abril 08, 2008
As novas pedagogias e o eduquês
Há uns dias, aquando do célebre e triste acontecimento do telemóvel na aula de Francês de uma escola no Porto, foi entrevistada uma pedopsiquiatra num dos canais de televisão. Uma das primeiras perguntas efectuadas pelo entrevistador foi: “Este incidente é consequência das novas pedagogias na escola”?
Não foi textualmente deste modo mas o sentido era o mesmo desta pergunta. A que novas pedagogias se referia o entrevistador? Em que escola? Ele sabia-o? A pedopsiquiatra sabia? As pessoas que estavam a ouvir aquela entrevista sabiam? Temos assim entrevistadores com tantos conhecimentos no âmbito da Pedagogia? Neste caso deveria ser aproveitado para a formação de professores.
A pedopsiquiatra perguntou ao entrevistador a que pedagogias se referia? Não. Limitou-se a responder num sentido totalmente diferente da pergunta realizada ignorando aquele chavão idiota que não mais demonstra do que um profundo desconhecimento sobre o assunto a que aludia. Duvido sequer que o entrevistador saiba em que consiste a Pedagogia, tendo em conta o número gigantesco de vezes em que profissionais da comunicação social utilizam a expressão “numa atitude pedagógica”, referindo-se a atitudes de adultos tomadas em relação a outros adultos, não vendo que na génese da expressão pedagogia se encontra a criança. Deste modo, não se pode exercer pedagogia sobre um adulto. Mas isto ainda perdoo pois trata-se de uma expressão popular que já se enraizou na comunicação oral portuguesa. Mas, sinceramente, não há qualquer problema em que o entrevistador não saiba o que é Pedagogia ou as “novas pedagogias”. Grave é que professores utilizem a mesma expressão, sem saber a que pedagogias se referem, colocando as culpas do estado a que as nossas escolas chegaram em pedagogos que nem o nome conhecem, dos quais não leram uma linha escrita pelos, ou sobre, os mesmos, repetindo aquele chavão que ouvem por parte de outros tanto, ou mais, ignorantes que eles sobre o assunto. Mas, arranja-se um bode expiatório para todos os problemas e está o caso encerrado. Todos poderão dormir descansados.
Custa-me imenso afirmar tais factos, pois em causa estão também colegas meus pelos quais tenho um enorme apreço pessoal e profissional, mas tais afirmações são infelizmente verdadeiras.
Poucos dias depois, o incidente do telemóvel deu origem a um debate num outro canal de televisão. Perto do fim do debate foi colocada uma questão a um dos elementos que estava no palco. Não me lembro sobre o que era a questão, mas ao responder à mesma o entrevistado fez uma referência ao Movimento da Escola Moderna, não sendo essa alusão muito importante no contexto na resposta. No entanto, para um membro presente na plateia a junção das palavras “Escola” e “Moderna” (e, provavelmente, “Movimento”), lançou-o num ataque impregnado de ódio sobre o discurso do anterior interveniente, atacando as “novas pedagogias” e o “eduquês”. Mais uma vez, ninguém lhe perguntou quais eram essas “novas pedagogias” a que fazia referência. E quais as escolas nas quais elas estariam a ser implementadas. O anterior interveniente também não pôde responder ao que este disse, visto não lhe terem dado a palavra. No entanto, mesmo que o fizesse, duvido que a outra pessoa compreendesse a resposta.
Nesse ataque feroz, o interveniente em causa convocou outros dois elementos conhecidos por atacar as “novas pedagogias”: António Barreto e Nuno Crato. Estes dois indivíduos com carreiras importantíssimas no ensino não superior (estou a ser irónico, claro está), têm muito a afirmar sobre o mesmo, tendo em conta a sua vasta experiência nesse nível de ensino (continuo…). Nuno Crato, aliás, utilizou uma expressão da qual Marçal Grilo é autor, a expressão “eduquês”, expressão que se encontra ligeiramente ao mesmo nível da expressão “novas pedagogias”: ambas dão nas vistas, mas são pobres de significado. Não é que Marçal Grilo não tenha razão ao utilizar essa expressão para classificar o discurso teórico de profissionais das Ciências da Educação que vivem a teoria sem a prática, levando a alguns devaneios teóricos. No entanto, a colagem desta expressão a outras tais como a “novas pedagogias”, veio retirar valor à expressão por si inventada.
No livro que intitulou com essa expressão, Nuno Crato faz também alusão a ideias e atitudes que têm tido um papel dominante na política educativa, ideias segundo ele identificadas, nem sempre de forma correcta, com a “escola moderna” ou com o “ensino progressista”. O que Nuno Crato se esquece é que o modo de trabalhar de um professor com os seus alunos não muda por decreto ou por vontade política. E o processo educativo depende fundamentalmente do trabalho efectuado pelos professores e alunos, e o modo como este é organizado depende dos professores. Compreendo que para Nuno Crato só haja uma forma de organização desse processo, tendo em conta que a sua experiência profissional se resume, praticamente, ao Ensino Superior. Neste, salvo raríssimas excepções, há um professor conferencista (no caso do Ensino Superior esta expressão é elevada ao seu expoente máximo), e no final do semestre classifica-se o aluno através de um exame. Chamam a isto um processo educativo? Será por acaso que tantos alunos deixam de frequentar as aulas de muitos professores do Ensino Superior? Por que carga de água vêm opinar estes indivíduos sobre o ensino não superior? Não ponho em causa as intenções de Nuno Crato, que considero as melhores, nem a sua qualidade como cientista. No entanto, penso que ele deveria ter em conta os seus parcos conhecimentos sobre o ensino não superior, alicerçado, sobretudo, no senso comum, e deveria tentar conhecer um pouco mais sobre o modo de organização do processo de aprendizagem por parte de outras correntes pedagógicas, não se limitando a criticar as mesmas usando para tal a censura ao “Romantismo de Rosseau”. Não pretendo de modo algum defender este último, mas considero intelectualmente desonesto usá-lo para atacar homens e mulheres tão importantes como Freinet, Neill, Parkhurst, Washburne e Piaget, entre outros.
Mas nada disto importa. Os que falam nas “novas pedagogias” nunca lerão estas linhas, nunca saberão do que falam, e a tal expressão continuará a ser utilizada num processo bola de neve também conhecido por carneirada do senso comum. O que realmente importa é que os professores do ensino não superior, de uma vez por todas, assumam a especificidade da sua função e se assumam como pedagogos. Não podemos continuar a ser uns meros “dadores de aulas” deixando que todo e qualquer “professor de bancada” nos critique e diga como deveremos exercer o nosso ofício. Longe vão os tempos de expressões como “não conseguiu mais nada, foi para professor”. Grande parte dos professores que actualmente se encontram no sistema de ensino estão lá porque acredita na importância do que fazem. Como tal, devem dizer aos “professores de bancada”: desculpe lá, respeito a sua opinião, mas não passa disso mesmo, de uma opinião; eu é que tenho conhecimentos teóricos e práticos sobre o tema, se um dia quiser saber um pouco sobre o mesmo, terei todo o prazer em elucidá-lo.
Mas para tal há um preço. Para se fazer tal afirmação é importante que a mesma seja verdadeira. Desse modo, os professores deveriam ter um melhor conhecimento sobre, pelo menos, a história da Educação e os alicerces de alguns dos movimentos pedagógicos, para aprenderem algo sobre os mesmos (concordando ou não com eles). Desta forma deixariam de falar, de um modo tão abstracto, próprio do senso comum, sobre as “novas pedagogias”. Por outro lado, deixariam de ter receio da presença de encarregados de educação, entre outros elementos, em órgãos de gestão das escolas, pois caso um deles se imiscuísse em questões pedagógicas a resposta só poderia ser: não fale do que não sabe, cada macaco no seu galho. No entanto, para que os professores passassem a ter tais conhecimentos em Pedagogia teriam de ler.
Muitos dirão que já muito têm que fazer, que não têm tempo para tal. Isto choca-me. É óbvio que todos temos direito a partilhar a vida com os nossos familiares e amigos e a divertirmo-nos, como qualquer outro ser humano. Mas será assim tão difícil ler um pouco de vez em quando? Como reagiria um professor a um aluno que diz não ter tempo para estudar? Como podemos pedir excelência aos nossos alunos se nos contentámos em ser medíocres? A nossa formação profissional acaba quando saímos da faculdade? Aliás, a formação inicial de professores prepara alguém para ser professor? Sejamos honestos: um livro por ano, ou um conjunto de textos sobre temas educativos, juntamente com a reflexão pessoal e conjunta por parte dos professores de uma escola, não poderia ser benéfico para o trabalho efectuado com os alunos na mesma? Ou não acreditamos na importância de aprender?
março 17, 2008
Avaliação de desempenho – um olhar preocupado
Sim! Este local ainda está vivo… O tempo é que tem sido muito curto. Por essa razão é que, havendo tanto sobre o que escrever, não o pude fazer entretanto. Sendo o trabalho docente uma função que ocupa uma enorme quantidade de tempo, ao contrário do que alguns tentam vender e que outros, colegas meus, não mostram acontecer, este ano temos tido a novidade da existência de uma produção em massa de nova legislação, a todos os níveis e mais alguns. Há a necessidade de ler, reflectir, discutir e conhecer as várias propostas de legislação e contínuas modificações e, por fim, as versões finais dos diplomas que, em muitos casos, ainda carecem de outras regulamentações que, mais uma vez, temos a necessidade de ler, reflectir, discutir… Para complicar ainda mais um pouco esta situação, a importância da legislação que tem saído, alguma dela com repercussões no futuro profissional individual de cada professor, bem como no funcionamento interno das escolas, implica uma atenção redobrada e leitura mais cuidada de tudo o que tem saído, o que faz com que haja pouco tempo para realizar outras tarefas igualmente importantes (já para não falar da vida pessoal que, posso assegurar, qualquer professor tem). Deste modo, este local passou por uma particular acalmia, numa fase em que outros sítios importantíssimos produziram muito material sobre a actual situação.
Tentando sempre manter uma linha de discurso construtiva, resolvi focar mais profundamente um ponto que me preocupa especialmente: a presença dos resultados escolares dos alunos na avaliação do desempenho dos professores. Sobre este ponto já foram produzidas mil e uma opiniões, desde as mais idiotas, feitas por “professores de bancada”, com as comparações mais ridículas que possamos imaginar, até àquelas feitas por pessoas que têm algum ou muito conhecimento sobre o que estão a falar. Acredito que qualquer pessoa com bom senso compreende que há razões a favor e contra tal apreciação para efeitos da avaliação do desempenho docente. No entanto, algumas das razões que já li para defender tal posição consistem em comparações com outras profissões que, para o senso comum, poderão ter alguma lógica sem uma reflexão cuidada, mas que, para quem tem formação, vive diariamente e estuda continuamente o fenómeno educativo, sabe que tais comparações constituem uma falácia. As mais ridículas são as que tentam comparar a escola a uma indústria, onde os resultados escolares funcionam como a produção da mesma unidade industrial. Uma visão ingénua e ignorante sobre tal comparação poderá ver alguma lógica na mesma. No entanto, convém lembrar que uma produção industrial também depende da qualidade da matéria-prima. Alguém considera lícito que um trabalhador seja avaliado negativamente devido ao facto da matéria-prima usada ser inadequada para o efeito a que se propõe? Ou que um agricultor seja avaliado negativamente devido ao facto de uma tempestade ter destruído toda a sua plantação? Sim, estou a exagerar a comparação, mas só assim algumas mentes compreenderão…
Outra comparação que se pode encontrar é com os médicos. Mais uma vez uma reflexão descuidada poderia ver aqui alguma lógica. Mas, e se a comparação fosse feita com os médicos cirurgiões que muitas vezes recebem acidentados graves praticamente às portas da morte? Alguém tem coragem de afirmar que algum destes profissionais não faz todos os possíveis para salvar a vida dos seus pacientes? Certamente que há uns melhores que outros. E os melhores serão certamente aqueles que se ocuparão dos casos mais complicados. Daí, provavelmente, terem um maior grau de ineficácia nas suas operações urgentes. Tal é tido em conta e todos compreendem que a medida de sucesso nestes casos, tais como os do sucesso dos alunos nas mais variadas disciplinas, é muito difícil de medir, havendo uma quantidade descomunal de factores que devem ser tomados em conta. No caso da avaliação docente, levando em linha de conta este facto, tentaram contornar um dos múltiplos factores que deveriam ser levados em linha de conta, olhando para o desempenho dos alunos não de uma forma crua, mas em comparação com os resultados anteriormente obtidos pelos mesmos. E aqui é que a coisa se complica…
Deste modo, sejamos construtivos e partamos do pressuposto que é licito avaliar os professores partindo da avaliação dos seus alunos (o que não é uma ideia tão absurda quanto isso, o grande problema é a forma). Reflictamos então de um modo honesto, e partindo de dentro da escola (ou seja, sabendo do que se fala), sobre as possíveis repercussões de tal facto.
Independentemente da justiça ou não na avaliação dos professores, preocupa-me mais, e penso que será consensual, que a presença da avaliação dos alunos no sistema de avaliação dos docentes contribua para uma artificial inflação das avaliações sumativas dos alunos. Obviamente que os professores não são um bando de indivíduos sem ética profissional, capazes de inflacionar as suas notas de modo a obterem uma melhor avaliação pessoal. Do mesmo modo, nem todos os professores são detentores de uma ética profissional impecável. Como em todas as profissões, também na docente há bons e maus profissionais, também na docência há pessoas sérias, com ética e brio profissional, e outras que não. E a presença da avaliação dos alunos na avaliação docente vem beneficiar indubitavelmente aqueles que não têm qualquer pejo em agir de forma pouca séria para proveito próprio. Até ao momento, não foi só um professor a afirmar, alto e bom som, na sala de professores da minha escola, que se tiver de aumentar as suas notas assim o fará. Tal como não foi só um que afirmou, igualmente alto e bom som, que nunca o fará. Por outro lado, se há professores que, neste momento, são já capazes de aumentar algumas das suas notas por razões descabidas, quanto mais para proveito próprio. E que ninguém ouse colocar tal afirmação em causa, pois enquanto escrevo estas linhas estou a pensar num caso que vivi ainda muito recentemente… Chamo ainda a atenção para outro facto perigoso: se um professor inflacionar as suas notas, irá criar uma maior pressão sobre o professor que o suceda nessa disciplina com os alunos em causa, pois se a avaliação dos mesmos piorar, tal irá prejudicar o novo professor. Mais injusto é difícil!
Tendo em conta todos estes factores pode haver quem contraponha com a avaliação externa para controlar procedimentos menos sérios. Nada mais errado! Primeiro, poucas são as disciplinas, no ensino básico, onde haja avaliação externa. Só este ponto cria mais um factor de injustiça. Pode-se propor então avaliação externa para todas as disciplinas: é pior a emenda que o soneto… Já basta a alguns professores terem de sofrer a injustiça de se comparar duas coisas incomparáveis: a avaliação sumativa interna com a avaliação sumativa externa. Para além dos exames nem sequer serem instrumentos de avaliação, mas sim de classificação, como se pode comparar uma avaliação que resulta de uma observação contínua e sistemática que incide em inúmeras competências e objectivos de uma disciplina e onde tem ainda um considerável peso a avaliação das atitudes e valores demonstrados por parte do aluno, com uma classificação de um exame onde são postos à prova, de forma pouco consistente, cerca de uma dezena de objectivos dessa disciplina.
Para piorar toda esta situação, deve-se ainda relembrar que as cotas atribuídas às escolas para os Excelentes e Muito Bons dependem também da avaliação da escola. E para esta avaliação também será levado em conta a melhoria dos resultados escolares. Ou seja, temos uma pressão extra nos professores e conselhos executivos, que poderá produzir um aumento artificial das notas. Sendo assim pergunto: tudo isto será feito de boa fé?
Resumindo, não haja dúvidas que nunca poderá ser consensual o pensamento sobre este ponto. Há razões lógicas na defensa das duas posições. O que deverá preocupar todos os profissionais sérios da educação são as possíveis repercussões de tal ponto da avaliação.
Por fim, caso a minha tentativa de consenso possa tornar dúbia a minha posição sobre o tema, devo afirmar que, pesados todos os prós e contras, coloco-me contra a presença deste item de avaliação docente. Não coloco em causa que o professor não seja importante para a obtenção efectiva de aprendizagens por parte dos alunos. No entanto, ele não é o acessório essencial. O principal agente da aprendizagem é o aluno. Ele é que é essencial. Basta pensar que poderá haver ensino sem aprendizagem, tal como poderá haver aprendizagem sem ensino. E como o primeiro caso nada vale em si mesmo, o enfoque deverá ser colocado na aprendizagem, onde o agente principal é o aluno. Como alguém afirmou: “Não se pode ensinar um gato a falar francês” (nem com o melhor método de ensino do mundo, se é que existe). Tendo em conta este factor, prejudicar um docente pelo facto de um aluno se estar pura e simplesmente a borrifar para a escola ou para a sua disciplina não é sério. Por outro lado, este enfoque no papel do professor no que concerne aos resultados escolares dos seus alunos só vem aumentar a desresponsabilização dos alunos e das suas famílias neste ponto. Já não chegámos a um ponto suficientemente grave neste aspecto? Não ponho em causa que haja maus profissionais na educação e que os estragos por eles causados sejam gravíssimos, prejudicando os alunos e os restantes professores. No entanto, esta medida não vem pôr em causa esses profissionais mas sim os outros, aqueles que são responsáveis e acreditam na importância do seu papel na sociedade. E a desresponsabilização de alunos e encarregados de educação só vem aumentar a falta de respeito pela classe docente, presente cada vez mais nas nossas escolas. Só nesta semana ouvi duas histórias, cuja multiplicação se tem vindo a demonstrar preocupante: uma mãe que foi à escola pedir satisfações à directora de turma pelo facto desta ter ficado provisoriamente com o telemóvel da sua menina por esta o ter utilizado na aula; e um aluno de nono ano lembrou a uma sua professora que devia pensar bem na avaliação sumativa pois a mesma agora irá contar para a sua avaliação de desempenho… mais palavras para quê? São artistas portugueses…
novembro 12, 2007
Uma aventura no Hospital de Faro
Este texto poderá inicialmente parecer um pouco desfasado do tema deste sítio. No entanto, espero que durante a leitura do mesmo seja possível compreender que esse desfasamento é irreal. Começo por contextualizar os acontecimentos aqui relatados. Como é do conhecimento dos leitores deste espaço eu sou professor de Matemática. Apesar de normalmente estes não serem assíduos praticantes desportivos, eu sou um professor de Matemática atípico neste aspecto. Para além disso, apesar de ser fisicamente uma espécie de meia-leca, tal não impede que seja jogador federado de basquetebol, num grande clube, na melhor cidade do mundo. Assim, como quem anda à chuva molha-se, num dos treinos do clube consegui dar cabo do dedo mindinho da mão direita, de um modo doloroso. Com a preciosa ajuda do treinador, as falanges do dedo voltaram para os locais iniciais e, exceptuando as dores, tudo parecia estar bem. Era só uma questão de “fazer gelo” durante uns dias e tudo ficava bem.
No entanto, apesar de todo o gelo, o dedo no dia seguinte não parava de inchar, dorido e a perder mobilidade. Como já tinha conseguido uma vez partir um dedo e só uns dias depois ir ao centro de saúde, com todas as implicações nefastas que tal traz, desta vez optei por ser mais cuidadoso e, com receio que algo não estivesse bem, decidi ir ao Centro de Saúde de Tavira. Como não tinha aulas nessa manhã fiz uma visita ao referido centro de saúde. Neste fui muito bem tratado. Chamado após uma breve e compreensível espera e depois de uma visita ao raio X, fui informado pela médica responsável por mim que o dedo não estava fracturado mas que os ossos estavam um pouco em mau estado, daí ter de ir para o Hospital de Faro para ser observado por um ortopedista. Como tinha aulas nessa tarde perguntei-lhe se poderia ir no dia seguinte, ao que ela me respondeu que deveria ir o mais rapidamente possível, tendo-me dito para almoçar e, de seguida, ir para Faro. Convenceu-me… Por um lado, por causa dos miúdos, não queria faltar às aulas, por outro lado sei que as faltas que dei, mesmo que por doença, me prejudicam profissionalmente, mas com a saúde não se brinca. Deste modo, fui almoçar, falei com o presidente do conselho executivo da escola sobre o que se passava e parti para Faro, onde se daria uma aventura extraordinária a vários níveis.
Antes de narrar a aventura devo dizer que, por várias vezes e variadíssimas razões, já tive de usufruir indirectamente dos serviços do Hospital de Faro para assistência a familiares. Para além disso, um dos meus filhos nasceu lá, o que me faz sentir algum carinho por aquele local. Só uma vez fiquei desiludido com um facto lá vivido (não directamente ligado a serviços médicos), o que me fez redigir uma reclamação por escrito no livro para esse efeito. Sem discussões, de um modo calmo, exerci um dos meus direitos e dever de cidadão. Direito de reclamar e dever de evitar que outros sofram das mesmas falhas de que tinha sido alvo.
Cheguei ao Hospital de Faro e dirigi-me às suas urgências onde expliquei os acontecimentos que precederam a minha chegada ali. Em seguida, fui chamado à sala de triagem, onde expliquei novamente o sucedido e entreguei a carta proveniente do Centro de Saúde de Tavira explicando os procedimentos de que eu tinha já sido alvo. Depois de me terem etiquetado com cor amarela, o nível de urgência mais alto que observei naquele dia nos doentes que entravam pelo seu próprio pé, foi-me dito para me sentar na sala presente ao lado da sala de triagem, dizendo-me para esperar que fosse chamado. E assim fiz. Todos os outros doentes presentes nessa sala, de todas os graus de urgência, e alguns chegados muito depois de mim, foram sendo chamados, um a um, e eu… nada. Comecei a estranhar mas acreditava que a minha não chamada se prendia à especificidade do meu problema que necessitava de um ortopedista, ao contrário da maior parte das pessoas ali presentes que padeciam de outro tipo de maleitas. Mas, por outro lado, outros doentes com problemas similares ao meu e com o mesmo grau de urgência do meu foram sendo chamados. Ao fim de três horas de espera tentei compreender o que se passava. Dirigi-me a uma enfermeira que estava no momento perto da sala de espera onde eu me encontrava e, educadamente, perguntei-lhe se era usual uma espera de três horas tendo eu a pulseira amarela. Disse-me para ir até à sala 6, sala que tratavam dos pacientes de grau amarelo, e que perguntasse se estava demorado o atendimento. Achei estranho mas, como não tinha mais onde me dirigir para compreender a minha situação de espera no hospital, não tinha outra saída que não fosse fazer o que a enfermeira me tinha aconselhado. Cheguei à dita sala e vi uma médica a ver uns papéis na secretária mais próxima da porta. Dirigi-me a ela e coloquei-lhe a questão que já tinha colocado à enfermeira momentos antes. Respondeu-me, praticamente sem olhar para mim, que teria de esperar pela minha chamada. Como tal resposta não servia minimamente para dissipar as minhas dúvidas sobre o que se passava disse-lhe que muitas outras pessoas entradas depois de mim já foram chamadas e voltei a perguntar se era costume acontecer esperas como aquela que eu estava a ter (se tal fosse normal ficaria mais descansado, por muito desagradável que fosse esperar). Desta feita pouco mais tive de resposta do que um encolher de ombros sem sequer olhar para mim. Tentando perceber um pouco do funcionamento organizacional daquele espaço, para tentar compreender o porquê da minha longa espera em oposição com as esperas relativamente breves dos outros doentes, perguntei-lhe então se entre os doentes do mesmo grau de urgência há outros critérios que façam com que uns sejam chamados antes de outros. Aqui recebi um sim com muito desprezo que me fez compreender que dali não tirava qualquer informação minimamente relevante e, resignado, voltei para a minha sala de espera com a esperança de que brevemente seria chamado.
Mais uma hora passou e eu, após uma desesperante espera de quatro horas, estava decidido a ter uma explicação para o que se passava ou iria embora, passando mais uma vez pelo livro de reclamações. Quando sai da sala de espera, o único sítio onde estavam pessoas que me poderiam auxiliar era na sala de triagem. Deste modo, dirigi-me à referida sala, esperei que a enfermeira aí presente terminasse de receber um doente, e disse-lhe que estava já há quatro horas à espera, que toda a gente chegada depois de mim já tinha sido chamada, que parecia que algo de errado se estava a passar com o meu processo ali dentro e se era possível saber se tudo estava a correr como era suposto. A enfermeira respondeu-me que ali era a sala de triagem e que não podia dar qualquer informação sobre isso. Esta falta de auxílio a um doente começava a desesperar-me e, tentando manter a calma, disse-lhe que não queria discutir, que já tinha ido lá dentro e que tinha sido menosprezado por uma médica, que se no meu local de trabalho alguém aparecesse com problemas que eu auxiliaria automaticamente essa pessoa e que, se ninguém me ajudasse a compreender o que se passava, iria embora daquele local não sem antes deixar uma reclamação no livro para o efeito. Voltou a insistir que nada poderia fazer, que se ela fosse falar com a médica seria igualmente menosprezada e que o que me restava era voltar lá à sala tentar perceber o que se passava. Desesperado resolvi voltar à sala em causa, tentando manter a calma para que a educação da minha parte continuasse a ser a nota dominante (o que estava a ser cada vez mais complicado). Chegado à porta dessa sala não visualizei qualquer médico perto da porta mas, pouco depois, surgiu um enfermeiro, visivelmente chateado com qualquer questão profissional com outra secção daquele serviço, discutindo o assunto com outra enfermeira, essa presente dentro da sala. Esperei que ele terminasse de falar do assunto, dirigi-me a ele, e pedi-lhe que me fizesse um único favor. Simplesmente que observasse se a minha ficha se encontrava ali, que em caso afirmativo esperaria mais uma horas sem qualquer problema. Ele efectuou o meu pedido e verificou que, de facto, ali não estava a minha ficha de paciente (fichas essas que se encontravam na secretária onde a outra médica estava sentada quando do diálogo comigo, não tendo na altura feito o menor gesto no sentido de verificar se o meu nome constava em alguma daquelas fichas). Como devem imaginar fiquei transtornado. Não percebia o que se passava, não sabia o que fazer e sentia que a minha espera de várias horas tinha sido totalmente em vão. O enfermeiro tinha de ir para outro local e pediu à outra enfermeira com quem tinha tido o diálogo anteriormente, que ratificasse o facto de eu não constar de qualquer ficha presente naquele local. Ela assim o fez e confirmou tal dado. Perguntei-lhe o que deveria fazer, tendo-me ela me dito para ir ao local onde inicialmente fiz a inscrição nas urgências e perguntar se eu já tinha sido despachado daquele serviço. Ainda em choque, assim fiz. Quando cheguei cá fora, esperei um pouco na fila até chegar à minha vez, e aí fiz a kafkiana pergunta se eu já tinha sido despachado, pois não sabiam da minha ficha de paciente lá dentro das urgências. Como eu disse tudo aquilo com um visível sentido de humor (talvez seria a única forma de não começar a chorar), a senhora sorriu, comentou chocada o facto de mandarem um doente cá fora saber tal coisa, comentário ao qual eu retorqui com um “eu já nem digo nada…”. Afinal, eu ainda não estava despachado. Então, onde estaria eu? Perguntei à senhora o que fazer, ao que ela disse que teria de voltar lá para dentro tentar informar-me sobre o paradeiro da minha ficha de paciente. E eu, cada vez mais atónito, assim fiz.
Quando voltei nem sabia muito bem a quem me dirigir, tendo em conta a fantástica capacidade de “sacudir a água do capote” de praticamente todos os intervenientes da história até então. Como a primeira sala que surgia na entrada para as urgências era a de triagem, voltei a dirigir-me à enfermeira de há pouco. Disse-lhe que na sala para onde me deveriam chamar não sabiam da minha ficha, que me tinham mandando verificar se tinha já sido despachado (não estando de facto despachado), e que já não sabia o que deveria fazer. Nesse momento, pela primeira vez, alguém me questionou no sentido de tentar perceber o que se passava. A enfermeira perguntou-me qual a razão da minha estadia ali. Disse-lhe que era por causa do dedo. Em seguida, perguntou-me se já tinha sido chamado para fazer um raio X (como se não eu não lhe tivesse já dito que ninguém me tinha chamado nas minhas quatro horas de estadia lá). Disse-lhe que não, pois já vinha com o raio X feito do Centro de Saúde. Aí deu-se a descoberta fantástica. A enfermeira informou-me que, se já tinha o raio X feito, deveria estar à espera ao pé da sala 10 e que, provavelmente, já teria sido chamado várias vezes nesse local… Perante tal descoberta só consegui dizer: “Mas mandaram-me esperar nesta sala…”. E, com a raiva e choque que sentia, só consegui proferir um obrigado com um abano de cabeça contínuo de quem estava desesperado. E dirigi-me para a sala 10.
Quando cheguei ao pé da sala 10 não tinha ninguém que me pudesse informar sobre se já tinha sido ou não chamado. Esperei um pouco e, quando vi uma enfermeira passar nas imediações daquele espaço, expliquei-lhe a minha situação caricata. Ela, como seria de esperar de uma profissional, ouviu-me e, em seguida, foi à sala em causa inteirar-se da minha situação. Quando saiu da sala mandou-me entrar, onde fui muito bem recebido pelo médico que me fez uma óptima consulta, durante quinze minutos, o tempo necessário ao meu tratamento.
O que tem esta história a ver com educação? Tudo. O que me chocou em toda esta situação não foi o facto da primeira pessoa ter errado e me ter mandando esperar na sala errada. O que realmente me chocou foi ninguém ter tido a humanidade de perder um minuto que fosse para verificar se algo se passava de errado com a minha inscrição. Sobretudo a médica que desprezou totalmente um doente que a única coisa que queria saber era se havia algum problema com a sua inscrição pois estava a ser alvo de um tempo de espera anormal comparativamente ao dos outros doentes. Poderia falar também da questão organizacional, pois durante conversas com outros doentes ouvi situações caricatas relativas à organização daquele espaço, onde doentes eram esquecidos à espera, até se aborrecerem, e descobrirem que os médicos ainda não tinham conhecimento de que estavam em condições de continuar o tratamento de que estavam a ser alvo. Outro exemplo é o facto de, caso me tenham chamado no serviço correcto, repararam que o doente lá não estava e nem se preocuparam em perceber o porquê de tal situação. Mas isso não me parece o mais grave e está um pouco mais desfasado do tema deste blogue.
O mais grave de tudo é, sem dúvida, a falta de brio profissional e de humanidade de alguns dos intervenientes deste triste episódio. De que me vale a pena ter profissionais cuja média de entrada na universidade é elevadíssima quando depois são médicos destes? Prefiro um médico de 15 valores que me trate como um ser humano, do que um com média 20 que me trate com desprezo. Não haja dúvida que o conhecimento científico é essencial para a profissão em causa, mas não chega. Isto só vem demonstrar a pobreza da avaliação centrada em exames, onde outras dimensões do futuro profissional estão totalmente desprezadas. Tudo isto só vem demonstrar que continuar a decidir a entrada de alunos em Medicina por simples médias ponderadas centradas em notas e exames é algo ilógico e injusto, quer para os bons alunos e potenciais bons profissionais que ficam de fora, quer para os pacientes que têm de aturar médicos e enfermeiros sem qualidade deontológica para o efeito, independentemente dos conhecimentos científicos que tenham.
Como notas finais devo dizer que não efectuei reclamação no livro para o efeito no hospital porque o meu enorme atraso fez com que faltasse a alguns compromissos importantes que tinha marcado e que, para não chegar atrasado ao último destes, saí com pressa do hospital para chegar atempadamente a esse compromisso. Como tal, não tive tempo para redigir a reclamação. Deste modo, resolvi colocar este texto no blogue do qual sou responsável, e enviarei cópias do mesmo a quem de direito, inclusivamente para o hospital visado.
Por fim, lanço um apelo a todos os excelentes profissionais de saúde que existem neste país para que não se deixem influenciar por estes péssimos profissionais que dão uma horrível imagem a toda uma classe. E aos responsáveis por tais serviços digo: separem o trigo do joio. Exijam mais dos maus e protejam os bons, para que os serviços possam melhorar.