dezembro 04, 2003

Escola em portugal

Tal como prometido, embora há uns tempos largos, vim aqui desabafar com todos e participar neste espaço importante!
Sou um professor novato, é o meu primeiro ano a dar aulas, neste caso de Educação Musical, acabei a ESE do Porto o ano passado... Poderia falar de n coisas, mas vou partilhar com vocês alguns pensamentos que tive aquando da primeira reunião de conselho de turma!

Há uns tempos perdi a virgindade no que toca a reuniões de conselho de turma! Foram convocadas reuniões para se discutir o projecto curricular de cada turma.
Uma vez mais voltei a verificar o cancro que sofre a escola...
O habitual atraso de meia hora não fugiu à regra, servindo de prelúdio. Começada a reunião onde participavam professores, delegada e sub-delegada da turma, o director de turma começou por caracterizar a turma em termos de hábitos, idades, biografias, situação dos pais, saúde, etc.... Terminado este primeiro ponto, passou-se aos "casos problemáticos da turma", aos alunos que revelavam falta de atenção, maus resultados, mau comportamento, etc., e foi aqui onde começaram a percorrer-me alguns arrepios pela espinha. A princípio falou-se de um caso grave, um aluno que tinha princípios de hiperactividade, desorganizado, desconcentrado, que todos os professores se queixavam, frisando, por outro lado, ser muito inteligente... como para música vai só metade da turma, ainda não conheço o rapaz, e quando me pediram a opinião disse que infelizmente ainda não conhecia o famoso rapaz, ao que ripostaram, depois de alguma risota, "disseste infelizmente? ah ah ah ah... depois de o conheceres já não vais dizer o mesmo...". Não percebi bem porque se riram e porque disseram tal frase, porque é minha intenção tomar contacto com este rapaz e ajudá-lo. De seguida voltaram a falar de outros alunos que não se concentravam e que não acompanhavam a turma, que distraíam os outros. A professora de Inglês dizia muito séria: "eles tiveram todos negativa no teste, o nível nem é baixo, é muito baixo, têm de resolver os problemas deles". Na minha inocência de caloiro disse: "problemas deles que são nossos, mais, são mais nossos do que deles"... O verdadeiro momento chegou um pouco antes de os alunos se retirarem da reunião. Apercebendo-me disso, quis fazer um comentário louvando esta turma por ainda não estar completamente metalizada, robótica. Chamei a atenção para não deixarmos morrer o pouco de humanos que ainda possuem, e por ainda conseguirem apreciar a beleza de uma música, assim como a beleza de um quadro ou uma frase; de todas as minhas turmas é, com certeza, a que dá mais valor à experiência por ainda porem algum sentimento nela, embora o humanismo, a sensibilidade, seja tão reduzida... Após a minha intervenção os professores riram-se e concordaram comigo, dizendo, no entanto, que daqui a um ano isso já me passou...
Chegou a próxima reunião, desta vez do 8ºA e, nesta sim, queria intervir mais por ser já uma turma de alma metálica, porque quando os vejo a entrar pela sala de aula vejo ao mesmo tempos 10 alunos que são também 10 bigmac´s... todos iguais, produzidos de igual forma, com o mesmo fim... a especificidade de cada um e a procura pelo belo, assim como a sensibilidade, foram rudemente mortas pela nossa escola, da qual eu faço agora parte, "tantos e todos sendo" – Fernando Pessoa... O esquema da reunião foi sensivelmente o mesmo, mas nesta turma havia um caso mais grave, uma aluna que chegou este ano de França para estudar em Portugal e que, portanto, não percebia nada de português e na maioria das aulas estava ausente psicologicamente... Cada professor opinava sobre o caso e falava da sua disciplina, que a avaliação tinha de ser diferente, outros discordavam; outros que devia recuar um ano, outros não; outros que não podia perder tempo com uma aluna porque tinha outros para ensinar na turma, outros não; etc... Timidamente, eu, um caloiro no meio de tantos professores com anos de experiência, disse: "realmente temos um problema grave para resolver, mas pensem comigo, a razão de estarmos a discutir isto, em que afinal a grande prejudicada é a aluna, é simplesmente porque a temos de encaixar numa turma governada por um programa idêntico para vinte alunos que efectivamente são diferentes entre si... a solução era acabar com as turmas para podermos pensar em cada aluno e não num aluno comparando-o a 19...." .O silêncio que durou um segundo foi para mim de horas e, rapidamente apercebendo-me de algum mal estar disse: "foi uma ideia que me passou pela cabeça..." ........a directora continuou com os restantes pontos...!
Foi assim a minha estreia nas reuniões dos conselhos de turma, ainda me aguardam mais duas reuniões que pretendo sem duvida tocar no ponto humanístico, sensibilidade, que toquei nas duas outras reuniões, tendo algum feedback ou não... Houve realmente coisas que me deixam preocupado em relação ao futuro, os professores tocam nas feridas mais profundas na escola sem se aperceberem, nas razões que exigem a emergência de outro rosto da escola procuram soluções paradoxas... preocupo-me principalmente quando me dizem "daqui a um ano, essas ideias passam-te!"...
Espero poder estar presente daqui a um ano para poder refutar com alegria essa afirmação.

Com amizade,
Filipe

Publicado por asampacheco em dezembro 4, 2003 08:15 PM
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