rigor na avaliação, argumentando-se que os alunos chegam ao secundário mal preparados. Seria o cúmulo da falta de vergonha.
Resumindo, o conselho de turma fez o que lhe competia, manteve a sua dignidade e profissionalismo, enviando a bola para o lado da direcção regional, esperando novidades.
(Cenas do próximo episódio: a aluna pede transferência de escola antes do início do ano lectivo.)